Espanha

Começo e meio, sem fim

Poucas coisas são mais fáceis que analisar um jogo de futebol com base no placar final. Irritar-se com os jingles de 90% das propagandas. Talvez encontrar algum estudante neurótico na porta de um cursinho duas semanas antes de um vestibular importante. Ou topar com internauta cabeça-quente disposto a xingar todos em miguxês em blogs diversos. De resto, comentar resultado é facílimo.

Vamos fazer isso com o Espanha 0x1 Suíça desta quarta. Primeiro, a Espanha foi um fracasso, confirmando a velha história de que, na hora H, a Fúria amarela. Segundo, o time mostrou incapacidade de lidar com o favoritismo. Terceiro, houve uma supervalorização dos atuais campeões europeus, até porque ganhar a Eurocopa é coisa que até a Grécia já fez. Tudo parece tão simples e claro, né? Mas isso é comentar o placar, não os 90 minutos de jogo.

No futebol, a Espanha não deve ser condenada tão duramente. Com Fernando Torres ainda se recuperando de contusão – e sem condição de ficar o tempo todo em campo –, Vicente del Bosque desmontou o 4-4-2 que prevalecia desde a Eurocopa. David Villa ficou sozinho na frente. No lugar de El Niño, entrou o volante Sergi Busquets. Assim, o time ficou no 4-2-3-1, com uma dupla de volantes (Busquets e Xabi Alonso) atrás do trio de armação (Iniesta, Xavi e David Silva).

O meio-campo ficou consistente. A Espanha dominou as ações, tocou a bola com a facilidade de sempre e não se intimidou com a responsabilidade de construir o resultado. A Suíça ficou acuada, se defendendo como prometera no dia anterior. Só que faltou algo. Faltou concluir.

Os espanhóis tiveram controle da posse de bola, mas tiveram apenas duas oportunidades de gol claras no primeiro tempo. Villa acabou caindo muito pelos cantos e deixou o ataque com um vazio no meio. Assim, a Espanha tocava, tocava, tocava, mas não finalizava, talvez confiando demais que o gol acabaria surgindo naturalmente.

Diante de uma defesa disposta a se entregar em campo e concentrada os 90 minutos (mais acréscimos), foi um erro fatal. O 0 a 0 ficou no placar por mais tempo que o necessário. Em um contra-ataque cheio de pequenas casualidades (o modo como a bola dividida entre Derdiyok e Casillas espirrou em Piqué, se enroscou na perna de Derdiyok, parou em Piqué e se ofereceu a Gelson Fernandes é incrível), os suíços abriram o marcador.

Aí, a Espanha caiu na mesma armadilha da partida contra os Estados Unidos na Copa das Confederações. Não esperava sofrer o gol, e não soube o que fazer depois que isso ocorreu. Houve uma boa pressão, oportunidades interessantes foram criadas, mas faltou tranqüilidade na finalização.

No final, dá para dizer que a Espanha jogou bem, pois foi fiel às suas características e jogou futebol suficiente para vencer. Mas as poucas coisas que ficaram faltando – mais força na finalização, falta de jogada pelas laterais e uma defesa pouco preparada para segurar um contra-ataque – foram determinantes para a derrota. O time de Del Bosque não deixou de ser um dos favoritos ao título. Mas voltou para a concentração com uma dor de cabeça, uma lição de casa para resolver e a consciência que expôs algumas fragilidades para todos os concorrentes explorarem.

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Equipe Trivela

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