Espanha

Instinto de sobrevivência

Um recurso muito comum entre roteiristas de filme de mistério/suspense é dar importância súbita para um personagem aparentemente secundário. Durante muito tempo, protagonistas e coadjuvantes tomam a cena, mas, no final, um figurante é que define os rumos da trama. E, depois, vê-se como esse tal figurante esteve presente em vários momentos da história, dando a entender que poderia fazer algo. Só que, como ele tinha espaço pequeno, ninguém notava.

Se o Campeonato Espanhol 2010/11 fosse um filme de mistério, seria um daqueles bem ruins. Afinal, qual é a novidade no Barcelona ser campeão. Tem mais cara de comédia romântica, que qualquer um sabe o final, mas sempre tem alguém que vê pelas piadinhas. Mas o elemento “figurante discreto que define o final” esteve lá. Esse personagem tem nome e sobrenome: Sporting de Gijón.

Os asturianos receberam atenção de todos neste sábado, ao conseguir uma inimaginável vitória por 1 a 0 sobre o Real Madrid. Uma vitória justa, diga-se. O time se fechou bem, não deixou um desfalcado time merengue criar grandes jogadas e, em um contra-ataque muito bem armado, fez o gol aos 33 minutos do segundo tempo. Depois, se segurou do jeito que deu, interrompendo uma série de 150 jogos de campeonatos nacionais sem derrotas em casa de José Mourinho e colocando o Barcelona a inalcançáveis 8 pontos de vantagem. Tecnicamente, é possível uma virada madridista (ainda mais porque há confronto direto em Madri), mas ninguém em Chamartín acredita nisso.

Os olhos do mundo se voltaram ao Sporting de Gijón agora, mas o time já teve momentos em que influenciou a caminhada das principais equipes do campeonato. Na quarta rodada, foi ao Camp Nou ciente de que a derrota era quase inevitável. O técnico Manolo Preciado colocou alguns reservas, pensando na partida seguinte (em casa contra o Valencia), apenas três dias depois. Mourinho acusou os asturianos de favorecerem o Barça, mas o Sporting deu trabalho e só perdeu por 1 a 0.

Na 11ª rodada, o Real Madrid foi a Gijón sob clima pesado. As declarações de Mourinho ainda não haviam sido digeridas e a torcida do Sporting estava mais determinada do que normalmente. Os merengues venceram, mas só o fizeram com muito suor: 1 a 0 com gol de Higuaín aos 37 minutos do segundo tempo.

Na 23ª rodada, os gijoneses voltaram a aparecer. Quebraram uma série de 16 vitórias do Barcelona no Campeonato Espanhol com um empate por 1 a 1 no El Molinón. E por pouco o time asturiano não venceu. Estava em vantagem até Villa, cria sportinguista, empatar a 11 minutos do fim. Esse resultado jogou a diferença entre Barça e Real para cinco pontos, dando a sensação de que uma reação madridista era possível.

Não foram só esses resultados contra os dois gigantes espanhóis. O Sporting de Gijón faz uma campanha discretíssima, lutando para não ser rebaixado, mas venceu o Atlético de Madrid (1 a 0 em Gijón), empatou com o Valencia (0 a 0 em Valencia), empatou duas vezes com o Villarreal (1 a 1 em ambas), empatou com o Athletic Bilbao (2 a 2 em Gijón), venceu duas vezes o Mallorca (2 a 0 e 4 a 0) e empatou com o Levante (1 a 1). Dos dez primeiros colocados do Espanholão, apenas o Espanyol não perdeu pontos para o Sporting. E isso porque só se enfrentaram uma vez, vitória dos pericos por 1 a 0 em Cornellà-El Prat.

Essa vocação para atrapalhar os mais fortes, mesmo tendo um elenco para lá de discreto, vem se desenhando há três anos. Em 2008, o Sporting voltou à primeira divisão como saco de pancada. A defesa era sofrível, sofrendo 11 gols do Real Madrid, 9 do Barcelona, 8 do Atlético de Madrid, 7 do Getafe… Foram 79 gols sofridos, a pior do campeonato por larga margem. E, mesmo assim, os asturianos não caíram. Simplesmente porque conseguiam vitórias apertadas quando a defesa não estragava tudo (o time perdeu 23 dos 38 jogos, mas venceu 14 dos 15 restantes), como nos 2 a 1 sobre o Recreativo de Huelva na última rodada, o jogo que deu a salvação por 1 ponto.

Desde então, melhorar a defesa se tornou obrigação em El Molinón. Manolo Preciado, que comanda a equipe desde 2006, mudou completamente o enfoque. O time passou a valorizar placares apertados e defesas muito fechadas. Na temporada 2009/10, o Sporting sofreu 28 gols a menos, terminando com a 11ª melhor defesa. Conseguiu 12 empates a mais, seis derrotas a menos e ficou quatro pontos acima da zona de rebaixamento.

Para tamanha evolução, o técnico simplesmente deu tempo para jogadores de sua confiança trabalharem juntos. O lateral-direito Lora e o zagueiro Iván Hernández já estão no clube desde 2007, seguindo desde a segunda divisão. Em 2009, após o cataclisma defensivo, foram contratados o volante Rivera (estava na Segundona com o Betis), o zagueiro Botía (ex-Barcelona B) e o goleiro Juan Pablo (ex-Tenerife e Numancia). Além disso, Preciado promoveu o lateral-esquerdo José Ángel do Sporting B.

Essa linha defensiva mostrou potencial no ano passado, mas tem se revelado muito competitiva na atual temporada. A disciplina tática é elogiável, com jogadores que sabem como se posicionar e se entregam a cada jogada. Há poucos lapsos de concentração ou momentos em que um defensor se atrapalha com outro. Desse modo, apesar da campanha discreta dos asturianos (apenas a 13ª posição), a defesa se destaca. Com 35 gols sofridos, é a quarta melhor da competição. Só Barcelona, Real Madrid e Villarreal foram vazados menos vezes.

Essa defesa foi desenhada para evitar que o Sporting de Gijón retornasse à segunda divisão. Mas, no final das contas, foi ela a responsável por acabar com as esperanças do Real Madrid de ficar com o título.

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Equipe Trivela

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