Espanha

Fechado para reforma

“Underachieving” é um termo do inglês sem uma tradução direta em português. Mas não é difícil explicar o que significa. Ele aplica-se a algo ou alguém cujas conquistas (achievements) estão abaixo (under) do que se esperava pelas condições apresentadas. Um dicionário ilustrado, ao lado do verbete “underachieving”, poderia colocar o distintivo do Atlético do Madrid, ou alguma equipe recente dos colchoneros posada antes de uma partida.

O Atlético de Madrid não é o Barcelona, muito menos o Real Madrid. Mas é um clube grande em relação aos demais. Tem uma torcida fanática, consegue lotar seu estádio com boa constância (terceira média de público em duas das três últimas temporadas, só ficou abaixo no ano em que o enfoque foi a disputa pelo título da Liga Europa) e até conta com muitos seguidores fora de sua província. Além disso, por estar no maior mercado da Espanha, é um time de grande exposição na mídia e, portanto, atraente para patrocinadores.

Isso tudo permite aos colchoneros ter, em condições normais, capacidade de investimento maior que outras equipes importantes e tradicionais, como Valencia e Sevilla. Uma realidade que fica ainda mais sensível quando Agüero, De Gea e, talvez, Forlán estão de saída do Vicente Calderón. Como Barcelona e Real Madrid devem procurar apenas um ou dois grandes nomes cada um – e nenhum dos nomes, nem Fàbregas ou Neymar, será maior dos que os já presentes nos dois clubes –, o Atlético tem chance de ser o grande agitador deste mercado no futebol espanhol.

O problema é que quase um mês se passou e ainda não se sabe qual caminho o clube tomará. Os sinais iniciais dão a impressão de alguma modéstia e falta de ousadia. A direção anunciou a contratação de Gregório Manzano, veterano técnico que teve muito sucesso em duas passagens pelo Mallorca (conquistou uma Copa do Rei e uma classificação para a Liga Europa – não exercida por problemas financeiros dos baleares), mas foi discreto em outros times. Em 2003/04, esteve no Vicente Calderón e não fez nada de extraordinário: sétimo no Campeonato Espanhol e quadrifinalista da Copa do Rei (levando 4 a 0 do Sevilla). Na última temporada, teve trajetória parecida no Sevilla.

Os reforços também não dão imagem de ousadia, algo que se vê até no Málaga após o xeique catariano botar a mão no bolso. Já foram acertadas as idas do zagueiro Miranda (São Paulo), do lateral Sílvio (Braga), do meia Gabi (Zaragoza) e do atacante Adrián (Deportivo de La Coruña). Entre os nomes especulados pela imprensa espanhola (alerta: acreditar com moderação), os que chamam mais a atenção são Thiago Alcântara (o Barcelona dificilmente libera), Keita e Negredo (deve ficar no Sevilla). De resto, jogadores interessantes, como Osvaldo (Espanyol), Calatayud (Hércules), Piatti (Almería) e Bruno (Valencia). Se não houver novidades nessa área, o Atlético não estaria buscando nomes tão diferentes de tantos outros que passaram pelo clube na última década.

De acordo com Miguel Ángel Gil, chefe do conselho colchonero, a política da diretoria é de apostar nas categorias de base e em jovens que queiram uma oportunidade de aparecer. É uma opção, mas esbarra em dois problemas: 1) o clube não tem experiência nessa área e, só de observar os nomes procurados por Valencia e Sevilla (como Diego Alves, Rami, Del Moral e Trochowski), percebe-se como o Atlético precisa melhorar sua capacidade de observação; 2) a torcida e a imprensa não estão acostumadas a ver os colchoneros em postura tão discreta. O clube está preparado para lidar com as cobranças?

O Atlético de Madrid não tem condições de brigar com Real ou Barcelona por estrelas mundiais. Mas também tem uma obrigação de dar alguma satisfação à torcida. Se a diretoria espera a definição dos casos de De Gea, Agüero e Forlán para saber se precisará investir e quanto terá disponível, é recomendável não demorar muito nas negociações. Caso contrário, pode ficar sem opções e a necessária reformulação ficará com cara de desmanche.

Mostrar mais

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo