Assistencialismo

A Espanha vive sua pior crise econômica nas últimas décadas. As contas públicas não fecham e especula-se que, depois de a bomba portuguesa explodir, a espanhola seria a próxima. Um cenário que se desenha há dois anos. Nesse mesmo período, o Real Madrid fez duas das três contratações mais caras da história do futebol. O Barcelona foi mais discreto, mas também gastou suas dezenas de milhões de euros. Durante anos, o futebol espanhol foi uma bolha, um setor com proteção velada do poder público para estar sempre forte, rico e capaz de contentar os torcedores. E a possibilidade de isso acabar gera um conflito entre clubes e governo.
A LFP (Liga de Fútbol Profesional) ameaça greve no fim de semana de 2 e 3 de abril. Tudo porque ela não aceita a determinação governamental que o contrato dos direitos de transmissão do Campeonato Espanhol entre 2012/13 e 2014/15 (negociações já em andamento) prevejam que, no mínimo, um jogo por rodada seja obrigatoriamente transmitido em TV aberta. A argumentação é que a TV fechada oferece mais dinheiro (cerca de € 200 milhões) e, sem tal limitação, os clubes faturariam alguns milhões a mais por temporada.
De acordo com os dirigentes, tal diferença seria fundamental para os clubes quitarem suas dívidas com o governo (somados, dá algo em torno de € 694 milhões) ou investir em reforços para ter melhor desempenho em competições internacionais. Sevilla, Villarreal, Espanyol, Real Sociedad, Athletic Bilbao e Zaragoza não concordaram com a LFP e dizem que querem jogar. Mas, independentemente da briga interna na liga, a questão é maior, e envolve o modo como o estado espanhol financia indiretamente o futebol.
Virou prática comum no país dar uma ajuda aos clubes. Não é com financiamento direto dos cofres públicos. Há formas veladas. A mais comum era fazer vista grossa para as tais dívidas tributárias. É também possível mudar a lei de zoneamento da região onde um clube tem imóvel, valorizando o bairro e permitindo maior arrecadação com a venda do terreno (isso foi feito com Real Madrid e Valencia). Outra possibilidade é construir um estádio e dar ao clube (ocorrerá com o Atlético de Madrid). Ou mesmo usar empresas ligadas ao governo ou que têm interesse público para ajudar a bancar um clube (Barcelona).
Mas é época de crise. A ideia de que os clubes não poderão pagar suas dívidas é risível, pois não é o dinheiro a mais da TV fechada que vai viabilizar o inviável. Tanto não é assim que a LFP também apela para outras fontes de receita, como pedir mais para ceder suas marcas às loterias e casas de apostas, cobrar direitos de transmissão de rádio e vender direitos de transmissão dos melhores momentos da rodada.
É fugir do óbvio. O grande gargalo econômico do futebol espanhol claramente são os direitos de TV. Mas não se eles passam em canais abertos ou fechados. O problema é a distribuição dos valores, que incentiva a desigualdade das equipes (clique aqui e veja). É aí que o futebol espanhol pode se tornar sustentável, mesmo para os times pequenos. No entanto, fazer isso seria brigar com Real Madrid e Barcelona, justamente os clubes que dão ao mundo a sensação de que a Espanha está bem.
No final das contas, a LFP está fazendo uma chantagem com o governo, que, dessa vez, parece cansado de ceder e resolveu pensar no interesse público. Para o torcedor (que também é um cidadão que sofre com a crise econômica), poder ver futebol sem ter que pagar uma taxa extra é mais importante que seu time ter alguns milhões de euros a mais.



