Caso Negreira: Barcelona é denunciado à justiça por corrupção, enquanto Bartomeu e Rosell também são indiciados
Barcelona foi indiciado como pessoa jurídica, enquanto Sandro Rosell e Bartomeu precisarão responder criminalmente
A justiça da Espanha apresentou formalmente nesta sexta-feira uma denúncia contra o Barcelona por causa do chamado “Caso Negreira”. Os blaugranas são indiciados por pagarem milhões de euros a José María Enríquez Negreira, antigo vice-presidente do Comitê Técnico Arbitral da federação espanhola. Embora o Barça justifique os pagamentos como relativos a uma “consultoria”, a procuradoria espanhola é bem mais contundente: afirma que os valores serviam para “realizar atuações que tendiam a favorecer o Barcelona na tomada de decisões dos árbitros nas partidas do clube e, assim, nos resultados das competições”. A pessoa jurídica do Barcelona responderá pelo delito de corrupção. Também são citados Sandro Rosell e Josep Maria Bartomeu, ex-presidentes do clube, acusados ainda por administração desleal e falsificação de documentos.
As penas para os responsáveis podem variar de seis meses a quatro anos de prisão, assim como eles podem ser condenados a pagar multas e ficar inabilitados de exercer cargos. Bartomeu e Rosell ainda correm o risco de ter punições maiores, por administração desleal e falsificação de documentos. Além disso, o Barcelona como pessoa jurídica pode ser implicado na esfera criminal. Corre o risco de pagar multas ou mesmo de perder sua licença profissional.
Já na esfera desportiva, o Barcelona deve se safar parcialmente porque os crimes prescreveram dentro dos regulamentos de La Liga. Conforme as regras internas, tais crimes só poderiam ser punidos se tivessem acontecido num período de até três anos atrás. A entidade, no entanto, promete colaboração máxima com a justiça. Já a federação espanhola e o ministério dos esportes irão esperar a conclusão do processo legal antes de tomarem decisões mais incisivas contra os blaugranas.
A procuradoria afirma que o Barcelona manteve um acordo verbal estritamente confidencial com Negreira. A finalidade desse acerto era “alterar as competições a favor do clube”. Detalhes do acordo de Negreira com o Barça seguem sem ser esclarecidos. Negreira foi vice-presidente da comissão de arbitragem de 1994 a 2018. Era ele o principal responsável por promover ou rebaixar árbitros dentro do quadro de arbitragem espanhol.
O Barcelona justifica que Negreira prestava um serviço de “consultoria”, para orientar os jogadores sobre como se comportar em campo e também sobre estilos de condução de cada árbitro. É um tipo de apoio normal entre clubes, mas não quando se envolve um dirigente com alto pode de decisão na comissão de arbitragem. Já segundo seu depoimento, Negreira afirmou que o pagamento do Barcelona não era para favorecer o clube, mas para garantir arbitragens “neutras” que não prejudicassem o time. Tal declaração é um tiro no pé, por evidenciar a adulteração das competições e botar em xeque a situação de outros clubes.
Os pagamentos do Barcelona a Negreira aconteceram ao longo de mandatos de quatro presidentes diferentes do clube. Joan Gaspart e Joan Laporta, no entanto, precisarão apenas prestar testemunho. Os possíveis crimes durante as gestões de ambos prescreveram para a justiça espanhola, o que não aconteceu com Bartomeu e Rosell. Além dos dois ex-presidentes, outros indiciados são o ex-diretor executivo Óscar Grau e o ex-diretor esportivo Albert Soler. Negreira, obviamente, também é um dos imputados pela denúncia.
É estimado que o Barcelona tenha desembolsado €7,3 milhões a duas empresas ligadas a Negreira. Os pagamentos aconteceram de 2001 até 2018, ano em que o vice-presidente da comissão de arbitragem deixou seu cargo. As faturas apresentadas pelo clube não são claras em relação aos motivos do tal serviço. E tal relação só foi interrompida por conta do afastamento de Negreira de seu posto, dois meses antes que o último pagamento pingasse em suas contas. Nos últimos cinco anos do suposto crime, durante o período que não prescreveu, os pagamentos chegariam a €2,9 milhões.
Já em relação às empresas recebedoras, suas receitas se resumiam basicamente ao montante endereçado pelo Barça. Negreira recebia através de cheques, com auxílio de pessoas próximas. O destino do dinheiro, porém, ainda não foi rastreado pela investigação. Outro envolvido indiretamente é Javier Enríquez, filho de Negreira, que seria o responsável por fazer relatórios técnicos das arbitragens destinados ao Barcelona. Dirigentes do Barça, entre eles Laporta, agiram para que Enríquez não fosse contratado diretamente pelo clube, para não indicar uma relação suspeita com Negreira. A procuradoria, contudo, faz a ressalva de que não estava claro se o filho era ciente dos crimes de seu pai e por isso ele não foi indiciado.
Tais relatórios, se produzidos, não chegavam ao departamento técnico do Barcelona. Treinador do clube nos últimos anos do acordo, Ernesto Valverde disse que nunca soube sobre um trabalho de consultoria ao qual a empresa de Negreira supostamente era paga. Pep Guardiola não deu declarações públicas sobre o assunto, mas, segundo fontes do The Athletic, ele também não sabia nada de relatórios de arbitragem enquanto esteve à frente dos blaugranas.
A agência tributária governamental da Espanha chegou a pedir uma cópia dos pagamentos e do contrato de prestação de serviços ao Barcelona, assim como a identificação dos profissionais que fizeram os serviços e cópias dos relatórios. O clube, no entanto, respondeu que não tinha a documentação requerida. Já a procuradoria avaliou que as faturas não correspondem aos serviços alegados.



