La Liga
Tendência

A torcida do Valencia esvaziou o Mestalla e 25 mil participaram dos protestos contra Peter Lim

A torcida do Valencia passou o início da partida contra o Athletic Bilbao fora do estádio, em rodada na qual o time entrou na zona de rebaixamento

O dia 11 de fevereiro de 2023 servirá de marco ao valencianismo e, esperam os torcedores, também ao futuro do Valencia. Neste sábado, a derrota por 2 a 1 para o Athletic Bilbao foi o pano de fundo dos massivos protestos realizados pela torcida no Estádio Mestalla. Quando a bola começou a rolar, parte significativa das arquibancadas estavam vazias, porque milhares de pessoas permaneciam do lado de fora em manifestação. A massa dos Ches pede a saída do proprietário Peter Lim e de outros membros da direção. Foi somente em meados do primeiro tempo que os assentos do estádio começaram a ser ocupados. Sinal evidente da crise, o Valencia fechou a rodada de La Liga na zona de rebaixamento.

Ao longo das últimas semanas, os protestos contra Peter Lim se tornaram cada vez maiores. O Valencia atravessa uma péssima fase esportiva e uma administrativa ainda pior. Gennaro Gattuso foi demitido do cargo de técnico, os Ches não trouxeram um reforço sequer na janela de transferências de janeiro e o time possui só uma vitória nas últimas 13 rodadas de La Liga. A impressão é de total abandono, algo que não é exatamente novo nestes quase nove anos sob as ordens de Lim, mas nunca tão alarmante. A capacidade financeira se contrai e os valencianos passaram inclusive a atrasar salários, entregando notas promissórias aos funcionários.

Assim, o 11 de fevereiro foi convocado para uma imensa manifestação da torcida do Valencia que deseja a saída de Peter Lim – praticamente todo mundo. A ideia era deixar o descontentamento visível nas arquibancadas e nos arredores do Mestalla, sob o pedido de que o empresário cingapuriano venda a agremiação. Neste momento, diante da falta de investimento e de perspectivas, a continuidade de Lim é vista como um mero capricho, sem nenhum sentido para um negócio que se desvaloriza mais e mais. Enquanto isso, os valencianos sentem como se a sua paixão fosse usada e abandonada feito um brinquedo.

Até surgiram tentativas da direção em atenuar os protestos. Ingressos foram distribuídos a escolas, para que as arquibancadas não ficassem totalmente vazias quando a bola rolasse. Não foi o que anulou o impacto da manifestação, perceptível inclusive na transmissão da TV. E a cobertura da imprensa espanhola sobre o episódio também foi extensa, mesmo sob ameaças de que os jornalistas não seriam credenciados para o jogo. A tentativa dos dirigentes do Valencia era de silenciar, como fosse possível, a voz dos insatisfeitos. Nem isso conseguiram fazer com competência.

As palavras de ordem ao redor do Mestalla eram claras. O pedido pela saída de Peter Lim era o mais audível. A manifestação era organizada pelo grupo Libertad VCF, principal movimento opositor do clube. Desde 2021, já foram realizados quatro protestos do tipo e, desde a temporada passada, é comum que o minuto 19 dos jogos seja marcado por gritos contra Lim, em referência à fundação da agremiação em 1919. De qualquer maneira, nada comparável ao que aconteceu neste sábado.

Segundo fontes policiais, 25 mil pessoas participaram do ato no Mestalla e cerca de 15 mil permaneceram do lado de fora quando a bola começou a rolar. Dos 10 mil que entraram, ainda assim muita gente preferiu assistir ao início do jogo nos corredores, não nos assentos. As faixas principais nos arredores do estádio diziam para Lim “voltar para casa” e chamavam a presidente Lay Hoon Chan de “mentirosa”, além de urgirem por uma intervenção da prefeitura de Valência no clube.

A ideia dos torcedores era entrar no estádio durante o minuto 19. Assim, as arquibancadas apenas começavam a ser ocupadas quando Samu Castillejo abriu o placar aos 17. O tento foi comemorado sob gritos contra Peter Lim. O Athletic Bilbao, no entanto, empatou aos 30 com Nico Williams e virou no segundo tempo com Oihan Sancet. O goleiro Unai Simón realizou ótimas defesas para segurar o placar de 2 a 1 a favor dos bascos. Como se tudo não bastasse, quando o marcador ainda estava zerado, Edinson Cavani se lesionou e deverá permanecer fora de ação por cerca de um mês.

O Valencia terminou a rodada ultrapassado pelo Cádiz e entrou na zona de rebaixamento de La Liga, com 20 pontos. Ainda há uma disputa ferrenha contra a queda na competição e sobra tempo para uma reviravolta, mas o desempenho recente dos valencianos preocupa. São quatro derrotas consecutivas neste momento. Além do mais, é difícil encontrar algum concorrente pior gerido do que os Ches atualmente. E a luta nos bastidores está longe de terminar. Por enquanto, o valencianismo aguarda as repercussões em Cingapura dos atos. A única sinalização da direção é a necessidade de buscar um novo técnico, após as últimas semanas sob as ordens do interino Voro. Porém, a tão aguardada saída de Peter Lim não passa de um sonho. Novos protestos estão convocados para 25 de fevereiro.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
Botão Voltar ao topo