Espanha

Inversão de papéis

Os tempos galácticos de Florentino Pérez no comando do Real Madrid, a partir do começo desde século, certamente abarrotaram as arcas do clube mais vencedor da Europa. O gigante da capital espanhola se tornou uma das marcas comerciais mais poderosas mundialmente no âmbito esportivo, através de uma agressiva estratégia de marketing fundamentada em contratações de ícones do futebol e realização de turnês mundiais, com pré-temporadas realizadas durante excursões à Ásia e América do Norte, desprovidas de caráter prioritariamente técnico.

Durante este mesmo período o arqui-rival Barcelona se reerguia, com o novo presidente Joan Laporta, de um período negro sem títulos e acúmulo de débitos, gerados, principalmente, desde o final da gestão de Josep Lluis Núñez até a de Joan Gaspart, seu ex-vice-presidente por 22 anos, e que venceu as eleições em 2000 após a saída do anterior mandatário.

Os fracassos esportivos e mudanças constantes de treinadores, entre eles Vanderlei Luxemburgo, marcaram a gestão de Florentino à frente do clube merengue, que realizava, não obstante as conquistas da Liga dos Campeões em 2002 e da Liga Espanhola em 2001 e 2003, campanhas não condizentes com sua história, que permaneceu até o último mês de junho em um jejum de longos quatro anos sem títulos.

Enquanto isso, na Catalunha, o presidente Joan Laporta e seu staff reconduziam o Barcelona às conquistas. Foi formada uma sólida base em torno ao treinador Frank Rijkaard, Ronaldinho, Eto´o e Deco, além de promissores jogadores provenientes das sobressalentes categorias de base do clube, como Iniesta e Messi.

Durante o jejum madrileno do final da era Galáctica, o Barça venceu duas ligas nacionais e voltou a conquistar a Europa após 14 anos, em 2006, com um jogo que encantava por ser ao mesmo tempo belo e eficiente. Muitos pensavam tratar-se do nascimento de uma dinastia que, representada por Ronaldinho, então eleito duas vezes como o melhor jogador do mundo, dominaria a Espanha e a Europa ainda por alguns anos.

O que se viu desde então, apesar da chegada de nomes importantes, foi a perda de consistência do jogo, favorecida a partir da queda de rendimento de alguns jogadores-chave, seja por motivos físicos ou técnicos. Também se acentuou o desgaste na relação entre Frank Rijkaard e setores do elenco, sobretudo após a saída de seu auxiliar e braço-direito Henk ten Cate. Tais fatores culminaram com a perda de importantes títulos desde os últimos êxitos há mais de um ano. Rumores sobre a não permanência do holandês no comando tornaram-se freqüentes nos últimos tempos e fala-se também na saída de jogadores como Ronaldinho, Deco, Thuram e Zambrotta.

Com a eleição de Ramón Calderón para presidente do Real Madrid em meados de 2006, o italiano Fabio Capello retornou ao clube exatamente dez anos depois de sua anterior passagem para, apesar de contestadíssimo, reconduzi-lo ao caminho dos títulos. Os métodos de trabalho e estilo de jogo implantado por Capello não eram do agrado dos torcedores e de setores da imprensa e diretoria, apesar da vitoriosa arrancada no segundo turno que culminou, na última rodada, com o título tão ansiado.

Entretanto, a diretoria, pressionada, decidiu pela saída de Don Fabio, e, em nome de um futebol mais vistoso, pagou ao Getafe a multa rescisória de Bernd Schuster. O treinador alemão é considerado ainda inexperiente e seu trabalho de maior destaque foi ao comando do próprio Getafe, da cidade homônima nos arredores de Madrid, na temporada anterior.

As primeiras dificuldades vieram logo no início da pré-temporada, marcada pelo mau jogo e vexames contra rivais claramente inferiores, porém mais avançados na preparação. Os rios de dinheiro gastos na contratação de uma série de jogadores, muitos deles caros e não prioritários, como os holandeses Drenthe e Robben, além dos €30 milhões desembolsados pelo luso-brasileiro Pepe, fizeram com que muitos apostassem no fracasso do segundo projeto da administração Calderón, que vencera no ano anterior uma contestada eleição coalhada de denúncias.

