Espanha

Balanço da temporada 2009/10

Sejamos honestos, foi um Campeonato Espanhol chato. Barcelona e Real Madrid dispararam na frente – muito mais do que o esperado – e monopolizaram as atenções. Além disso, uma quantidade perigosamente grande de clubes apresentou times tecnicamente abaixo da crítica. E os médios ou meio-grandes demoraram para engrenar.

De qualquer modo, a temporada teve seus atrativos. Por exemplo, o duelo dos melhores jogadores do mundo nos últimos três anos, a superação de recordes históricos de pontos pelos dois líderes a corrida do surpreendente Mallorca e a aparição de uma nova versão do Eurogeta. Além de uma briga acirradíssima contra o rebaixamento.

Veja abaixo o que de melhor e pior cada time apresentou na temporada.

Barcelona (campeão)

Técnico: Josep Guardiola
Competição europeia: Liga dos Campeões (caiu nas semifinais)
Copa do Rei: caiu nas oitavas de final
Destaque: Lionel Messi (atacante)
Artilheiro: Lionel Messi (34 gols)
Nota da temporada: 9

Ser campeão com apenas uma derrota, a melhor campanha de todos os tempos e 100% de aproveitamento contra o maior rival deveria ser temporada nota 10. Mas, considerando que em 2008/09 o Barça sobrou no Espanhol e ainda venceu a Copa do Rei e a Liga dos Campeões, fica no 9. Até porque merece perder ponto por cair na tentação de fazer uma contratação extravagante só para dar satisfação à torcida. No caso, comprar Ibrahimovic por Eto’o e mais € 40 milhões. O sueco não repetiu o desempenho do camaronês e, apesar de ser o vice-artilheiro do time na temporada, decepcionou. De resto, só elogios. Messi teve um ano ainda mais brilhante que seu normal, o estilo de jogo ficou cada vez mais consolidado e a defesa subiu um degrau com a chegada de Piqué. Mesmo com o título da LC ficando com a Internazionale, o entendimento é que o Barcelona ainda é a melhor equipe do mundo.

Real Madrid (vice-campeão)

Técnico: Manuel Pellegrini
Competição europeia: Liga dos Campeões (caiu nas oitavas de final)
Copa do Rei: caiu na primeira fase
Destaque: Cristiano Ronaldo (meia-atacante)
Artilheiro: Gonzalo Higuaín (27 gols)
Nota da temporada: 7,5

Em teoria, não há tanto o que reclamar da temporada. O Real fez a segunda melhor campanha da história da liga (perde apenas para o Barcelona deste ano) e foi eliminado na Liga dos Campeões na mesma fase em que caiu nas últimas cinco edições. No entanto, quem gastou mais de € 100 milhões para ter Kaká e Cristiano Ronaldo e quis se colocar como maior show da Terra, o desempenho foi frustrante. Prevaleceu um futebol mais aguerrido do que espetacular, com muitas vitórias pouco convincentes ou arrancadas a fórceps. A eliminação para o fragilíssimo Alcorcón na Copa do Rei ajudou a completar o cenário melancólico em Chamartín. Manuel Pellegrini passou os últimos 8 meses sabendo que sua cabeça estava a prêmio e a diretoria se achou obrigada a contratar um nome forte como José Mourinho para contentar a sede da torcida. Poderia ter sido melhor.

Valencia (3º colocado)

Técnico: Unai Emery
Competição europeia: Liga Europa (caiu nas quartas de final)
Copa do Rei: caiu nas oitavas de final
Destaque: David Silva (meia)
Artilheiro: David Villa (21 gols)
Nota da temporada: 7,5

Apesar da terceira posição, a temporada foi apagada. Ou melhor, “sem sal”. A campanha foi decente e em nenhum momento a classificação para a Liga dos Campeões pareceu seriamente ameaçada. David Villa, David Silva, Pablo Hernández e Mata formaram um quarteto ofensivo dos mais insinuantes e César foi uma segurança no gol. Mas não dá para ignorar o fato de o time terminar 25 pontos atrás do segundo colocado. Tendo o topo como parâmetro, faltou competitividade aos valencianistas. Considerando a fraqueza das equipes pequenas, dava para, ao menos, ficar uns 10 ou 15 pontos atrás da ponta. De qualquer modo, a prioridade no Mestalla é faturar, e a classificação à LC, junto com a venda de Villa, será fundamental para o clube melhorar sua situação financeira e terminar a construção do novo estádio.

