Espanha

Crise anunciada

Melancolia. Esse é o clima que predomina em Riazor. Torcedores e jogadores parecem atônitos e impotentes ao ver a decadência por que passa o Deportivo de La Coruña. Na zona de rebaixamento, nem parece o clube que, há uma década, vivia uma grande fase e se insinuava como uma força espanhola, que conquistou um título nacional em 2000 e que foi semifinalista da Liga dos Campeões em 2003 depois de fazer 4 a 0 no Milan.

A explicação básica para a fase do Depor é a tradicional: falta de dinheiro. Sem recursos para contratar jogadores, o clube vê seu elenco piorar temporada após temporada e a conseqüência lógica é ver isso refletido em campo. Um problema previsível para quem acompanha de perto a trajetória do clube nos últimos anos, incluindo parte do período de glórias.

Em 1988, Augusto César Lendoiro assumiu a presidência do Deportivo de La Coruña. O clube lutava para não cair para a terceira divisão e precisava de um fato novo para se reerguer. O dirigente transformou a entidade em empresa e captou recursos de associados pela Galícia. Além disso, colocou a mão no próprio bolso para reforçar o time, que subiu para a elite em 1990.

Houve anos de glórias. Anos disputando o título, classificações para competições internacionais e torcida lotando o Riazor para vibrar com jogadas de Bebeto, Rivaldo, Makaay, Mauro Silva, Fran, Tristán, Djalminha, Molina, Manjarín, Liaño, Songo’o e Capdevila, entre outros. No cenário internacional, o clube conseguiu resultados impressionantes, como vitória sobre o Manchester United em Old Trafford e duas eliminações do Milan na Liga dos Campeões.

Nesse tempo todo, Lendoiro colocou dinheiro no Deportivo, que ganhou justificadamente o apelido de “Superdepor”. No entanto, o dirigente não pensou no futuro. Não foi criada uma estrutura realmente sólida para o principal time da Galícia se tornar auto-sustentável. Aos poucos, a fonte foi se esgotando e o time, caindo.

Na temporada passada, já se via uma caricatura de Deportivo. Joaquín Caparrós foi contratado por Lendoiro na esperança de implementar, com anos de atraso, um projeto de revelação de jogadores das categorias de base. Não deu certo porque o time não se soltou no sistema de trabalho do técnico e a campanha decepcionou.

A situação do clube era catastrófica. As dívidas chegavam a € 144 milhões. Lendoiro jurava ser credor de € 120 milhões, argumento para considerar o estado financeiro do clube “sob controle”. No entanto, o dirigente nunca divulgou aos associados balanços que comprovassem isso.

A sensação de que o Deportivo estava quase quebrado se reforçou na campanha de mercado. Quase todos os bons jogadores foram vendidos: Jorge Andrade, Capdevila, Estoyanoff e Duscher. O empréstimo de Arizmendi não foi renovado. Entre os que chegaram estava o mexicano Guardado e um punhado de jogadores vindos da segunda divisão. Para comandar o grupo, foi contratado Miguel Ángel Lotina, técnico especializado em salvar equipes do rebaixamento (ficou evidente o recado da diretoria para os torcedores, não?).

No papel, o Deportivo de La Coruña de hoje é paupérrimo. Há dois goleiros razoavelmente confiáveis (Aouate e Munúa), o lateral-zagueiro argentino Coloccini e o meia Guardado. Só. De resto, Valerón não tem mais fôlego para comandar o meio-campo com a mesma eficiência, o meia Verdù tem boas participações, mas é instável, e o atacante Riki decepciona nesta temporada. Sobram ainda jogadores de qualidade duvidosa.

Percebendo que o time afunda na decadência, a torcida abandonou o clube. A média de público é de cerca de 15 mil pagantes, muito abaixo dos 28 mil de cinco anos atrás (nota: no futebol europeu, quedas dessa intensidade são raras). O time sente a apatia da torcida e não parece tentar buscar forças para reagir. Isso fica evidente nos patéticos números dos blanquiazules no Riazor: uma vitória (sobre o Betis), um empate (com o Mallorca) e cinco derrotas.

Ainda que o time seja fraco, tem condições para fugir do rebaixamento. Afinal, Levante, Recreativo de Huelva, Valladolid, Murcia e até o surpreendente Racing de Santander estão longe de serem potências invencíveis no papel e o Depor precisa ser melhor que apenas três times para continuar na elite. No entanto, o único representante da Galícia na primeira divisão precisa urgentemente recuperar a auto-estima. Caso contrário, será melancolicamente rebaixado.

