A bagunça interna do Valencia se expõe mais uma vez, agora com a demissão de Bordalás por telefone
Gattuso já vinha negociando com o Valencia nos últimos dias e a demissão de Bordalás se confirmou nesta sexta
Não era muita gente que esperava um Valencia agindo de maneira diferente após a demissão do presidente Anil Murthy. Por mais que as atitudes do diplomata cingapuriano fossem execráveis, parte do problema também é provocado por Peter Lim, proprietário dos Ches. E não passou nem uma semana da saída de Murthy para que viesse à tona outro episódio que exemplifica a péssima administração do clube. Treinador do Valencia, Pepe Bordalás foi demitido por telefone. A notícia veio num momento em que a agremiação já negociava com Gennaro Gattuso para substituí-lo – o italiano viajou a Cingapura para conversar com Lim e, segundo a imprensa espanhola, até iniciou seu trabalho nos bastidores. Que a última temporada não tenha sido um sucesso retumbante, Bordalás cumpriu as expectativas e teve resultados interessantes para a bagunça interna. Sua demissão é mais um retrato do muito que não dá certo no Mestalla.
Bordalás chegou ao Valencia referendado por seu trabalho no Getafe. À frente dos Azulones, o treinador criou uma equipe altamente competitiva, baseada numa pressão incessante e num futebol reativo. Não dava para esperar nada muito diferente disso no Mestalla. Os Ches não se encaixaram tão bem no primeiro ano de Bordalás quanto aquele Getafe, mas viram alguns jogadores florescerem e melhoraram seus resultados em relação ao ano anterior. O time ficou numa posição segura no meio da tabela de La Liga, sem riscos de rebaixamento, e com algumas esperanças de copas europeias em parte do campeonato. Além disso, chegou na final da Copa do Rei, dando trabalho para o Betis na decisão. Um desempenho aceitável até pela falta de investimento.
No entanto, Bordalás teve suas rusgas com a gestão. Nos áudios vazados que culminaram na saída do presidente, Murthy disse que o técnico tem um “caráter muito complicado”, embora o considerasse “especial”. Também disse que o time não sofreu um desmanche no início da temporada porque se confiava em Bordalás, mas isso gerou um prejuízo financeiro. O dirigente também considerava que a equipe não entrou com a “mentalidade certa” na final da Copa do Rei. Tais afirmações colocaram mais lenha na fogueira, num momento em que Bordalás pressionava por novos reforços e não descartava publicamente um pedido de demissão.
No fim das contas, Peter Lim decidiu demitir Bordalás antes de prometer reforços. Os rumores na imprensa espanhola sobre a chegada de Gattuso se tornaram cada vez mais concretos e o fim da linha se aproximava ao técnico. A confirmação veio numa ligação por telefone do diretor de futebol Miguel Ángel Corona, sem qualquer traço de profissionalismo, para confirmar que o projeto não seguiria em frente. Bordalás não sustenta hoje o moral que tinha nos tempos de Getafe, mas não é essa decisão do Valencia que chamusca seu nome. Pelo contrário, a medida diz muito mais sobre a falta de noção na administração do Mestalla.
Vale lembrar que a queda de produção do Valencia nas últimas temporadas também é explicada por uma demissão de treinador. Marcelino García Toral ignorou as ordens de cima para escantear a Copa do Rei, num momento em que os Ches brigavam pelo G-4 de La Liga, e sua atitude de peitar Peter Lim resultou na saída mesmo com a conquista do título juntamente com a vaga na Champions. O diretor de futebol Mateu Alemany também deixou o clube neste momento, assim como jogadores que apoiavam o técnico foram negociados – inclusive o ídolo Dani Parejo, que saiu por um preço baixíssimo rumo ao Villarreal, onde continua jogando o fino.
Ainda não está oficializado se Gattuso chegará, mas as perspectivas não são muito animadoras para o Valencia. Segundo os próprios áudios de Murthy, a equipe deverá sofrer um desmanche na atual temporada para cobrir perdas. Protagonistas como José Gayà, Carlos Soler e Gonçalo Guedes podem ser negociados. Enquanto isso, Gattuso poderia vir para transformar os Ches num satélite de Jorge Mendes. O italiano deixou o Napoli e sequer assinou com o Tottenham exatamente pela interferência do empresário. Peter Lim parece bem mais interessado em tornar os Ches um balcão de negócios – não necessariamente um time competitivo, que respeite a história da agremiação. A aproximação com Jorge Mendes tende a se tornar maior, mesmo que nos últimos anos o clube já tivesse bom trânsito com o superagente português.



