Disputa pelo playoff é mais do que uma vaga na primeira divisão para o Alavés: é acreditar no processo
Para o diretor esportivo do Alavés, em entrevista exclusiva à Trivela, mais do que o resultado, o importante é o processo para seguir se desenvolvendo a cada dia
O sábado será de um jogo decisivo para Alavés e Levante, que se enfrentam no estádio Ciudad de Valencia para decidir quem sobe à primeira divisão. É a final do playoff da segunda divisão espanhola, que segue uma fórmula similar ao que vemos em outros países, como Inglaterra e Itália. É um jogo que vale muito, mas isso não é algo que parece desesperar Sergio Fernandez, diretor esportivo do Alavés, que conversou de forma exclusiva com a Trivela para falar sobre as perspectivas do jogo.
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O Alavés chega a esta decisão depois de ter terminado a fase de classificação em quarto lugar, com 72 pontos. Foi um término dramático de campanha: a última rodada foi contra o Las Palmas, o segundo colocado. Quem vencesse, subiria diretamente à segunda divisão. Deu empate por 0 a 0 e o Las Palmas terminou em segundo lugar, com 72 pontos, mesma pontuação do Levante, que venceu na rodada final.
Levante e Alavés precisaram passar pelas semifinais dos playoffs antes de alcançar a decisão. O Alavés superou o Eibar com um empate e uma vitória. O Levante venceu duas vezes o Albacete. No jogo de ida da final, no Estadio de Mendizorroza, empate por 0 a 0. A decisão agora será na casa do Levante e vale a regra do gol fora. Caso o empate prevaleça em 0 a 0, o jogo irá para prorrogação, ainda valendo o gol fora. Se o empate persistir, o time de melhor campanha avança. Como empatou sem gols em casa, se o Alavés empatar, mas fizer gols, estará classificado, seja no tempo normal ou na prorrogação.
Na Inglaterra, o jogo do acesso é tratado como “a partida de um bilhão de libras”. Os valores são menores para o playoff em busca de uma vaga em La Liga, mas o ponto aqui não parece ser esse. O Alavés está bastante confiante não só para o jogo, mas principalmente no trabalho que tem sido feito. Mais do que apostar tudo em um só jogo, em um resultado, o clube tem trabalhado em seus processos, para que chegar à primeira divisão não seja por acaso. Sergio Fernandez, diretor esportivo do Alavés desde 2016, conversou com a Trivela sobre como o clube se prepara para este momento.
Confira a entrevista exclusiva de Sergio Fernandez, diretor esportivo Alavés, à Trivela:
Trivela: Qual a diferença que pode fazer estar na primeira ou segunda divisão?
Sergio Fernandez: É certo que do ponto de vista sociocultural e econômico, a mudança é muito importante. Primeiro, o impacto social que tem, pelo que move a nível de estrutura, torcedores estar na primeira divisão, e no econômico, porque esse mesmo movimento de pessoas e o impacto publicitário que têm a imagem de La Liga na primeira divisão e o que se obtém nos direitos de televisão. É importantíssimo. A, além disso, na Espanha o futebol é uma atividade de máxima demanda e estar na máxima categoria têm um alcance monumental, têm o máximo de repercussão midiática. Então, é importantíssimo.
Trivela: Como planejar o elenco da próxima temporada diante de um cenário que o acesso só ficará definido no próximo jogo? Como fazer isso antes, é possível?
Sergio Fernandez: Trabalhar obviamente estamos obrigados a trabalhar, tentamos chegar a acordos, o que é certo é que é muito difícil, estando neste ponto, quando se refere a jogadores de um determinado nível, que possam ter uma cordo contratual contigo, sem conhecer se estará na primeira divisão ou na segunda. O que é certo é que vamos definindo um perfil e as características de jogador que vamos demandar em uma divisão ou em outra. Na maioria dos casos, não coincidem os jogadores e os perfis de jogadores que um clube vai precisar na primeira divisão ou na segunda.
