Espanha

Duro castigo para o Getafe

Uma vida em uma semana. O Getafe nunca deixou de ser uma equipe pequena da região metropolitana de Madri. Um time cuja experiência na elite espanhola continua sendo vista como algo efêmero. Ainda assim, por uma semana, o Geta foi como um grande. Os jogos de maior repercussão na Espanha envolviam os azulones. E eles se deram mal em ambos. Um fim cruel.

A história desses sete dias começou em 10 de abril. O time madrileno recebeu o Bayern de Munique pelas quartas-de-final da Copa Uefa. Com 10 homens em campo desde os 5 minutos de jogo, os getafistas quase venceram no tempo normal. Tomaram o gol a dois minutos do fim. Na prorrogação, fizeram 3 a 1 e estavam perto de eliminar um clube que gastara € 70 milhões em reforços no verão. Nos últimos cinco minutos, um frango de Abbondanzieri e um gol nos acréscimos de Toni deram a classificação aos alemães.

Na quarta-feira da semana seguinte, o final dessa história. Na final da Copa do Rei, o Getafe perdeu por 3 a 1 para o Valencia e ficou com o bi-vice da competição. No meio do caminho, ainda teve um pálido empate por 0 a 0 com o Zaragoza pelo Campeonato Espanhol, o que praticamente deixou mais evidente que o time não conseguirá uma vaga em competição internacional na próxima temporada.

As derrotas (ou eliminação) em seus jogos mais midiáticos na temporada e a ausência em competições internacionais no futuro imediato podem dar a sensação de fracasso para a temporada getafista. Uma percepção que não condiz com a realidade.

Aí vai os méritos para Michael Laudrup. O técnico dinamarquês pegou um time desmontado. Depois de duas boas temporadas sob o comando de Bernd Schuster, o Getafe se desfez de boa parte de seus jogadores de destaque para fazer caixa. Os casos mais claros foram do volante Alexis, devolvido de empréstimo ao Valencia, o atacante Güiza, que tem brilhado no Mallorca, e o meia Vivar Dorado, figura importante do Valladolid.

Os reforços foram de nível intermediário. Ustari, Cata Díaz, Uche e Kepa eram nomes apenas promissores e com algum risco de não vingarem (o que ocorreu com o último, ex-atacante do Sevilla). Sorte de Laudrup que quatro figuras fundamentais para permitir um mínimo de continuidade no bom trabalho continuou no Coliseum Alfonso Pérez: o lateral Contra, os meias Casquero e De la Red e o goleiro Abbondanzieri.

A partir daí, o ex-craque dinamarquês conseguiu montar o time. Contra, Belenguer, Cata Díaz e Licht formam uma defesa muito aguerrida, que tem atrás de si um goleiro capaz de atuações espetaculares e falhas igualmente impressionantes. O meio-campo tem grande fluidez, com Casquero e a revelação Granero (pescado no Real Madrid Castilla, com quem ainda tem vínculo) dando consistência pelo meio e De la Red trabalhando na ligação com o ataque. Na frente, Uche é a referência.

O time é jovem e sentiu dificuldades no começo da temporada. Depois que se soltou, o Getafe saiu rapidamente da zona de rebaixamento. A partir de então, concentrou suas forças na Copa Uefa, em que teve desempenho digno de equipe “calejada”. Venceu o Tottenham em Londres, o Benfica em Lisboa e empatou com o Bayern em Munique. Resultados que orgulhariam qualquer grande europeu, ainda que tenham custado uma campanha mais ousada na liga espanhola.

Pelo menos, houve reconhecimento deste bom trabalho. Ninguém cobrou um resultado melhor dos jogadores. Tampouco se falou em falta de camisa nas decisões. Laudrup já é visto com respeito e não seria de se estranhar se, no segundo semestre, estivesse no banco de um clube maior. Menos mal. Ainda que o Getafe 2007/8 não conquiste nada, sabe-se que esse time deixou sua marca na temporada.

O título, apesar de tudo

O título perdoa tudo. Os erros se tornam menores, as más atuações são desculpáveis e as vaias desaparecem. Afinal, o objetivo final, um título, veio. E não importam os meios se o fim foi o desejado. Esse é o pensamento do torcedor e até da imprensa no momento da conquista, mas não dá para aplicá-lo ao caso do Valencia vencedor da Copa do Rei. Seria um erro enorme absolver o clube só por causa de uma conquista.

Do modo como a temporada se desenhou para os ches, ficar com o título da Copa do Rei é razoavelmente natural. Depois de brigas internas, demissão precipitada de técnico, contratação de substituto que desagradou o elenco, afastamento dos líderes do grupo e série de atuações pífias, o Valencia virou uma caricatura. Mesmo os melhores jogadores, como Villa e David Silva estiveram muito abaixo de suas possibilidades.

Koeman não conseguiu encontrar um sistema de jogo. Até porque ele mostrou insegurança a respeito do elenco que tinha em mãos. Boa parte do grupo continuava descontente com sua convocação e a má fase contaminou mesmo os que estavam a seu lado. O time, que provavelmente estaria lutando pelo título se jogasse de acordo com seu potencial, só não está na zona de rebaixamento graças aos pontos acumulados no período de Quique Sánchez Flores. Na Liga dos Campeões, outro fracasso. Última colocação em uma chave com o mediano Schalke 04 e o fraco Rosenborg.

Nesse cenário, o mínimo que se exigiria do time era uma campanha digna na Copa do Rei. E a equipe até teve o mérito de conseguir se concentrar no torneio, separando a crise da liga com as possibilidades reais da copa. Com determinação não vista em outras competições, o Valencia conseguiu eliminar o Barcelona nas semifinais e superar o surpreendente Getafe na decisão.

No jogo do estádio Vicente Calderón, os ches se valeram de um início de jogo intenso. Diante de uma dversário ainda desgastado mentalmente pela eliminação na Copa Uefa, os valencianistas iniciaram a partida em ritmo acelerado e, em 10 minutos, já venciam por 2 a 0. O Getafe teve de se abrir e o jogo ficou interessante.

Com o controle psicológico da partida, o Valencia controlou a vantagem e, quando parecia que os getafistas poderiam impor uma pressão final no desespero, Morientes matou o duelo após uma falha de Ustari.

O título serviu para tornar menos pífia a temporada do Valencia. De qualquer modo, se o clube quiser ter a projeção nacional e internacional que pode ter, precisa mudar muita coisa na próxima temporada.

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Equipe Trivela

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