La Liga

De sua pequenez o Huesca criou forças e, pela primeira vez, sobe à elite do Espanhol

Na atual temporada, cinco estádios do Campeonato Espanhol possuem capacidade superior a 52 mil espectadores. Cinco estádio abrigariam em suas arquibancadas a população inteira de Huesca, cidadezinha na região de Aragão. O município tem quase o dobro de habitantes de Eibar. No entanto, o feito do SD Huesca é tão grande ou até maior do que o do Eibar, ao conquistar o acesso inédito à elite do Campeonato Espanhol – quando era estranho até mesmo à segunda divisão há uma década. Os nanicos comemoraram sua façanha nesta segunda-feira, ao derrotarem o Lugo por 2 a 0. Mesmo contando com um dos menores orçamentos da segundona, mantiveram a competitividade e asseguraram a promoção à primeira divisão. Barcelona, Real Madrid e os demais clubes da elite terão que encarar a pressão da apaixonada torcida azulgrana no acanhado Estádio El Alcoraz, que será o menor de La Liga, com capacidade para 5,5 mil torcedores.

Por décadas, o futebol não apenas viveu em Huesca, ele sobreviveu. Foram várias as agremiações surgidas na cidade, de vida efêmera. Apenas em 1960 é que, graças a um encontro realizado no Bar Flor, se firmou a instituição que carregaria o nome da cidade ao primeiro escalão do Campeonato Espanhol. Ainda assim, foram várias temporadas de insignificância do SD Huesca. Até 1977, os azulgranas nunca tinham passado da quarta divisão. Apareceram na terceirona pela primeira vez em 1977/78 e, ao longo dos 30 anos seguintes, ficaram na gangorra entre o terceiro e o quarto nível da liga nacional. Já em 2007/08 aconteceu o inédito acesso à segunda divisão.

A chegada à segundona marca a transformação do clube em uma sociedade anônima, administrado pela Fundação El Alcoraz, composta por acionistas próximos à história da instituição – como ex-jogadores e empresários da cidade. Mantendo os pés no chão, os azulgranas aproveitaram bem as oportunidades de mercado e, com contratações de ocasião, mantiveram times competitivos para ao menos permanecer na segunda. Na quinta temporada consecutiva na divisão, porém, aconteceu o descenso à terceirona. Vigésimo primeiro colocado em 2012/13, os aragoneses pareciam ter um longo caminho pela frente.

Pois é neste momento, justamente, que se inicia a epopeia do Huesca rumo a La Liga. A primeira tentativa de retorno à segunda divisão não foi bem sucedida e o modesto sétimo lugar na terceirona provocou mudanças drásticas internamente, com uma limpa no elenco e a contratação de novos gestores, que tornaram a administração mais profissional. Os azulgranas passaram a apostar mais nos próprios pratas da casa e, assim, ascenderam de volta à segundona em 2014/15. E depois de uma temporada que serviu para se estabilizar no segundo nível, o time se candidatou ao acesso, ainda que a folha salarial de seu plantel (avaliada em apenas 8 milhões de euros anuais) estivesse bem abaixo dos principais concorrentes. Fruto de equipes equilibradas, os aragoneses começaram a sonhar. Terminaram a temporada 2016/17 em sexto, caindo apenas nos playoffs, ante o promovido Getafe. Sinal de que a toada deveria ser mantida por mais um ano.

O Huesca manteve a espinha dorsal de seu time para a atual temporada. As principais perdas foram a saída do goleiro Sergio Herrera para o Osasuna e a venda do artilheiro Samu Sáiz, repassado por um valor recorde ao Leeds United – além de um ou outro titular esporádico, como o brasileiro Vinícius Araújo, emprestado pelo Zaragoza. Em compensação, os azulgranas aproveitaram para trazer reforços pontuais, entre pechinchas nos clubes de elite e apostas do exterior. A América do Sul foi especialmente considerada, com dois argentinos e um colombiano desembarcando no ataque. E a principal adição estava no banco de reservas: o técnico Rubi, rodado nas duas primeiras divisões, com passagens por Girona, Valladolid, Levante e Sporting de Gijón.

