‘Faz parte do DNA’: Como a inteligência artificial é utilizada por LaLiga e no futebol
Ferramenta passou a ser incorporada nas dinâmicas diárias do Campeonato Espanhol ao longo das últimas duas temporadas
Como utilizar a inteligência artificial no setor esportivo? Se nas indústrias brasileiras o uso de ferramentas de IA subiu para 41%, segundo dados da Pesquisa de Inovação Semestral (Pintec), a utilização em campeonatos, ligas e clubes passa pela mesma evolução. Seja para criação de conteúdo para as redes sociais, otimização de trabalho ou até compilação de dados.
Na prática, a IA utilizada nas maioria das empresas, atualmente, usa um modelo generativo. Ou seja, a máquina “aprende” e “cria” a partir de uma base de dados em seu código ou enviada pelo usuário. Este é o caso com o ChatGPT, da OpenAI, e do Gemini, do Google — dois dos mais populares.
Enquanto apenas 54% entendem os conceitos por trás da inteligência artificial — segundo pesquisa “Consumo e uso de Inteligência Artificial no Brasil” —, ferramentas do tipo já tem sido implementadas, gradualmente, no dia a dia de LaLiga, na Espanha. A organização da competição tem, atualmente, um dos exemplos mais completos para a utilização da IA no esporte.

Ferramentas de IA generativa estão incorporadas em áreas operacionais e esportivas em LaLiga. Como exemplo, ela é utilizada para análise de dados, processos jurídicos, comunicação interna e, nas redes sociais, para a criação de conteúdo. Vídeos curtos no TikTok, bastidores no Instagram e longas produções no YouTube são adaptados conforme idioma, idade e plataforma a fim de ampliar a audiência.
“O importante é que a IA não está isolada em um departamento: ela é uma camada transversal que apoia o funcionamento diário da organização”, aponta, à Trivela, Javier Gil, head de desenvolvimento e implementação de IA em LaLiga. Nos setores esportivos, como complemento, as ferramentas sustentam plataforma de análise de desempenho (Sporting Performance), com modelos preditivos e métricas avançadas que são compartilhadas com os clubes para apoiar a tomada de decisões.
Projeto piloto desenvolvido por LaLiga
Os primeiros passos para a incorporação da inteligência artificial no Campeonato Espanhol se iniciou em 2024/25, com um projeto piloto desenvolvido em conjunto com parceiros (Globant, Sportian e Microsoft) e funcionários de LaLiga. Após sessões de treinamento, foi possível avaliar, por meio de pesquisa anônima, as percepções a respeito da nova tecnologia.
Antes da análise, 25% dos participantes — de um total de 108 entrevistados — diziam que usavam a IA em tarefas do dia a dia. Após o o projeto piloto, esse número subiu para 60,9%. Além disso, o uso intensivo da tecnologia aumentou de 33% para 72%.
- - ↓ Continua após o recado ↓ - -
Uso da IA é visto como positivo
A percepção em LaLiga, neste momento, é positiva. O uso da IA nos escritórios de Madri e ao redor do mundo é de que, após as primeiras percepções, as ferramentas podem ser utilizadas de forma positiva. Entre estes usos também está o plano, a partir desta temporada, de implementar estas análises de dados para escalar árbitros nas partidas do Campeonato Espanhol.
— A percepção geral evoluiu significativamente no último ano. No início, a IA era vista mais como uma ferramenta complementar. Os funcionários agora veem a IA como um grande impulso de produtividade que os ajuda a trabalhar melhor e a se concentrar em tarefas de maior valor — afirma Gil.
No caso de LaLiga, assim como em outras empresas, dos mais variados setores, os funcionários participaram de workshops e cursos a respeito dos novos aspectos que essa nova tecnologia traz para o ambiente de trabalho. Em 2025, as sessões foram obrigatórias, e abordaram a criação de “agentes de IA” — programas que executam tarefas autônomas, a partir de uma base de dados.

Clubes espanhóis, como Barcelona e Real Madrid, também tem acesso a esse “conhecimento” da liga. “A LaLiga existe para seus clubes, então ser capaz de transmitir esses aprendizados a eles é essencial para nós”, complementa o head de LaLiga.
— A IA continuará a fazer parte do DNA da LaLiga. Vemos o investimento e a adoção precoces como uma enorme vantagem em um cenário onde as ferramentas de IA estão evoluindo de forma bastante rápida, para dizer o mínimo — afirmou Gil.
Criação de conteúdo na era da IA
Um dos dilemas que a IA traz para o meio digital é de orientar o seu uso para a criação de conteúdo. Além de LaLiga, outras ligas e campeonatos já têm incorporado ferramentas voltadas para a comunicação com os fãs nas redes sociais.
A Premier League, em parceria com a Microsoft, tem o “Premier League Companion” como um exemplo. A plataforma, que utiliza IA generativa e dados históricos, já alcança 1,8 bilhão de torcedores e, em poucas semanas de uso, resultou em um aumento de 20% no engajamento e atraiu a interação de 60 milhões de fãs com conteúdo personalizado.

— Quando vemos uma entidade do porte da LaLiga usando IA para entender cada detalhe do comportamento dos torcedores, fica claro que o futebol está entrando em uma nova era. Aplicada de forma inteligente, essa hiperpersonalização leva não apenas a uma maior monetização, mas também a uma compreensão genuína das necessidades individuais dos torcedores, proporcionando mais entretenimento, diversão e oportunidades — afirma Sven Müller, CMO do CUJU.
Ainda que não seja voltado exclusivamente para as redes sociais, a plataforma de Sven também se utiliza de ferramentas de IA. O aplicativo desenvolvido na utiliza inteligência artificial para avaliar jovens atletas. No Brasil, conta com mais de 100 mil usuário cadastrados, e oferece exercícios padronizados desenvolvidos por treinadores e especialistas, simulando situações reais de jogo.
O atleta realiza os testes, grava seus desempenhos e envia os vídeos diretamente pelo aplicativo. A partir disso, a inteligência artificial analisa cada ação e coloca o jogador em rankings regionais e globais, por meio de métricas objetivas que funcionam como vitrine para os clubes.