Sevilla (4º colocado)

Técnicos: Manolo Jiménez e Antonio Álvarez
Competição europeia: Liga dos Campeões (caiu nas oitavas de final)
Copa do Rei: campeão
Destaque: Jesús Navas (meia)
Artilheiro: Luís Fabiano (15 gols)
Nota da temporada: 6,5

Claramente a aposta do Sevilla foi a Liga dos Campeões. O objetivo era fazer uma campanha melhor que há três temporadas, quando parou nas oitavas de final, eliminado pelo Fenerbahçe em casa. Não deu certo. O time caiu na mesma fase, novamente para uma equipe acessível (o CSKA Moscou). Os sevillistas ficaram sem energia para o Campeonato Espanhol e por pouco não perderam a vaga à LC 2010/11. Jesús Navas foi o grande nome, mas figuras importantes como Luís Fabiano, Kanouté e Capel ficaram abaixo das temporadas anteriores. Pelo menos, veio o título da Copa do Rei para contentar a torcida.

Mallorca (5º colocado)

Técnico: Gregório Manzano
Competição europeia: não participou de nenhuma
Copa do Rei: caiu nas quartas de final
Destaque: Borja Valero (meia)
Artilheiro: Aritz Aduriz (12 gols)
Nota da temporada: 8,5

A grande surpresa da temporada. Com um desempenho fantástico em casa (100% no primeiro turno, e 80,7% no total), os baleares se mantiveram o campeonato todo entre os seis primeiros e quase conseguiram um improvável retorno à LC. Como líder e armador da equipe, Borja Valero foi o destaque da equipe, mas o atacante Aduriz, o instável goleiro Anouate e o zagueiro Nunes. Faltou fôlego na reta final, mas não se pode cobrar isso de uma equipe que foi montada para ficar no meio da tabela.

Getafe (6º colocado)

Técnico: Míchel
Competição europeia: não participou de nenhuma
Copa do Rei: caiu nas semifinais
Destaque: Manu del Moral (meia)
Artilheiro: Roberto Soldado (16 gols)
Nota da temporada: 8

Sorrateiro e discreto, o Getafe conquistou uma vaga à próxima Liga Europa sem que muita gente se desse conta. Míchel (ex-meia do Real Madrid e da seleção espanhola) montou uma equipe que tem consciência de suas limitações e trabalhou bem com isso. Manu del Moral e Soldado se aproveitaram de muitos contra-ataques para se destacarem. Na defesa, o trio Rafa, Cata Díaz e Mané merece menção, ainda que tenham abusado um pouco da violência em alguns momentos.

Villarreal (7º colocado)

Técnicos: Ernesto Valverde e Juan Carlos Garrido
Competição europeia: Liga Europa (caiu na segunda fase)
Copa do Rei: caiu nas oitavas de final
Destaque: Diego López (goleiro)
Artilheiro: Nilmar (11 gols)
Nota da temporada: 6

Se fosse considerado o desempenho entre a 8ª e a 38ª rodada, o Villarreal teria se classificado para a Liga dos Campeões. Apresentou um time leve e que, depois de um tempo de adaptação, contou com uma interessante dupla formada por Rossi e Nilmar. Os pilares do meio-campo – Cazorla e Marcos Senna – ficaram aquém do que vinham fazendo, sobretudo por problemas físicos. Mas o grande problema dos castellonenses foi a demora para engrenar sob o comando de Ernesto Valverde. Na sétima rodada, o Submarino Amarillo estava em uma impensável última posição. Em um campeonato equilibrado, jogar sete rodadas pela janela é um erro irreversível.

Athletic Bilbao (8º colocado)

Técnico: Joaquín Caparrós
Competição europeia: Liga Europa (caiu na segunda fase)
Copa do Rei: caiu na primeira fase
Destaque: Javi Martínez (meia)
Artilheiro: Fernando Llorente (14 gols)
Nota da temporada: 7

Joaquín Caparrós merece crédito. Ele entendeu a filosofia do Athletic Bilbao e sabe como trabalhar com ela. Reforçou o espaço de Amorebieta e Susaeta e contou com a boa temporada de Javi Martínez e Iraizoz. Llorente continuou consistente no ataque, o que é fundamental para uma equipe que não prima por um grande setor de criação. Faltou talento para entrar efetivamente na briga pela Liga dos Campeões ou da Liga Europa, mas há sinais de evolução no País Basco.

Atlético de Madrid (9º colocado)

Técnicos: Abel Resino e Quique Sánchez Flores
Competição europeia: Liga dos Campeões (caiu na fase de grupos) e Liga Europa (campeão)
Copa do Rei: vice-campeão
Destaque: Diego Forlán (atacante)
Artilheiro: Diego Forlán (18 gols)
Nota da temporada: 7,5

A campanha foi parecida com a do Villarreal: início tenebroso, eralção a partir da metade do primeiro turno. A diferença é que os colchoneros, na segunda metade da temporada, perceberam que era mais interessante apostar na Copa do Rei e na Liga Europa do que investir na recuperação no Campeonato Espanhol. Partidas excelentes como a vitória sobre o Barcelona (a única derrota dos campeões) se alternaram com desempenho terrível como as duas derrotas para o Málaga. A boa note fica pelo título da Liga Europa, que acabou com um jejum de 14 anos sem título no Vicente Calderón.