O novo comandante potencializou a principal característica do time, a consistências nas duas áreas. O Huesca se defendia com segurança e atacava com vigor. Ainda demorou para engrenar na competição, com apenas uma vitória nas primeiras cinco rodadas, beirando a zona de rebaixamento. A partir de setembro, os azulgranas engrenaram. Emendaram uma ótima sequência em 21 partidas, com 15 vitórias e apenas uma derrota. Assumiram a liderança a partir de novembro e, por mais que a segundona se mantivesse equilibrada, pareciam não soltar mais. Iniciaram fevereiro com uma vantagem de oito pontos na primeira colocação, gordura esta que seria importante para que queimassem na maior provação da campanha.

Do 27° ao 34° compromisso, o Huesca ensaiou uma derrocada vertiginosa. Passou oito rodadas consecutivas sem vencer. Nem mesmo El Alcoraz era garantia de bons resultados, com o time sofrendo sua primeira (e até agora única) derrota como mandante. A depressão jogou os azulgranas na terceira colocação. E foi então que iniciaram a reação. No último mês, ganharam quatro compromissos e empataram um. Nesta segunda, dependiam apenas de si para o acesso. E a vitória por 2 a 0 sobre o Lugo fora de casa, que recolocou os aragoneses na liderança, também assegurou matematicamente a promoção. Álex Gallar e Jorge Pulido anotaram os gols históricos, em uma partida difícil entre o primeiro e o segundo tento, especialmente porque o goleiro Alex Remiro precisou ser substituído após uma bolada no rosto e acabou encaminhado ao hospital. Perdeu a festa.

Em campo, alguns jogadores se destacaram de maneira especial. Emprestado pelo Athletic Bilbao, Remiro manteve a segurança sob as traves. Formado pelo Atlético de Madrid, Jorge Pulido foi a peça que faltava para acertar a linha defensiva, formando dupla de zaga com o português Jair Amador. No meio, Lluis Sastre e o capitão Juanjo Camacho (este, com dez anos ininterruptos de clube) são remanescentes dos tempos em que os azulgranas buscavam se afirmar da terceira à segunda divisão. Já a referência do time foi o meia Gonzalo Melero, cria do Real Madrid, que aos 24 anos protagonizou o melhor momento da carreira com 16 gols e um apoio importante ao ataque. Por fim, na frente, o colombiano Cucho Hernández se tornou a revelação da liga. Aos 19 anos, o jogador emprestado pelo Watford somou 16 gols. Teve a companhia nas pontas de David Ferreiro, Álex Gallar e Ezequiel Ávila – este, argentino trazido do San Lorenzo.

Rubi, por sua vez, termina a campanha como um dos técnicos mais requisitados do futebol espanhol. Não à toa, seu nome é fortemente especulado no Espanyol, e diversos veículos de imprensa dão o acerto como próximo. Antes de se mudar à Catalunha, no entanto, o comandante ainda pode deixar uma última boa impressão. Com dois pontos de vantagem na liderança, o Huesca luta também pelo título da segundona. O Rayo Vallecano, que só precisa de mais uma vitória nos dois últimos jogos para também confirmar o acesso, é o único perseguidor. No mais, Sporting de Gijón tem chances remotas de acesso direto, enquanto deve figurar nos playoffs ao lado de quem sobreviver entre Zaragoza, Valladolid, Cádiz, Numancia, Oviedo e Osasuna.

O acesso do Huesca ainda marca um fenômeno interessante no Campeonato Espanhol. Ao longo das últimas cinco temporadas, o clube de Aragão é o quarto diferente a estrear na primeira divisão. E os exemplos deixados por Eibar, Leganés e Girona são bastante positivos por aquilo que aconteceu até o momento, sem sofrer rebaixamentos e até se metendo na corrida pela Liga Europa. Com uma boa gestão, dá para confiar ao menos na permanência dos aragoneses. Trabalho para Agustín Lasaosa, dirigente que chegou ao clube ainda na terceira divisão e que, após a renúncia do presidente Fernando Losfablos e da morte de Armando Borraz (chefe da Fundação El Alcoraz), tornou-se o principal mentor do projeto.

Entre os objetivos do Huesca nos próximos anos, além da afirmação na elite, está a construção de um moderno CT e reformas pontuais em El Alcoraz – até pelo crescimento paulatino nas vendas dos carnês de temporada, que representam cerca de 80% da lotação máxima. Nada, todavia, que vá provocar mudanças drásticas no estádio. O alçapão é onde os azulgranas se fazem mais temíveis, e eles sabem muito bem a pressão que podem botar sobre um Barcelona ou sobre um Real Madrid. É da pequenez que tiram sua força.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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