Futebol espanhol

Versátil, mas poucos gols: Como Gabriel Jesus pode ajudar o Barcelona

Brasileiro não tinha espaço no Arsenal e é alternativa a Julián Alvarez no clube catalão

A negociação entre Barcelona e Arsenal por Gabriel Jesus surpreendeu, mas faz sentido porque os dois lados chegaram a uma conclusão parecida. O brasileiro precisa de um novo contexto para recuperar espaço, enquanto o Barça precisa de um atacante capaz de ocupar o centro do ataque sem obrigar Hansi Flick a abandonar as características que tornaram seu time tão perigoso.

O Barcelona está avançando para contratar Jesus por cerca de 10 milhões de euros mais variáveis, segundo informou Fabrizio Romano e confirmou a Trivela. O atacante, que tem contrato com o Arsenal até o fim da temporada, deixou de fazer parte dos planos de Mikel Arteta

A operação também representa uma mudança de rota para o Barça. O clube passou boa parte da janela tentando contratar Julián Alvarez, prioridade para substituir Robert Lewandowski, mas o Atlético de Madrid se recusou a negociar o argentino. Jesus não é Alvarez. E talvez justamente por isso a contratação seja interessante.

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O Barcelona precisava de um 9, mas não necessariamente um tradicional

O brasileiro oferece menos garantia de gols do que Alvarez, mas entrega algo que pode ser particularmente valioso para o Barcelona de Flick: mobilidade, pressão, associação e capacidade de ocupar diferentes zonas do ataque. E a saída de Lewandowski deixou um problema evidente.

O polonês era a referência central do ataque, responsável por fixar zagueiros, atacar a área e transformar a enorme quantidade de situações criadas pelo Barcelona em gols. Sem ele, Flick começou a experimentar.

No início da temporada, o Barcelona chegou a utilizar Raphinha como falso 9, enquanto também considerava soluções com Anthony Gordon, Dani Olmo e Lamine Yamal em posições mais centrais. O próprio Flick havia admitido que não considerava ideal passar a temporada inteira sem um centroavante de origem.

Gabriel Jesus pelo Arsenal. Foto: IMAGO / Pressinphoto

A goleada por 5 a 0 sobre o Elche mostrou que a alternativa pode funcionar. Raphinha atuou centralizado, marcou duas vezes e participou diretamente de uma equipe que manteve as características mais importantes do futebol de Flick: pressão, verticalidade e velocidade.

Mas existe uma diferença entre ter a possibilidade de jogar sem 9 e não ter um 9. E a comparação entre os dois ajuda a explicar a escolha. Lewandowski é, essencialmente, um atacante de referência. Sua presença permite que o time tenha uma estrutura relativamente estável: pontas abertos, meio-campistas chegando e o centroavante ocupando os zagueiros.

Jesus é muito menos estático. O brasileiro gosta de sair da referência central, cair pelos lados, aparecer entre as linhas e participar da construção. Não é por acaso que Arteta já o utilizou como centroavante, ponta dos dois lados e até em dupla de ataque. 

Talvez seja na defesa que Jesus tenha o melhor encaixe no futebol de Flick. O Barcelona joga com uma linha defensiva extremamente alta e tenta recuperar a bola rapidamente após a perda. A equipe precisa que os atacantes sejam a primeira linha de defesa. E Jesus é um jogador muito disposto a pressionar.

No Arsenal, Arteta chegou a definir o brasileiro como “fenomenal” justamente pela capacidade de trabalhar sem bola, perseguir adversários e provocar erros no campo ofensivo. Quando Yamal, Raphinha ou Gordon saltam sobre os defensores, o centroavante precisa fechar uma linha de passe, orientar a saída adversária e estar preparado para acelerar sobre o zagueiro quando a bola chega.

Jesus conhece esse trabalho. E há uma consequência importante: um Barcelona com Jesus pode ser mais agressivo sem a bola do que um Barcelona que dependa exclusivamente de um centroavante de referência.

