Espanha

Fim da mamata?

Clubes italianos chiam. Os ingleses reclamam. Alemães e franceses olham contrariados. Mas não adiantava. Cada nação tem autonomia para criar sua política tributária na União Europeia e a Espanha usava isso. Estrangeiros com salários acima de € 600 mil anuais (€ 50 mil mensais) pagam quase metade dos impostos de um cidadão “comum” em seus seis primeiros anos de residência no país. Algo que beneficia muito os clubes de futebol em busca de jogadores. O verbo “beneficiar” é conjugado no presente, mas, em breve, pode passar para o pretérito imperfeito.

O governo espanhol pensa em acabar com tal lei, apelidada de “Lei Beckham” por ter sido criada pouco antes de o Real Madrid contratar o meia inglês. Assim, os estrangeiros que aportassem na Espanha voltariam a pagar 43% de imposto, 21 ponto percentual a mais que hoje. Essa diferença não é irrelevante. Explicando de modo bem didático: se um jogador quer receber € 10 milhões de salário anual (o valor é sempre o líquido), um clube espanhol tem de desembolsar € 12,4 milhões. Se o Congresso aprovar a mudança, o valor seria de € 14,3 milhões.

Do ponto de vista do comércio internacional, a Espanha passaria a estar em nível mais próximo dos “concorrentes”. Para ter o tal jogador de € 10 milhões, um time francês gasta € 14 milhões, um italiano investe € 14,3 milhões, um alemão desembolsa € 14,5 milhões e um inglês paga € 15 milhões. Ou seja, a cada € 10 milhões em salários, uma equipe espanhola economiza cerca de € 2 milhões em relação às de outros países. Considerando que cada elenco conta com vários estrangeiros, os participantes de La Liga ficam com mais recursos para investir em reforços (os dirigentes calculam que a liga inteira teria € 100 milhões a menos).

Os cartolas rapidamente perceberam que uma eventual mudança na lei teria impacto forte no Campeonato Espanhol. Os contratos já em vigor seriam preservados, mas as futuras negociações estariam prejudicadas. Em médio prazo, os clubes locais teriam menos estrelas, sobretudo as equipes “grandes-mas-não-tanto” (Valencia, Atlético de Madrid, Sevilla), que têm menos condições para compensar a maior mordida do Leão com exploração de marketing.

A primeira reação foi forte. A LFP (Liga de Fútbol Profesional) ameaçou convocar um locaute. Era óbvio que isso não seria levado a cabo. A liga tem diversos compromissos comerciais dentro e fora do país e paralisar o campeonato só se justificaria diante de uma situação muito grave. Até porque a Lei Beckham interessa aos clubes, mas está longe de ter grande apoio popular (no final das contas, ela oficializa o benefícios de estrangeiros ricos em relação à classe média e baixa nativa) e a possibilidade de chiadeira geral com os dirigentes seria grande.

Por isso, o tom já baixou. A entidade decidiu criar uma comissão – da qual fará parte Florentino Pérez, presidente do Real Madrid – para conversar com o governo. A discussão é muito mais política do que econômica ou futebolística e fica difícil prever o que vai acontecer. Se for manter o padrão da Espanha, cada lado cede um pouco e finge que venceu a discussão.

Trauma

O Atlético de Madrid melhorou depois da chegada de Quique Sánchez Flores. Não parece mais uma equipe sem comando, sem padrão de jogo e sem motivação. Ainda não é um time forte, mas já tem um mínimo de organização e determinação em campo. Isso foi visto no empate contra o Chelsea, em que os Colchoneros até tiveram chance de vencer.

Mas o adversário deste sábado era o Real Madrid. E, contra o Real, a coisa é diferente para o Atlético. Mais de uma década sem vitória sobre o maior rival não passam impunes. Os jogadores do elenco atual nem sofreram tanto diante dos Merengues, mas torcedores e dirigentes, sim. Desse modo, todos entram em campo sabendo que é obrigação vencer. E, claro, expõem-se emocionalmente.

Apesar do placar apertado (3 a 2) e de Casillas ter evitado o empate com uma boa defesa nos minutos finais, o jogo quase inteiro esteve nas mãos do Real Madrid. Simplesmente porque o time conseguiu, pela terceira vez nos últimos anos, fazer um gol no Atlético com menos de cinco minutos de futebol. Gols que quebram qualquer estrutura psicológica dos rojiblancos, e ajudam a manter vivo o tabu.

Pensando em longo prazo, o Real continua firme na luta cabeça a cabeça com o Barcelona. E o Atlético dá sinais de que deve sair da zona de rebaixamento em breve. Mas, em semana de clássico, a torcida colchonera não está preocupada com isso. O importante é ganhar logo do Real.

Veja abaixo a sequência de dérbis madrilenos sem vitória do time listrado:

2009/10
Atlético 2×3 Real

2008/09
Real 1×1 Atlético
Atlético 1×2 Real

2007/08
Atlético 0x2 Real
Real 2×1 Atlético

2006/07
Atlético 1×1 Real
Real 1×1 Atlético

2005/06
Real 2×1 Atlético
Atlético 0x3 Real

2004/05
Real 0x0 Atlético
Atlético 0x3 Real

2003/04
Atlético 1×2 Real
Real 2×0 Atlético

2002/03
Atlético 0x4 Real
Real 2×2 Atlético

1999/2000
Atlético 1×1 Real
Real 1×3 Atlético

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