La Liga

Calem-se: Real Madrid responde clima tenso no Metropolitano e supera o Atlético na bola

Ofensas racistas direcionadas a Vinícius Júnior tiveram bastante eco em parte da torcida colchonera antes do jogo

A semana teve um clima nefasto antes do clássico de Madri entre Real e Atlético. Todo o rebuliço em torno de uma declaração racista voltada a Vinícius Júnior serviu para pesar demais a animosidade entre dois times que já não se gostam. Minutos antes da bola rolar, parte da torcida colchonera entoou cantos ofensivos como “Vini é um macaco” e reforçou que sim, a discussão inútil sobre as comemorações de fato tinha um fundo racista.

Esse cenário horroroso trouxe a um jogo de futebol um contorno bélico, desnecessário e que certamente não é bem-vindo. Esportivamente falando, o Real Madrid venceu o Atlético por 2 a 1, mas a sociedade precisa repensar urgentemente o seu papel no combate à discriminação racial. Era até difícil falar de bola e campo, mas houve um duelo tipicamente quente entre dois times que se habituaram a decidir campeonatos.

Do lado do Real, a experiência e a vontade de responder ao ódio vindo das arquibancadas era bastante relevante. Com 18 minutos de jogo, o Metropolitano explodiu em vaias quando Aurelien Tchouameni acionou rapidamente Rodrygo em um passe primoroso por cima. O ponta teve frieza para tomar a decisão final e acertou o alto da meta de Jan Oblak, de primeira. Imediatamente, Rodrygo emendou uma sambadinha ao lado de Vinícius, na bandeirinha de escanteio. Não raro, voavam objetos para dentro de campo, durante a partida. Era esse o ambiente que o futebol tinha de tentar sobrepor.

O Real não estava satisfeito. E nem Vini, que partia para cima da marcação sem nenhuma vergonha. Era ele o alvo da defesa, mas a marcação trouxe um desafio que ele superou com maestria. Foi gigante a presença de Vini em todo o campo e nas fases ofensivas, o que ficou provado no segundo gol. Ele partiu em velocidade pela direita, livre, e na hora de bater, acertou a trave. Oblak olhou incrédulo a bola voltar e cair nos pés de Federico Valverde, um dos destaques no meio-campo madridista. Com 36 minutos, o Atlético estava na lona e desacordado diante de um cirúrgico algoz.

Na etapa final, quando os gritos cessaram, o Real apenas gastou o tempo e tentou esfriar os ânimos. Conseguiu aquietar a arquibancada e tirar a rotação do time colchonero. Vini, isca favorita de Carlo Ancelotti, anulou Reinildo Mandava, um ícone na lateral defensiva do Atleti. Diego Simeone, então, tentou mexer no ataque, já que a parceria entre Antoine Griezmann e João Félix não rendeu. Também tirou o nervoso Rodrigo De Paul e Yannick Carrasco. O meio-campo atleticano praticamente não existiu na partida. Quando Koke e Geoffrey Kondogbia saíram, no último terço do jogo, já estava claro que nada do que Simeone planejou havia dado certo.

Restando sete minutos para o fim, Mario Hermoso, que entrou na vaga de Kondogbia, apareceu para dar de ombro, quase sem querer, para diminuir o placar. A saída horrenda de Thibaut Courtois pelo alto facilitou a missão do zagueiro. O Atlético até que tentou o empate, mas ficou rendido pela marcação organizada do Real. Só houve tempo para confusões e reclamações. Vini, protagonista do dérbi, irritou demais os adversários e tentou uma carretilha para cima de Axel Witsel. Nos acréscimos, Hermoso e Daniel Carvajal se desentenderam e quase rolou um barraco. Sobrou um cartão vermelho para Hermoso, que perdeu o controle e precisou ser contido por Oblak.

Falaremos durante muito tempo sobre esse clássico, talvez não pelos motivos certos. Foi um marco civilizatório às avessas celebrar o racismo sem o menor pudor e direcionar tantas ofensas a um jogador que incomoda demais por ser talentoso, mas não só talentoso. Resta saber que atitudes o Atlético tomará (se é que irá fazê-lo) para coibir atitudes semelhantes. O futebol foi o segundo plano em uma tarde vergonhosa nas praças de Madri. Quando voltou-se para dentro das quatro linhas, valeu mais uma atuação de um time campeão e com os nervos no lugar, que lidera La Liga com um estilo que não encanta, mas compete e vence. Ao Atlético, resta o lamento por não ter visto a cor da bola e por não ser enérgico o bastante para inibir atitudes indescritíveis de seus torcedores.

Foto de Felipe Portes

Felipe Portes

Felipe Portes é zagueiro ocasional, cruyffista irremediável e desenhista em Instagram.com/draw.portes

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