Trivela: Como proporcional aos jogadores e a equipe técnica a tranquilidade para este momento?
Sergio Fernandez: Estamos vivendo um momento tremendamente emocionante, de muita empolgação e de muita responsabilidade pelo que significa para o nosso clube voltar à primeira divisão do futebol nacional. Este momento vem como consequência de muitas coisas que que fizemos no processo. O que nos agarramos é ao processo que nos permitiu chegar até este momento e extravasar na empolgação, na confiança, no esforço, no companheirismo e, neste momento, o que nos resta é desfrutar do momento que estamos vivendo. É uma enorme responsabilidade. Sem processo do que aconteceu durante estes meses atrás seria impossível chegar ao que fizemos bem, então isso é simplesmente a consequência de muitas horas de trabalho, muita dedicação, e agora nos resta esse ponto de responsabilidade para culminar tanto esforço e tanto trabalho.
Alberto Fernandez Canelo: Isso tem que se traduzir não só nos jogadores, mas nos torcedores. E como disse Sergio, o que tentamos primeira é transmitir a empolgação, as pessoas têm que aproveitar este momento, porque é o resultado de trabalho não só de uma temporada, mas também de outras temporadas atrás. Estar aqui neste momento nos permite viver algo que outros não estão vivendo. Agora aproveitamos e o resultado será consequência do trabalho.
Trivela: Vocês estão disputando contra uma equipe que também foi rebaixada na última temporada. Isso torna mais difícil a tarefa, ainda mais em uma temporada longa e com partidas tão difíceis contra o Levante?
Sergio Fernandez: Quando chegamos a estes momentos, a equipe que você vai enfrentar, não cabe nenhuma dúvida que é uma equipe muito boa, com muitos bons jogadores, que durante a temporada teve que fazer as coisas muito bem, porque se não seria impossível chegar a uma final depois de ter que jogar 42 rodadas, que são muitas, competindo ao nível máximo, oferecendo sua melhor versão. Neste caso é o Levante, mas qualquer das outras equipes que enfrentamos durante todo o ano com possiblidades reais de subir de divisão foram rivais tremendamente complicados.
O seu nível de exigência tem que ser muito alto, mas também com a confiança e a satisfação que para chegar a este momento, você também fez as coisas muito bem. A linha entre o sucesso e o fracasso quando se enfrentam equipes neste nível é muito fina. Tem que cuidar muito bem dos detalhes, mas com a satisfação e a confiança que para chegar a este momento, você tem que fazer as coisas muito bem.

Trivela: Como planejar a equipe para a próxima temporada com uma diferença tão grande entre primeira e segunda divisão? Como trabalhar com a possibilidade de continuar na segunda divisão, que é uma possibilidade?
Sergio Fernandez: É muito sensível. Não conseguir o acesso será única e exclusivamente uma decepção, mas o clube a organização, como conceitos, nos importa muito mais os processos que nos levam a conseguir determinados status. Vamos lutar por algo muito bonito, mas como disse antes, a linha é muito fina e, se esse ano não conseguirmos, voltaremos a tentar. Com nossas armas, com nosso conhecimento, com nossas capacidades. E isto se trata de tentar empolgar novamente as pessoas, para que se sintam envolvidos com uma maneira de ser, com uma maneira de proceder, com um método de trabalho. Seja a curto prazo ou a médio prazo ou mesmo inclusive a longo prazo, nos permita conseguir objetivos esportivos.
Em uma organização como o Deportivo Alavés, que eu conheço, temos que consolidar muitas coisas, não só do ponto de vista esportivo, temos que consolidar como organização, como massa social, como estrutura, e acredito que são passos que cada ano vamos fazendo. Espero que esses passos sejam na primeira divisão, mas se não, a nossa responsabilidade será continuar seguindo essas etapas para que o dia que conseguirmos voltar à primeira divisão, o façamos de uma maneira firme, sólida e com todas as ferramentas necessárias para tentar no melhor tempo possível.
