Gol do título mundial ajudou Iniesta a sair de lugar sombrio e se sentir bem novamente
Deveriam ter sido meses espetaculares para Andrés Iniesta. Entre maio de 2009 e julho de 2010, o craque foi campeão europeu, pelo Barcelona, e mundial, pela Espanha, com direito ao gol do título, em Joanesburgo. No entanto, não foi bem isso que aconteceu. Ele tenta não falar em depressão – embora, dois anos atrás, não tenha tido o mesmo pudor -, mas afirma, em entrevista ao Guardian, na ocasião do lançamento do seu livro O Artista, que estava em um período muito difícil da sua vida, em um “lugar obscuro”. E foi aquele chute no Soccer City, o do único gol da decisão da Copa do Mundo, que o fez finalmente se sentir bem novamente.
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Iniesta havia disputado a final europeia de 2009 com uma lesão, alertado a não chutar a gol, sob o risco de complicar o seu problema físico. Campeão, voltou das férias com uma notícia terrível: seu amigo Dani Jarque, o mesmo que foi homenageado depois do gol em Joanesburgo, estava morto. Embora não tivesse nada errado com seu corpo, Iniesta não conseguia treinar direito. Contou com a compreensão e a paciência de Pep Guardiola para continuar no time, mesmo sem jogar tão bem. Em abril, a meses da Copa do Mundo, veio outra lesão.
Segundo o Guardian, Iniesta afirma que estava em “queda livre”, “no limite”, em um momento de vulnerabilidade, “vítima de algo que o aterrorizava”. No livro, também de acordo com o jornal inglês, afirmou que não sofria “exatamente de depressão ou de alguma doença”, mas de uma “inquietação”, como se nada estivesse dando certo. No livro, escreve que naquele momento entendeu como as pessoas são capazes de cometer atos de loucura, sem especificar ao que se referia.
“Quando você não está bem, passa por momentos que causam impacto em você, que o preocupam. São momentos difíceis, desconfortáveis, mas daí a ir a certos extremos… bom, cada caso tem suas peculiaridades. Há momentos em que sua mente está muito vulnerável. Você enfrenta muitas dúvidas. Cada pessoa é diferente. O que estou tentando dizer é que você pode estar se sentindo bem e de repente se sentir mal muito rapidamente”, afirmou ao Guardian.
Iniesta estava, felizmente, cercado por profissionais de medicina e não teve receio em procurar ajuda psicológica profissional, o que nem sempre acontece no meio do futebol, que ainda vê problemas da mente como sinais de fraqueza. “Quando você precisa de ajuda, você tem que procurá-la. Em certos momentos, é necessário fazer isso. Há especialistas, é para isso que eles estão lá. Você tem que usá-los”, disse. “Nunca cheguei ao ponto de dizer: ‘desisto’. Entendi que estava passando por um momento delicado, mas eu me refugiei nas minhas pessoas e, acima de tudo, no futebol. Nunca senti que não queria mais jogar. Eu sabia que um dia daria um passo à frente, talvez no próximo eu daria três passos, e então, cinco… é um processo e é assim que você supera”.
Na madrugada que antecedeu a final contra a Holanda, enquanto todos dormiam, Iniesta saiu do seu quarto e correu pelos corredores do hotel para se sentir confiante de que poderia disputar a partida. Estava inseguro, apesar de todos os médicos e todos os exames indicarem que não haveria problema. Não houve. Tanto que, aos 11 minutos do segundo tempo da prorrogação, Iniesta dominou o último passe da jogada que começou em um toque de calcanhar seu, esperou a bola cair e marcou o gol que o fez “se sentir como um jogador de futebol novamente”.
“Para as pessoas, jogadores de futebol são outra coisa, como se fossem intocáveis, como se nada pudesse acontecer conosco, mas somos pessoas. Claro que somos privilegiados, mas, nas coisas tangíveis, somos todos os mesmos”, afirmou. “Não somos mártires. Muitas pessoas trocariam de vida conosco. Cada trabalho tem sua dificuldade. Cada vez que meu pai, um construtor, subia em um andaime, ele poderia ter caído. Mas ele aceitava o risco. Ele tinha que aceitar. Os jogadores de futebol sabem que vão crescer sob pressão, sob críticas, precisando ser fortes. Temos sorte de sermos jogadores de futebol. Minha intenção ao explicar o meu momento ruim não foi fazer as pessoas dizerem ‘coitado’, longe disso. Apenas mostrar que alguns elementos da vida de um jogador profissional, os sentimentos, as dificuldades, são como os de todo mundo. É assim que é a vida das pessoas. Não acho que eu seja uma exceção”.
Há 20 anos sofrendo essas pressões, Iniesta passa por um bom momento. Soube adaptar-se à mudança de estilo imposta por Luis Enrique, segue com prestígio no Barcelona e, com a saída de alguns líderes, tornou-se uma das principais bandeiras do clube. E continua jogando da mesma maneira de sempre, na base da intuição: “Algumas coisas saem de dentro e são intuitivas. É o jeito que eu sou. Há táticas, estratégias, mas eu entendo futebol como algo imprevisível, porque você tem que decidir em um milésimo de segundo. Se a bola está vindo, e há alguém atrás de você, não penso ‘vou para a esquerda ou para a direita?’. Eu simplesmente vou e funciona. Quer dizer, às vezes não funciona”. Mas, na maioria das vezes, funciona.