Agora é com o Atlético
Há dois excelentes meios de perder a autoridade: exercê-la em excesso ou deixar de exercê-la. A RFEF (federação espanhola) começa perigosamente a buscar a segunda opção, uma estratégia que já deu muito errado na Itália e criou um sistema em que ninguém tem respeito às instituições. No caso espanhol, ainda são pequenos detalhes, mas que abrem perigosos precedentes.

No último domingo, Atlético de Madrid e Getafe fizeram uma partida espetacular. Não pela qualidade, mas pela forma aguerrida e determinada como as duas equipes se apresentaram, em um duelo em que o modesto placar de 1 a 0 não reflete a quantidade de alternativas de um jogo que parecia de Copa Libertadores. No meio disso tudo, foram distribuídos quatro cartões vermelhos (dois para cada lado). Um deles, para Sergio Agüero, estrela do Atlético de Madrid.

O argentino foi punido por acúmulo de cartões amarelos (um por simular um pênalti e outro por colocar a mão na bola propositadamente). O Atlético não se conformou de perder seu melhor jogador. Dirigentes e jogadores colchoneros reclamaram de excesso de rigor do árbitro Carlos Clos Gómez e o clube decidiu apelar na Justiça esportiva.

A federação espanhola decidiu invalidar o primeiro cartão amarelo (o de simulação de pênalti) e manter o segundo. Desse modo, o cartão vermelho perde efeito e Agüero poderá jogar na próxima rodada, contra o Recreativo. Para quem não viu os lances, é preciso ficar claro: Agüero merecia o primeiro amarelo por fingir descaradamente que fora derrubado por Abbondanzieri e a posterior expulsão foi justíssima.

Fica a sensação de que Agüero foi poupado porque é um jogador de um grande clube que vem em ótima fase e tem se tornado um dos principais animadores do campeonato. Com um futebol ofensivo, o Atlético tem se mostrado uma terceira opção ao título, algo interessante para todo o futebol espanhol. Ainda que não haja motivações políticas, fica difícil acreditar que não se queira dar uma ajudinha ao Atlético para continuar embolado com Real Madrid e Barcelona.

Essa decisão lembra muito duas que ocorreram na temporada passada. Em uma, Beckham teve um terceiro cartão amarelo perdoado para poder enfrentar o Sevilla em um jogo decisivo para o título do Real Madrid. Na outra, a RFEF absolveu uma expulsão correta de Ronaldinho na reta final do campeonato. Detalhe: os dois casos também favoreceram grandes clubes. Coincidências estranhas e inquietantes demais.

CURTAS

– Júlio Baptista é o novo queridinho de Bernd Schuster. A força física do jogador lhe dá condições de atuar por todo o meio-campo, uma versatilidade que tem agradado ao técnico alemão.

– Como Robinho e Marcelo conquistaram a vaga de titulares, a “bancada” holandesa madridista tem estado reduzida a Sneijder e Van Nistelrooy. Robben e Drenthe são reservas mesmo.

– Depois que retornou de contusão, Pepe tem impressionado. Seguro no desarme e atento em quase todos os momentos, tem ofuscado até a Cannavaro.

– A coisa anda feia para o Betis. Assim que o time conseguiu um grande resultado (vitória fora de casa contra o ex-vice-líder Villarreal), seu melhor jogador se contundiu. O goleiro português Ricardo se contundiu em El Madrigal e tem retorno previsto apenas para janeiro.

– Ezquerro se contundiu e desfalcará o Barcelona por dez dias. Pergunta: você ainda lembrava que Ezquerro está no Barça?

– A federação catalã disse que pretende convocar Bojan Krkic para o amistoso contra o País Basco em 29 de dezembro.

– Veja a seleção Trivela da 15ª rodada do Campeonato Espanhol: Abbiati (Atlético de Madrid); Zabaleta (Espanyol), Cata Díaz (Getafe), Pepe (Real Madrid) e Cáceres (Recreativo de Huelva); Capi (Betis), Julio Baptista (Real Madrid), Jorge López (Racing de Santander) e Jesús Navas (Sevilla); Ricardo Oliveira (Zaragoza) e Luis Fabiano (Sevilla)

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Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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