Jesus pode abrir espaço para Yamal e Raphinha, mas gols podem ser problema

Hansi Flick, técnico do Barcelona
Hansi Flick, técnico do Barcelona (Foto: Grant Hubbs / STEINSIEK.CH / IMAGO)

O Barcelona não precisa que seu 9 marque dois defensores. Precisa que ele desorganize a estrutura adversária, e Jesus é bom nisso. Se ele recuar para receber, o zagueiro pode acompanhá-lo. Nesse momento, o espaço entre o lateral e o zagueiro fica maior para Yamal, Raphinha ou Gordon atacarem.

Se Jesus permanecer entre os zagueiros, pode atacar a profundidade. Se cair para a esquerda, pode formar uma triangulação com Gordon e um Raphinha. É um atacante que joga muito bem em relação aos outros jogadores. E se o Barcelona possui uma quantidade enorme de talento individual, o papel do centroavante não precisa ser necessariamente resolver sozinho.

O Barcelona de Flick é extremamente perigoso quando consegue acelerar o jogo, recuperar a bola e atacar uma defesa desorganizada. Contra uma equipe que baixa as linhas e oferece pouco espaço, porém, a dinâmica muda. Nesse cenário, Jesus pode ser importante.

Ele não depende exclusivamente de atacar a profundidade. Pode sair da área, receber entre linhas, tabelar, conduzir e criar superioridades em pequenos espaços. Não é um driblador de elite como Yamal, mas é muito mais associativo do que um centroavante que simplesmente espera a bola na área. Isso permite que o Barcelona tenha uma alternativa quando o adversário consegue controlar a velocidade do jogo.

Mas é impossível ignorar a falta de gols do camisa 9. Se a ideia for substituir simplesmente a produção de Lewandowski, Jesus não parece a resposta ideal. Ele nunca foi um centroavante de 30 gols por temporada na Europa. Sua melhor versão apareceu justamente quando teve liberdade para circular e combinar com outros jogadores.

No Arsenal, sua trajetória também foi prejudicada por lesões e pela perda progressiva de espaço. Na temporada 2025/26, ele marcou apenas três gols na Premier League, embora tenha feito cinco gols em uma sequência de apenas três dias em determinado momento da temporada. O cenário no Arsenal também explica por que a transferência se tornou possível.

Jesus chegou a Londres como uma das principais referências ofensivas do projeto de Arteta, mas perdeu espaço conforme o clube passou a contar com outras opções para o ataque. Portanto, o Barça não está contratando o Jesus do Manchester City de 2019.

Está contratando um jogador de 29 anos que precisa reconstruir sua carreira. E justamente por isso 10 milhões podem representar uma aposta interessante. Em seus melhores anos, Jesus produziu temporadas com bons números: 7 gols em 11 jogos quando chegou ao City, depois 17, 21 e 23 gols nos anos seguintes. Mas foi diminuindo desde então.

Mesmo que o Barcelona não precise necessariamente encontrar outro Lewandowski, o número de gols pode fazer falta. Ainda assim, a prioridade pode ser encontrar alguém capaz de fazer o ataque funcionar depois da saída do polonês e de Ferrán Torres.

Jesus pode fazer isso de maneira diferentes: ele pode pressionar, sair da referência, associar, abrir espaço para Yamal, atacar a área, jogar pelos lados e atuar como falso 9. E pode, principalmente, permitir que Flick alterne entre um ataque com referência e um ataque completamente móvel.

O Barcelona já mostrou que consegue produzir futebol ofensivo sem um centroavante tradicional. A goleada sobre o Elche é uma demonstração disso. Mas o próprio Flick vêm tratando a posição como uma necessidade para que o time tenha uma solução sustentável ao longo da temporada. 

Gabriel Jesus não resolve todas essas questões. Mas talvez ele não precise resolver. Por cerca de 10 milhões, o Barcelona pode estar contratando justamente o tipo de atacante que permite a Flick escolher como quer atacar.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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