Futebol espanhol

Independência futebolística catalã e suas contradições

Cresce na Catalunha o movimento de separação definitiva do resto da Espanha. Jogos do Barcelona se transformaram em espaço para diversas manifestações independentistas. E aumenta a sensação de que é o movimento natural e justo para um povo poder ter sua autonomia, sua seleção nacional de futebol e seu campeonato. Seu campeonato? Será?

Há muitas contradições e muitos mitos em torno do separatismo catalão. A imagem que chega ao Brasil é a das manifestações na rua e a da torcida dos jogos contra o Real Madrid, mas é ingenuidade achar que toda a Catalunha se manifesta ali. E, convenhamos, para muita gente que vê de fora, soa simpática a causa de uma região que foi oprimida por décadas e agora quer mandar em si própria. É fácil querer acreditar naquilo.

Opinião pública

Demonstrações públicas muitas vezes crescem de acordo com o embalo, o momento. Em um Barcelona x Real Madrid, mostrar-se pró-Catalunha não é apenas uma manifestação política, é um modo de intimidar o time rival para tentar um resultado positivo no futebol. Até porque a torcida do Barcelona é esmagadora maioria na Catalunha, mas muitos deles não são tão partidários da independência como parecem. Uma coisa é o que ocorre no estádio, outra é no momento de pensar de verdade na polícica.

O apoio à independência não é tão grande quanto parece na Catalunha. Dos grandes jornais que realizaram pesquisa sobre o tema em setembro (época em que a crise econômica bateu forte na região), apenas o La Vanguardia (com sede em Barcelona e de bom nível editorial, mas considerado nacionalista) dá vantagem significativa aos separatistas: 84% dos catalães são favoráveis a um referendo e 55% disse que votaria a favor da separação (33,5% seriam contra).

Segundo uma pesquisa do El País (um dos melhores jornais do mundo) realizada em setembro de 2012, 43% dos catalães querem a independência e 41% prefere seguir como parte da Espanha. Empate técnico. Neste mesmo levantamento, 57% dos catalães consideram que a situação econômica da região não é tão grave e é possível chegar a um “acordo de convivência” com o resto da Espanha. E 49% acredita que Artur Mas, presidente da Catalunha, realizou comícios de teor nacionalista para desviar os focos de sua adminsitração desastrosa.

O jornal La Razón tem números ainda menos contundentes. De acordo com uma pesquisa, também realizada em setembro, 59,4% dos catalães consideram que, diante da grave situação econômica da região, não é o momento de discutir a independência da Catalunha. Aliás, 39,9% dos entrevistados chamaram o discurso separatista de Mas de “irresponsável”.

Dá para entender porque tantos catalães não acham ruim seguir com os espanhois. A Catalunha seja uma das regiões mais ricas da Espanha, parte dessa condição se deve ao fato de ela fazer parte de um país maior, em que outras regiões consomem o que ela produz. Uma tentativa de independência poderia isolar os catalães, que dependeriam da reação da Espanha para várias coisas, como entrada de seus produtos no antigo país e aceitação na União Europeia.

O futebol

O modo como o futebol, e sobretudo o Barcelona, foi usado por pessoas ligadas a grupos políticos nacionalistas é notório. Joan Laporta usou o período como presidente blaugrana para projetar sua imagem como líder do catalanismo. Em 2010, logo após deixar o clube, o advogado fundou o partido Democràcia Catalana, que tem quatro cadeiras entre as 135 do parlamento da região.

Muitos torcedores do Barcelona não gostam de Laporta por esse motivo, mas o discurso da separação futebolística ganhou força nesse período. Como a Espanha – com e a Cataliunha liderando esse processo – ganhou um espaço inédito no cenário internacional, aumentou a quantidade de defensores da tese que a seleção catalã deveria disputar as competições oficiais, não se limitando a um amistoso anual autorizado pela RFEF (federação espanhola).

Tudo bem, mas por que ninguém defende então a separação de ligas nacionais? Claro, essa separação teria um impacto gigantesco no Barcelona, que passaria a jogar um campeonato cheio de nanicos e com potencial econômico minúsculo.

Mas não deixa de ser uma contradição. Os torcedores nacionalistas do Barcelona não querem se misturar com o resto da Espanha no que consideram danoso a eles (perda de riquezas e de liberdade cultural), mas não vêem problemas na mistura quando é benéfico (permitir ao Barcelona ser um gigante mundial). Se a aversão à Espanha é tão grande, deveria se refletir em tudo. É o que ocorreu em vários países do Leste Europeu, que se separaram completamente, sem se importar se seus clubes perderiam força.

Por isso, talvez a solução mais adequada, sem preconceito ou ideias distorcidas para cada lado, seja seguir os 57% dos entrevistados pelo El País que acham possível chegar a um “acordo de convivência” com o resto da Espanha.

Foto de Ubiratan Leal

Ubiratan Leal

Ubiratan Leal formou-se em jornalismo na PUC-SP. Está na Trivela desde 2005, passando por reportagem e edição em site e revista, pelas colunas de América Latina, Espanha, Brasil e Inglaterra. Atualmente, comenta futebol e beisebol na ESPN e é comandante-em-chefe do site Balipodo.com.br. Cria teorias complexas para tudo (até como ajeitar a feijoada no prato) é mais que lazer, é quase obsessão. Azar dos outros, que precisam aguentar e, agora, dos leitores da Trivela, que terão de lê-las.

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