Ainda que eficiente até o momento, o jogo da equipe não empolga, mesmo com a grande série de sucessos atuando em seus domínios. Atuações pouco empolgantes fora de casa e dificuldades no setor de criação da equipe, devido, em grande parcela, a momentos opacos de Guti e Sneijder, são ainda o principal problema a ser resolvido por Schuster e seus comandados. A surpreendente aposta do alemão em Júlio Baptista, que soube esperar pacientemente por uma chance na equipe, melhorou o rendimento do setor nas últimas partidas e se prova acertada até o momento.

Expressão cunhada em meados dos anos 80, o “miedo escénico” (inibição pelo ambiente) foi um dos grandes trunfos do Real Madrid em jornadas épicas no Santiago Bernabéu, quando, empurrados pelo ambiente gerado da necessidade de reverter resultados adversos, foram capazes de realizar façanhas em confrontos, principalmente em copas européias, nos quais tinham remotas chances de classificação. Tal fator havia se perdido nos últimos tempos, e, muitas vezes, se voltava contra a própria equipe.

O rendimento do clube nesta temporada, sobretudo nos jogos em casa, onde apenas acumula vitórias (exceto a derrota para o Sevilla no segundo jogo da final da Supercopa espanhola), robustece ainda mais sua firme liderança na Liga. Assim, o termo “miedo escénico” regressa com força à boca do madridismo. E, desta vez, não se trata somente de uma referência ao título de um dos livros de autoria do ex-jogador, treinador e comentarista Jorge Valdano.

A contundente vitória contra o rival Barcelona no Camp Nou neste 23 de dezembro pode reforçar a idéia de que possamos estar diante de uma real mudança de ciclo no futebol espanhol.

CURTAS

– Levantamento feito pelo diário esportivo Marca estima que no clássico entre Barcelona e Real Madrid, no Camp Nou, havia, entre os protagonistas da partida, um valor total aproximado de € 600 milhões sobre o gramado. Tal cálculo foi realizado baseado em aspectos como cláusulas rescisórias, valor de mercado e preço pago quando da contratação.

– A reação do Valencia na partida contra o Real Zaragoza começou no segundo tempo após a expulsão do técnico Ronald Koeman, que vem promovendo uma série de bruscas transformações na equipe. A ausência do holandês no banco, que havia realizado várias mudanças – entre reposicionamento de jogadores e substituições – parece ter inspirado a equipe, que, após alcançar o empate, teve a chance da vitória com uma bola na trave de Arizmendi nos acréscimos.

– Equipe mais italiana da Espanha, com quatro atletas desta nacionalidade em seu elenco, o Levante caminha a passos firmes rumo ao rebaixamento. Nem a demissão de Abel Resino para a contratação do italiano Gianni De Biasi, que implantou um sistema de jogo mais defensivo, surtiu o efeito desejado pela diretoria granota. A derrota em casa para o cambaleante e igualmente ameaçado Deportivo de La Coruña mantém os valencianos na última colocação com apenas sete pontos em 17 partidas.

– Três bolas na trave e um gol anulado evitaram, pela terceira partida consecutiva, uma vitória do Villarreal no El Madrigal. Apesar do empate diante do Recreativo, o Submarino Amarelo termina o ano na quarta posição, que lhe garantiria na próxima edição da Liga dos Campeões.

– Uma invencibilidade de 13 partidas no campeonato evidencia o excelente momento do Espanyol. A última derrota da equipe comandada por Ernesto Valverde aconteceu no longínquo 22 de setembro, em Huelva, para o Recreativo. Com o triunfo sobre o Atlético de Madrid no final de semana, os catalães assumiram a terceira colocação na tabela e, a exemplo do Villarreal, terminam o ano na zona de classificação para a Liga dos Campeões.

– Após 18 rodadas na Segunda Divisão, o Numancia se situa como líder da competição com 37 pontos, seguido pelo Málaga, com um a menos, e o tradicional Sporting de Gijón, que não disputa a Primeira Divisão desde 1998, em terceiro com 31. Os três primeiros ascendem à máxima divisão.

– Veja a seleção Trivela da 17ª rodada do Campeonato Espanhol: Abbiati (Atlético de Madrid); Daniel Alves (Sevilla), Pepe (Real Madrid), Cannavaro (Real Madrid), Licht (Getafe); Jesús Navas (Sevilla), Plasil (Osasuna), Júlio Baptista (Real Madrid), Capel (Sevilla); Luis García (Espanyol) e Zigic (Valencia).

– Como substituto de Ubiratan Leal, titular desta coluna, desejo felizes festas e que continuem acompanhando este espaço durante suas férias.

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Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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