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Como o Real Oviedo se tornou um clube pequeno globalizado

Em um momento que tanto se fala que é importante ter sócios-torcedores, o Real Oviedo, lá na terceira divisão da Espanha, tem uma marca para lá de importante. O clube das Astúrias tem mais de 9 mil acionistas de fora do país. O clube passou por uma situação de quase falência em 2012 e teve que pedir novos investidores, o que acabou gerando uma nova leva de pessoas que se importam com o Oviedo em várias partes do mundo. No último fim de semana, 10 alemães, quatro ingleses e uma americana estiveram no estádio ara assistir o time jogar contra o Unión Popular de Landreo. Eram mais de 17 mil pessoas que comemoravam os 89 anos de existência da equipe. Isso gerou algumas histórias espetaculares de paixões improváveis que são mantidas mesmo a milhares de quilômetros e um oceano de distância.

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“Trabalhamos para potencializar o caráter global do clube. Há pouco tempo começamos as transmissões através dos jogos através do nosso site para torcedores de fora das Astúrias”, afirmou Jorge Menéndez, presidente do Real Oviedo. A americana que estava em Oviedo para assistir ao jogo era Sherrilynn Rawson, uma nova-iorquina de 52 anos que cresceu na Califórnia. A sua história com o Real Oviedo é inusitada. Aprendeu espanhol e trabalha como professora. Mudou-se para Oregon, se casou e teve três filhos. Foi lá, na nova cidade, que surgiu a paixão pelo futebol.

Em 2004, Rawson assistiu um jogo do Portland Timbers e ficou fascinada com o time. Em 2011, em um fórum da internet sobre futebol, descobriu a história do Oviedo. Os torcedores do pequeno time espanhol tentavam expulsar Alberto González, presidente e principal acionista do clube na época – e que atualmente é procurado por crimes fiscais.

Em 2012, o clube asturiano precisou ampliar a sua oferta de capital na bolsa para gerar caixa e pagar as dívidas mais urgentes. Foi aí que o clube, então, se tornou de fato globalizado. Foi assim que Rawson e milhares de outros aficionados por futebol passaram a comprar ações do clube, ao preço de € 10,75 cada. Um total de 36.962 pessoas de 86 países se tornaram acionistas do clube. Na época, jogadores já consagrados passaram a apoiar o clube. Nomes como Cazorla, Michu e Mata se uniram para evitar que o clube sofresse mais.

Ali, o Oviedo tornou-se um clube não só das Astúrias, nem só da Espanha, mas do mundo. Foi um sucesso. O time abriu o seu capital para venda na web e precisava de € 2 milhões para os gastos emergenciais e evitar que tudo viesse abaixo. Usaram uma plataforma com Paypal no site e, em meia hora, 100 ações foram vendidas. A plataforma online achou a movimentação repentina de dinheiro suspeita e suspendeu a conta. Foi preciso negociar direto com a sede do serviço, na Irlanda, e explicar de onde vinha o dinheiro.

“Acreditávamos que a equipe ia morrer, mas decidimos tentar, não íamos cair sem lutar. Foram duas semanas de muita emoção. Mas quando apareceu Carlos Slim [bilionário mexicano] e anunciou que investiria € 2 milhões foi como um final de filme”, contou Rawson ao jornal El País. O empresário comprou, através do Grupo Carso, 34% das ações do Real Oviedo. É o grupo que tem ajudado a gerir o clube de forma a manter uma estabilidade financeira, com o Real Oviedo liderando o Grupo 1 da Segunda B, equivalente à terceira divisão espanhola. O time tem 69 pontos em 31 jogos, oito à frente do Real Murcia, segundo colocado.

“Financeiramente, graças ao Grupo Carso, o clube superou um momento crítico com a Fazenda e a Previdência Social. Há um projeto e a torcida entendeu: temos mais de 16 mil sócios”, afirmou Jorge Menéndez. No início da temporada, Carlos Slim posou com fotos de um carnê de temporada, um gesto simbólico para comemorar a marca de 15 mil torcedores com carnês. E com uma gama tão grande de acionistas estrangeiros, o clube criou uma seção no novo estádio Carlos Tartiere dedicada exclusivamente aos mais de 9 mil acionistas estrangeiros. Incluindo Rawson.

“A história do Real Oviedo é parecida com a do Timbers: são duas equipes que têm se esforçado para que suas equipes continuassem existindo”, disse a americana, que é diretora da Timbers Army, torcida organizada do Portland Timbers. E ela usou essa influência para tentar ajudar o Real Oviedo. “Para incentivar meus companheiros de arquibancada de Portland a ajudar o Oviedo, eu disse que se chegássemos a 100 ações compradas, eu tatuaria o escudo do Timbers. Um dia e meio depois, eu tive que cumprir. No final, compramos 400 ações em 76 pessoas”, conta Rawson.

A tatuagem que ela fez traz as iniciais RCTID, que significa “Rose City ‘Till I Die”. Foi um movimento que os torcedores de Portland fizeram para manterem o Portland Timbers e não torcerem por nenhum outro, mesmo que não houvesse mais time de futebol na cidade. Rose City é o apelido de Portland. Na sua visita, Rawson recebeu uma camisa das mãos do capitão do time autografada por todo o elenco. Uma homenagem a uma torcedora distante, mas que se mobilizou para impedir o fim do Real Oviedo. A entrega da camisa foi feita nos corredores do estádio, no dia de maior público do ano na terceira divisão espanhola. A camiseta que ela vestia durante a reportagem? “Ódio eterno ao futebol moderno”. O futebol se tornou mesmo globalizado.

Veja a homenagem do Real Oviedo à americana:

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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