Trivela: O Alavés já grandes momentos, inclusive na Europa. É possível planejar tão longe, para chegar em um ponto como esse novamente?
Sergio Fernandez: Sem nenhuma dúvida, o que não podemos é falar quatro se não cumprimos a primeira. Tudo tem que ser como consequência de um processo, de um método, de capacidades que a organização tenha. E neste momento, nosso principal objetivo tem sido dar ao clube ferramentas, uma estrutura esportiva que nos permita conseguir os objetivos esportivos. Cumprimos com êxito, só nos falta o passo final, que seria converter esse sonho em realidade e voltar à primeira divisão. Mas a partir daí, nos faltam muitas coisas para fazer, muitas coisas para melhorar.
Do ponto de vista social, estamos terminando a primeira fase da remodelação da nossa sede esportiva, temos projetada a remodelação do estádio, temos projetado dar um serviço aos nossos torcedores que estarão muito mais confortáveis nas nossas instalações, dar ferramentas à estrutura esportiva para ter mais controle do rendimento dos nossos jogadores, tanto na equipe principal quanto nas categorias de base.
São processos que nos permitirão voltar a disputar campeonatos e competições, como as que disputamos em anos anteriores, que tanto nos fez vibrar e que nos deixaram tão orgulhosos nós e nossos torcedores. Isso é o que buscamos, que nossos torcedores voltem a ter esse sentimento de pertencimento, esse sentimento de aplicação, de apoio aos nossos jogadores, e acredito que conseguimos, estamos no caminho correto para voltar a dar essas grandes tardes aos nossos torcedores e à nossa cidade.
Trivela: Poderíamos dizer então que este (o acesso) é um passo importante, mas não é tudo. Tudo é o processo para chegar a este ponto e poder dar esse passo?
Sergio Fernandez: Sem nenhuma dúvida. Ninguém vai esconder que se trabalha com mais conforto e com mais recursos e maior impacto, tanto midiático quanto econômico na primeira divisão, mas não conseguir isso só nos vai gerar decepção de não conseguir imediatamente, da mesma maneira que não fomos capazes de conseguir o acesso no confronto direto contra Las Palmas, que nos colocava na primeira divisão, e vamos tentar no playoff. Se não conseguirmos, simplesmente teremos um tempo de decepção e de reflexão e seguiremos o caminho que iniciamos em seu momento para conseguir o que tanto anseia esta cidade.
Não só ter uma equipe na primeira divisão, mas ter um clube e uma estrutura de primeira divisão, que nos permita com o passar do tempo, ter outro tipo de aspiração, ter outro tipo de recursos, ter outro tipo de impacto tanto econômico como social e esportivo.
Trivela: Conseguindo o acesso, como montar um elenco equilibrado, que permita ficar na primeira divisão, mas sem gastar demais e ter problemas financeiros?
Sergio Fernandez: Primeiro de tudo, com realismo e com objetividade. Se chegamos à primeira divisão, temos que ter os pés no chão para saber quem somos, de onde viemos e que status teremos dentro da competição. Temos que saber muito bem qual é o nosso plano e o nosso plano está baseado na melhoria contínua, no desenvolvimento contínuo, em cada fim de semana ser melhor, em cada treinamento ter jogadores com um maior nível de rendimento.
Isso não se consegue só com a economia, se consegue com o trabalho interno, com levar os nossos jogadores ao seu nível máximo de rendimento e pouco a pouco, como equipe, ir cumprindo etapas, sabendo o quanto será difícil a competição para nós, que supostamente não vamos estar entre os clubes mais potentes, mas seguramente clubes como nós, através do desenvolvimento, através das transferências, através da imaginação e bom trabalho dos profissionais, que trabalham nas diferentes área, desde a captação até desenvolvimento, para otimizar os recursos que temos, que são os jogadores. A partir daí, os processos de melhora. Não existe uma ciência que nos assegura atingir objetivos. O que temos claro é que o trabalho e o bom trabalho te deixam mais perto dos teus objetivos.