Deportivo de La Coruña (10º colocado)

Técnico: Miguel Ángel Lotina
Competição europeia: não disputou nenhuma
Copa do Rei: caiu nas quartas de final
Destaque: Filipe Luís (defensor)
Artilheiro: Riki (8 gols)
Nota da temporada: 5,5

Um time que tem o segundo pior ataque do campeonato precisa contar com a defesa para se salvar. A trajetória do Deportivo deixou isso bastante evidente. No primeiro turno, a defesa foi uma das menos vazadas do campeonato, mascarando a baixa produtividade ofensiva. Quando os adversários começaram a fazer gols nos galegos, o time despencou e acabou no meio da tabela. A saída de Filipe Luís tem relação direta com isso, mas o estilo de jogo do time ficou viciado e atacantes como Mista, Bodipo e Adrián decepcionaram.

Espanyol (11º colocado)

Técnico: Mauricio Pochettino
Competição europeia: não participou de nenhuma
Copa do Rei: caiu na primeira fase
Destaque: Carlos Kameni (goleiro)
Artilheiro: Osvaldo (7 gols)
Nota da temporada: 5,5

Um cenário parecido com o do Deportivo. O ataque foi tenebroso, o pior do campeonato. Mas a defesa funcionou e ajudou o segundo clube de Barcelona a ficar longe do rebaixamento. Verdú foi a principal figura do meio para a frente, mas a queda de rendimento de ícones como Iván de la Peña e Tamudo (esse último teve problemas com Pochettino e já anunciou a saída, mesmo sendo reconhecido como um dos maiores jogadores da história do clube) ainda não foi contornada. Ao menos, a torcida conta com um novo estádio, que deu impulso aos resultados do time em sua casa.

Osasuna (12º colocado)

Técnico: José Antonio Camacho
Competição europeia: não participou de nenhuma
Copa do Rei: caiu nas quartas de final
Destaque: Azpilicueta (defensor)
Artilheiro: Walter Pandiani (11 gols)
Nota da temporada: 5

Com Ricardo, Miguel Flaño, Azpilicueta, Monreal e Sergio, o Osasuna teve um setor defensivo bastante confiável. Funciona bem para um clube de recursos limitados que aproveita um pouco o gosto da torcida basca por um futebol mais aguerrido e o estilo de trabalho do técnico Camacho. Até porque, tecnicamente, o Osasuna anda devendo. Com Camuñas, Juanfran e Puñal, era possível ter um desempenho ofensivo melhor (foi o quarto pior ataque).

Almería (13º colocado)

Técnico: Hugo Sánchez e Juan Manuel Lillo
Competição europeia: não participou de nenhuma
Copa do Rei: caiu na primeira fase
Destaque: Diego (goleiro)
Artilheiro: Kalu Uche (10 gols)
Nota da temporada: 5,5

Mais um ano que o Almería sobrevive na elite sem tantas dificuldades, um feito considerável para quem investe pouco em jogadores de nome e nem conta com um estádio tão intimidador aos visitantes. A arma dos andaluzes é um futebol relativamente ousado, com até três atacantes – Uche, Crusat e Piatti – para compensar a defesa pouco confiável. Já começa a ficar famoso na Espanha pela capacidade de sobreviver com pouco.

Zaragoza (14º colocado)

Técnicos: Marcelino García Toral e José Aurélio Gay
Competição europeia: não participou de nenhuma
Copa do Rei: caiu na primeira fase
Destaque: Humberto Suazo (atacante)
Artilheiro: Adrián Colunga (7 gols)
Nota da temporada: 4

Começou a temporada com uma estrutura pesada, custosa, cheia de jogadores de alguma projeção e responsabilidade de disputar a metade de cima da tabela. Não suportou o peso dela e rondou a zona de rebaixamento todo o primeiro turno. Quando José Aurélio Gay assumiu e deu espaço a mais garotos – tendo Ponzio e Edmílson como pontos de experiência –, os maños cresceram. Passaram a praticar um futebol mais veloz e aguerrido, compatível com a disputa das últimas posições.

