Futebol espanhol

Como desgaste com o Barcelona abriu caminho para Ferran Torres ir ao PSG

Falta de avanço nas conversas por renovação e prioridades de Deco pesaram na despedida do atacante espanhol

A despedida de Ferran Torres do Barcelona deixou uma impressão curiosa. O atacante encerrou sua passagem pelo clube catalão em alta, com atuações decisivas, gols importantes e o reconhecimento dos torcedores. Ainda assim, a transferência para o Paris Saint-Germain, oficializada em 15 de agosto, expôs um desgaste que vinha se acumulando nos bastidores e ajuda a explicar por que uma separação aparentemente inesperada acabou se concretizando.

A negociação se desenrolou durante a Copa do Mundo e terminou com Ferran a caminho de Paris. O Barcelona recebeu quase 50 milhões de euros pela transferência, valor que contribuiu para viabilizar a contratação de Rodri junto ao Manchester City, concluída dias depois.

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O que chamou a atenção, porém, foram as declarações do atacante durante o Media Day do novo clube. Ao falar sobre a mudança, Ferran afirmou que o PSG era o melhor time da Europa, destacando as duas conquistas consecutivas da Champions League, e classificou a transferência como um passo à frente na carreira. Em Barcelona, segundo o jornal “AS”, as palavras foram recebidas como uma provocação.

A interpretação, contudo, não correspondia necessariamente ao sentimento do jogador em relação ao antigo clube. Depois de quatro anos e meio na Catalunha, Ferran saiu com a sensação de ter acertado na escolha feita quando chegou, ainda aos 21 anos.

Construiu vínculos com companheiros e torcedores e encerrou o ciclo com motivos esportivos para se orgulhar. O problema estava menos na relação com o ambiente do Barcelona e mais na falta de clareza sobre o espaço que a diretoria reservava para ele a longo prazo.

Deco não via Ferran como o futuro camisa 9 do Barcelona

Ferran Torres em ação pelo Barcelona
Ferran Torres em ação pelo Barcelona (Foto: Ivan Delgado / AgenciaLOF / IMAGO)

Contratado para atuar em diferentes posições do ataque, Ferran disputou 207 partidas pelo Barcelona, marcou 65 gols e conquistou dois títulos de LaLiga, uma Copa do Rei e três Supercopas. Sua adaptação à função de centroavante foi especialmente importante para a evolução recente, permitindo que assumisse protagonismo justamente quando Robert Lewandowski já não apresentava o mesmo rendimento de antes.

Apesar dessa versatilidade, a renovação contratual nunca se tornou uma prioridade para Deco. O diretor esportivo não enxergava no ex-Valencia o futuro dono da camisa 9 e também precisava considerar os valores envolvidos em sua contratação: o Barcelona ainda teria de pagar 8 milhões de euros ao Manchester City. A combinação desses fatores contribuiu para que o clube não tratasse a permanência do atacante como uma questão urgente.

Havia, ainda, um componente de bastidor. Ferran sempre foi uma aposta de Mateu Alemany, ex-diretor do Barcelona e atualmente no Atlético de Madrid. Ele acompanhava o jogador desde os tempos de Valencia, confiava em seu potencial e mantinha ótima relação com Héctor Peris, empresário do atacante. De acordo com o “AS”, a relação pouco amistosa entre Alemany e Deco também ajuda a contextualizar a falta de empenho na continuidade do projeto com Ferran.

Enquanto o calendário avançava, as conversas não saíam do lugar. O Barcelona sinalizou que ainda havia tempo para discutir uma renovação e indicou que poderia procurar os representantes do jogador em setembro ou durante o outono europeu. A ligação, porém, nunca aconteceu.

A postura contrastava com a própria estratégia de Deco, que defendia a abertura das negociações no penúltimo ano de contrato. O dirigente já havia trabalhado para garantir a permanência de jogadores considerados fundamentais para o planejamento esportivo, mas Ferran ficou para trás.

Diante da ausência de uma proposta concreta e do interesse de outros clubes, o atacante autorizou o início das tratativas com o PSG, que avançaram sem grandes dificuldades.

De opção no banco a protagonista na reta final

Ferran Torres celebra gol pelo Barcelona
Ferran Torres celebra gol pelo Barcelona (Foto: Oscar J. Barroso / ZUMA Press Wire / IMAGO)

A indefinição contratual ajuda a entender a saída, mas não conta toda a história. A relação entre Ferran e o Barcelona também passou por uma trajetória esportiva irregular. Embora Xavi tenha aprovado sua contratação, o atacante teve dificuldades para se firmar como titular durante boa parte da passagem do treinador pelo clube.

Nos primeiros meses, o espanhol apresentou bons momentos, mas não conseguiu se consolidar na formação considerada ideal por Xavi. O técnico priorizava o trio formado por Ousmane Dembélé, Lewandowski e Raphinha, cenário que frequentemente deixava Ferran no banco.

Segundo a reportagem do “AS”, comentários inadequados feitos em privado por integrantes da comissão técnica chegaram ao círculo próximo do jogador, acrescentando desconforto a uma situação na qual ele já não tinha o protagonismo desejado.

A mudança de treinador alterou esse panorama. Sob o comando de Hansi Flick, Ferran encontrou maior espaço ao se adaptar definitivamente à posição de centroavante. A escolha se mostrou acertada: além de melhorar seu rendimento, o atacante passou a disputar a titularidade com mais força e conquistou a simpatia dos torcedores com atuações decisivas nos momentos mais importantes da temporada.

Entre os episódios marcantes estiveram o gol na final da Copa do Rei 2024/25, disputada em La Cartuja, as três assistências — só no primeiro tempo — contra o Real Madrid (2025) e o gol que garantiu a vitória por 2 a 0 no último El Clásico.

A sequência de acontecimentos tornou sua saída ainda mais peculiar. O atacante deixou a Catalunha quando vivia uma das melhores fases da carreira e desfrutava de uma relação positiva com a torcida, mas sem a mesma segurança quanto ao reconhecimento da diretoria. O clube recebeu uma quantia importante pela transferência e abriu espaço para outros movimentos no mercado, enquanto Ferran encontrou no PSG um projeto que lhe oferecia uma nova oportunidade.

Foto de Guilherme Calvano

Guilherme CalvanoRedator

Jornalista pela UNESA, nascido e criado no Rio de Janeiro. Cobriu o Flamengo no Coluna do Fla e o Chelsea no Blues of Stamford. Na Trivela, é redator e escreve sobre futebol brasileiro e internacional.

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