Espanha

E aí, Barcelona?

O maior ídolo dos últimos tempos afundado em melancolia. Um técnico sem autoridade. O presidente em popularidade decrescente e que parece mais preocupado com suas outras atividades pessoais e profissionais. Personalidades dando pitaco a todo momento. Metade da imprensa escondendo a crise e a outra metade querendo aumentá-la. E a necessidade de, nesse cenário, ainda tirar a desvantagem de oito pontos para o maior rival a 11 rodadas do final do campeonato. A coisa não parece boa para o Barcelona.

O clube tem insistido que o Campeonato Espanhol não está decidido. Considerando que há um confronto direto pela frente (no Santiago Bernabéu, é verdade, mas é um confronto direto), pode-se imaginar que a conta seja recuperar cinco pontos de atraso do Real Madrid em dez jogos. É muito difícil pela consistência que os madridistas têm mostrado, mas é possível. E o Barcelona precisa colocar a cabeça no lugar para que isso aconteça. Ou, no mínimo, para reduzir os danos.

Primeiro, o clube precisa ver o que tem em mãos. O mercado já fechou e não dá para pensar em reforços ou venda de jogadores. O clube de Les Corts tem quatro dos melhores jogadores do mundo, sendo que um (Ronaldinho) já foi o melhor do mundo e tem potencial para voltar a sê-lo muitas vezes ainda. Problema: todos eles jogam em posições parecidas e o clima entre eles nem sempre é dos mais pacíficos.

O Barça ainda tem um meio-campo de grande potencial, com dois volantes técnicos (Xavi e Iniesta) e dois armadores de grande capacidade, mas em maus momentos. Deco está claramente desmotivado e Yayá Touré não se soltou no Camp Nou. A defesa cumpre seu papel, ainda que não seja das melhores da Europa. No banco, um técnico sem conseguir gerenciar uma crise de desempenho inesperada e dois jovens – Giovani e Bojan – que já mostram condições de jogar em alto nível.

Em resumo, a base do time campeão europeu de 2006 ainda está lá. Só que reforçada por Henry e com Messi mais amadurecido. Então, é muito pessimismo crônico achar que não dá para se mobilizar para tentar, ao menos até o final da temporada, contornar os problemas e ter uns meses menos apáticos. O problema é encontrar alguém em Les Corts que esteja com vontade de fazer isso.

Um exemplo claro é a dupla Eto’o-Ronaldinho. O primeiro tem suporte da diretoria em relação a seu atrito com o segundo. No entanto, ao invés de assumir o papel de novo líder, Eto’o também parece ter caído na melancolia. O atraso na reapresentação ao clube depois da Copa Africana de Nações pode ser um sinal disso. Sua dificuldade de encontrar passagem de Acra para Barcelona soou mal. Pode até ser verdade, mas, em um momento em que ninguém parece feliz no Camp Nou, a demora para voltar aos treinos pode ter repercussão interna maior que a necessária.

Ronaldinho também tem problemas sérios. Dizer que ele é farsa ou não é tão bom é pura cornetagem. Trata-se de um dos maiores jogadores da atualidade (se não o maior), mas que tem fortes indícios de ter problemas pessoais ou psicológicos. A motivação é quase nula. A falta de concentração também. Frank Rijkaard e Joan Laporta não foram hábeis no início da crise do craque como Schuster foi com Robinho. Enquanto o barcelonista vive com contusões estranhas, o madridista se destaca como uma das figuras do campeonato.

O Barcelona precisa trazer Ronaldinho de volta ao clube. Pelo menos por mais alguns meses. Talvez fosse o caso de trata-lo com mais cuidado e fazer um pouco suas vontades. Nem que o objetivo fosse apenas evitar uma desvalorização maior para vendê-lo em julho. Se o brasileiro voltar a seus melhores momentos, o Barça dará um enorme salto de qualidade. Além disso, pode ajudar Messi (Eto’o não se bica com Ronaldinho, mas Messi o vê como irmão mais velho) a recuperar a boa fase.

A partir daí, Laporta precisa ser mais claro com o que pretende fazer com o resto do time. É muito evidente que o time passará por uma renovação forte no verão e um clima de despedida já toma conta de boa parte do elenco e da comissão técnica. A sensação de insegurança profissional deixa o time pouco contundente em campo. Ainda que o clube não possa se dar ao luxo de, previamente, “demitir” alguns jogadores.

Desse modo, os catalães poderiam firmar uma espécie de “pacto”. Os jogadores se uniriam para se suportarem por mais alguns meses. A diretoria trataria de melhorar sua posição institucional, evitando que a imprensa solte tantas especulações e que figuras como Cruyff emitam opiniões que desestabilizem o grupo.

A última medida seria delinear o que se pode arrancar desta temporada. O time ainda está na Copa do Rei, mas um título desse não faria muita diferença para o ânimo da torcida. Então, é ver o que se pode de Liga dos Campeões e Campeonato Espanhol. Aí, há três caminhos.

O mais otimista é confiar piamente nas medidas emergência para o final de temporada e tentar uma grande arrancada nas duas competições. Ainda que o título doméstico esteja quase na mão do Real Madrid. O cenário intermediário é desistir definitivamente no Espanhol para ter mais gás nos jogos da LC, onde o Barça tem se mostrado mais competitivo e motivado (como o Milan fez ano passado). A opção pessimista é assumir que não há remédio para a crise e começar, desde já, o planejamento de 2008/9.

De qualquer modo, o Barcelona precisa de ação. Não dá mais para empurrar a temporada com a barriga, que é basicamente o que o clube tem feito no último ano e meio. Desse jeito, só vai servir para dar um fim melancólico a um grupo que está entre os melhores da história do clube.

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Equipe Trivela

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