Sporting de Gijón (15º colocado)

Técnico: Manolo Preciado
Competição europeia: não participou de nenhuma
Copa do Rei: caiu na primeira fase
Destaque: Miguel de las Cuevas (meia)
Artilheiro: Diego Castro (11 gols)
Nota da temporada: 5

Outro clube que tem conseguido tirar muito de pouco. De las Cuevas foi a revelação em sua primeira temporada completa na primeira divisão, mas a equipe esteve longe de ser espetacular. Teve no experiente goleiro Juan Pablo uma figura importante e fez em casa os pontos que precisou contra equipes mais fracas. Beneficou-se da fragilidade geral dos times pequenos nesta temporada.

Racing de Santander (16º colocado)

Técnicos: Juan Carlos Mandiá e Miguel Ángel Portugal
Competição europeia: não participou de nenhuma
Copa do Rei: caiu nas semifinais
Destaque: Sergio Canales (meia)
Artilheiro: Mohammed Tchité (11 gols)
Nota da temporada: 4,5

Uma das grandes armas do Racing de Santander para sobreviver na primeira divisão foi usar as (acanhadas) dimensões do estádio El Sardinero. Pois, nesta temporada, o Racing foi a única equipe a terminar com melhor campanha como visitante do que como anfitrião. Sinal de como tem faltado consistência à equipe. Há bons sinais, como o histórico Munitis seguindo entre os principais assistentes da liga e o talento explosivo de Canales (cotado para ir ao Real Madrid). Mas a falta de um trabalho mais racional minou a campanha de um time que caiu tanto no segundo turno que quase foi rebaixado.

Málaga (17º colocado)

Técnico: Juan Ramón López Muñiz
Competição europeia: não participou de nenhuma
Copa do Rei: caiu nas oitavas de final
Destaque: Munúa (goleiro)
Artilheiro: Duda (8 gols)
Nota da temporada: 4

Uma temporada decepcionante para quem terminou a temporada pasasda como revelação do campeonato. O Málaga não se encontrou, sobretudo porque apostou em jogadores que não vingaram, casos de Benachour, Luque e Caicedo. O goleiro Munúa e o meia Duda foram as gratas surpresas de uma equipe que esteve muito perto do rebaixamento – e talvez até o merecesse.

Valladolid (18º colocado)

Técnicos: José Luis Mendilibar, Onésimo Sánchez e Javier Clemente
Competição europeia: não participou de nenhuma
Copa do Rei: caiu na primeira fase
Destaque: Nauzet (meia)
Artilheiro: Diego Costa (8 gols)
Nota da temporada: 3

A equipe tinha potencial para fazer uma campanha segura, no meio da tabela. Havia uma reserva razoável de talentos e uma linha de trabalho que se seguia desde que o clube retornou à primeira divisão. Mas tudo ruiu a partir das últimas rodadas do primeiro turno, quando a equipe caiu para a zona de rebaiaxmento. Uma série de crises se seguiu e nem a contratação de um técnico experiente e respeitado, como Javier Clemente, ajudou a dar novo impulso à campanha blanquivioleta. Aliás, o treinador ficou como decepção da temporada, pela falta de resultados e verborragia demonstrada quando a situação ficou mais aguda.

Tenerife (19º colocado)

Técnico: José Luis Oltra
Competição europeia: não participou de nenhuma
Copa do Rei: caiu na primeira fase
Destaque: Alejandro Alfaro (meia)
Artilheiro: Nino (14 gols)
Nota da temporada: 3,5

O Tenerife não foi completamente ruim. Apresentou bom futebol em alguns momentos e teve uma campanha em casa acima da média para equipes que lutam contra o rebaixamento. No entanto, é inadmissível um time conquistar apenas uma vitória como visitante, e apenas na 32ª rodada. Para piorar, a defesa deu pane em diversos jogos, fragilizando a confiança da equipe em algumas goleadas sofridas. Desse modo, foi difícil conseguir uma sequência mínima de bons resultados, o suficiente para propiciar aos tinerfeños um salto na classificação.

Xerez (20º colocado)

Técnicos: José Ángel Ziganda e Néstor Gorosito
Competição europeia: não participou de nenhuma
Copa do Rei: caiu na primeira fase
Destaque: Renan (goleiro)
Artilheiro: Mario Bermejo (12 gols)
Nota da temporada: 4

Quando os cartolas pararam de atrapalhar, o Xerez até que não fez feio. No primeiro turno, com dirigentes promovendo vaivém no comando do futebol com a temporada em andamento, os andaluzes tiveram desempenho vexatório. Apenas oito pontos. Com o rebaixamento praticamente definido – e a falta de responsabilidade que isso traz –, Gorosito reagrupou o elenco e comandou uma reação notável. A equipe de Jerez de la Frontera brigou pela permanência até a última rodada e saiu de cabeça erguida. Para um clube tão pequeno e despretensioso, não foi tão ruim assim.

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Equipe Trivela

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