Estilo Fifa de blefar

As Eliminatórias da Eurocopa já terminaram, os grupos da fase decisiva foram sorteados, a Liga dos Campeões entrou na fase de mata-mata e a Copa Uefa está no mesmo caminho. Em todas essas competições, há equipes espanholas. Pelo menos por enquanto, pois a Fifa pode punir a RFEF (federação espanhola) por ingerência governamental e excluir a Espanha de todas as competições internacionais. Uma ameaça real, de acordo com a entidade internacional e com o Coelho da Páscoa.
O motivo da celeuma é o processo sucessório da RFEF. Na Espanha, as federações esportivas alinharam os mandatos de seus presidentes ao ciclo olímpico. Assim, os dirigentes ficam quatro anos no cargo e saem (ou são reeleitos) nos anos olímpicos. Ou seja, 2008 é ano de mudanças em quase todas as federações da Espanha (só as de esportes de inverno escapam, pois o ciclo olímpico é diferente).
Para este ano, o governo espanhol mudou ligeiramente as regras. Em fevereiro de 2007, anunciou que, no ano seguinte, as federações esportivas que não terão atletas nos Jogos Olímpicos de Pequim deveriam convocar eleições em janeiro. Com justificativas plausíveis, o prazo poderia ser esticado até março. Quem levar representantes à China deve ter eleição no mês seguinte aos Jogos, setembro. O objetivo da medida é facilitar os processos eleitorais e dar mais transparência ao processo, considerando as experiências de 2000 e 2004.
A RFEF não gostou. Acostumada com o jeito “não-me-toques” da Fifa, considerou a determinação do governo espanhol como uma tentativa de interferir em sua autonomia. Ainda assim, Ángel María Villar, presidente da federação espanhola, não fez nada além de divulgar um protesto oficial. Mas não apresentou propostas de mudança.
Os meses se passaram e o tal prazo da eleição chegou sem que o cenário tivesse mudado. O governo espanhol exige eleição na RFEF, mas a Fifa resolveu aparecer. Em homenagem do Real Madrid a Alfredo di Stéfano, Joseph Blatter usou seu discurso para ameaçar a Espanha de desfiliação da entidade internacional. Assim, os times espanhóis – clubes e seleções – perderiam o direito de disputar competições internacionais, incluindo as que já estão em andamento. Segundo Blatter, nada modesto, “a Fifa é mais poderosa que a ONU, pois tem mais membros e suas decisões são executadas sem que precisem passar por trâmites burocráticos”.
O recado foi dado, mas o governo não parece muito disposto a ceder. Jaime Lissavetzky, secretário de esportes do país, afirmou que, em assuntos ligados apenas à Espanha, é o governo escolhido pelo povo que manda. Além disso, contestou o caráter privado que a RFEF diz ter: “Como a federação é uma entidade privada se recebe dinheiro das loterias e fizeram 141 campos de gramado artificial com ele? As federações têm caráter privado, mas contam com competências delegadas por parte do poder público. E, para receber subvenção pública, é preciso respeitar uma série de requisitos”.
O que pode manter o governo firme em sua decisão é que, se abrir uma exceção à RFEF, terá de se submeter a uma enorme pressão dos presidentes das outras federações esportivas. Um risco nada agradável em uma nação que se transformou em força olímpica na última década e que não é tão monoesportiva como o Brasil.
Dois outros elementos motivam Lissavetzky. Primeiro, as equipes espanholas têm direitos adquiridos esportivamente e, se o governo levar a disputa para a Corte Européia, a chance de vitória é razoável. Até porque Blatter treme sempre que houve falar em decisões indo para Luxemburgo. Além disso, a Fifa já ameaçou várias federações nacionais de desfiliação, mas só tomou atitudes realmente radicais com o futebolisticamente insignificante Quênia. A Grécia também foi desfiliada, mas houve acordo antes que a medida tivesse reflexos na prática. Nos outros casos, incluindo Brasil, Portugal e Peru, os dois lados – Fifa e governo local – cederam um pouco e saíram com o discurso “eles entenderam o que pedíamos e acabou o mal entendido”.
O desfecho mais provável para a luta Fifa x governo espanhol é esse. Ainda que os dois lados não cedam, a chance de as equipes espanholas ficarem de fora das competições internacionais parecem reduzidas. No máximo, a briga serve para Blatter tentar reforçar sua imagem de poderoso na comunidade futebolística internacional.
Albelda e Valencia negociam acordo
A seleção espanhola não é favorita ao título da Eurocopa. Ainda assim, tem um meio-campo que merece todo o respeito. Poucas seleções do mundo podem montar uma linha mediana com Fàbregas, Xavi, Iniesta e David Silva. São quatro jogadores de grande talento, que sabem defender, armar jogadas e aparecer como homem-surpresa no ataque. Melhor ainda: as experiências com o quarteto foram bem sucedidas, com as figuras se encaixando com naturalidade.
Qualquer coisa grande que a Fúria fizer em gramados suíços e austríacos dependerá desse quarteto. Aí pinta um problema. Para dar equilíbrio a esse meio-campo, o técnico Luis Aragonés precisa de um volante com forte poder de marcação atrás dessa linha de quatro, que terá mais liberdade criativa se tiver cobertura adequada. O cabeça-de-área ideal para a função, para o treinador, é Albelda. Um jogador inativo após ser afastado por seu próprio clube.
Por causa de seus reflexos na seleção nacional, a briga Albelda x Valencia/Ronald Koeman é de importância estratégica na Espanha. O jogador foi afastado pelo técnico holandês, que o considerava um dos pivôs da predisposição do elenco a ir contra seu comandante. Albelda pediu liberação para negociar com outro clube, mas o Valencia queria receber o valor da rescisão caso isso ocorresse e vetava a ida do meio-campista a Real Madrid, Barcelona, Atlético de Madrid, Sevilla e Villarreal. E ficava o impasse.
Na última semana, parece haver uma luz no litígio. Jaume Part, presidente da Associação de Penhas Valencianistas (grupo de fã-clubes do time), mediou reuniões entre representantes da diretoria Che e do volante. Os dois lados mostraram disposição a ceder. O Valencia não teria de pagar o que resta de contrato ao jogador, que poderia ir a outra equipe. O acordo ainda não é oficial, mas já há sinais de que o volante pode voltar a jogar. Para alívio de Luis Aragonés.
CURTAS
– Quatro derrotas – três em casa – nos últimos cinco jogos. Derrotas para Valladolid, Betis, Recreativo de Huelva e Sevilla. O Espanyol está perdendo tolamente a chance de ficar com uma inédita vaga na Liga dos Campeões.
– O Atlético de Madrid é outro que parece disposto a sofrer mais que o necessário para ficar com um lugar na LC. Melhor para Villarreal e o ascendente Sevilla.
– Na vitória do Almería por 1 a 0 sobre o Murcia, o goleiro brasileiro Diego completou 617 minutos seguidos sem sofrer gol. O ex-atleticano já superou a marca de Casillas, a melhor da temporada até então.
– O Levante fez oito pontos nas 19 rodadas do primeiro turno. Nas cinco do returno, já igualou a marca. Os azulgranas ainda estão bem isolados na lanterna, mas, ao menos, estão dispostos a ter um final de temporada mais digno e fazer sua torcida acreditar que é possível escapar do rebaixamento.



