Espanha

Enquanto nada for o bastante, o Real Madrid nunca vai conseguir o que quer

“Ele faz parte da história por ter sido o treinador de La Décima, mas a exigência é máxima e precisamos de um novo impulso”. Essa foi a explicação de Florentino Pérez para demitir Carlo Ancelotti, um ano depois de o italiano liderar a conquista do décimo título da Champions League, que foi a obsessão durante muito tempo. Agora, esse posto está vago. O que quer o Real Madrid, afinal de contas? Pelas palavras do presidente, o máximo possível, o que entendo como ganhar títulos espanhóis e continentais com frequência. Mas enquanto adotar essa postura de que nada é bom o bastante para o maior clube do mundo, nunca vai conseguir isso.

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Nada mais explica a demissão de Ancelotti. Ele conquistou a Liga dos Campeões com grandes méritos na formação do time – tirando o máximo de Di María e encaixando Bale – e nas mudanças durante a decisão contra o Atlético de Madrid, quando colocou Isco no lugar de Khedira para auxiliar Modric na armação. Conseguiu o gol de empate e foi campeão na prorrogação. Mas depois da Copa do Mundo, teve que começar de novo para saciar a compulsão de sempre contratar grandes estrelas e ainda assim conseguiu vencer 22 jogos seguidos. Chegou às semifinais da Champions e brigou pelo título até a penúltima rodada. Duas trajetórias que terminaram em decepção, não em fracasso, mas nada é bom o bastante para Pérez, nem um treinador que ganhou 75% dos pontos, o melhor aproveitamento da história do clube.

O cenário assemelha-se ao início da década passada, quando Del Bosque foi demitido mesmo após vencer a Liga dos Campeões. O resultado foram seis anos seguidos sendo eliminado nas oitavas de final, entre 2005 e 2011. A troca de treinador sempre foi constante. São nove desde Del Bosque, e apenas Mourinho durou mais de dois anos (ainda assim, durou três). O comum era no máximo uma temporada, como foi com Schuster ou Capello, os dois, junto com Mourinho, que conseguiram vencer o Espanhol nesse período. Uma trituradora de técnicos, e o Real Madrid volta àquela história de fazer sempre a mesma coisa esperando resultados diferentes.

Ainda mais quando se olha para o mercado de treinadores. O nome mais provável para assumir a equipe de Cristiano Ronaldo é Rafa Benítez, que tem a seu favor ser espanhol. E basicamente isso porque os últimos dois trabalhos, no Chelsea e no Napoli, foram no máximo bons, sem nada de excepcional. Enquanto Ancelotti foi campeão pelo Paris Saint-Germain e o único sem o sobrenome Mourinho a dar a Premier League para o Chelsea na Era Abramovich antes de ir para a Espanha. O segundo na lista é Klopp, que precisaria adaptar sua ideologia e abandonar os planos de tirar uns meses para descansar, mas o alemão também não tem o currículo e a experiência de Ancelotti. Poucos têm. Por que, então, abrir mão de um treinador vencedor, amado pela torcida, pelos jogadores e pelos próprios diretores, como disse o próprio presidente? Porque, afinal, Florentino Pérez precisa colocar a máquina em movimento.

Ele tem duas passagens pelo Real Madrid como presidente, de 2000 a 2006 e desde 2009. Em todos esses anos, conquistou três edições do Espanhol e duas da Champions League, sem contar Supercopas, Copas do Rei e Mundiais. Um retrospecto que está longe da hegemonia que deseja para o clube. Porque esse tipo de dominação, poucas vezes vista de fato, vem com um trabalho coerente. Não pode mudar técnico e/ou o time a cada doze meses sem critério ou contratar grandes nomes sem pensar em como eles vão se encaixar na equipe. Não pode administrar o clube na base de “impulsos”.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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