Anular para conquistar

A vitória do Sporting de Gijón sobre o Real Madrid decidiu o Campeonato Espanhol há duas semanas. Ainda que, na matemática e no discurso de Jorge Valdano, os madridistas tenham chances, até os filhos de José Mourinho sabem que o Barcelona já é campeão. Por isso, não havia motivos para merengues e blaugranas encararem o duelo deste sábado como decisivo. Deveria ser – e foi – um prelúdio para os outros três encontros dos próximos 18 dias. Esses sim, decisivos.
No primeiro confronto direto da temporada, em novembro, o Real Madrid foi surpreendido pela falta de cerimônia do Barcelona. Os catalães apertaram desde os minutos iniciais, não deixaram o Real assentar a marcação até o placar já estar em 2 a 0. Mourinho não aceitaria que seu time fosse alijado da partida novamente. Ao menos, não de forma tão contundente. Por isso, a prioridade deste sábado foi parar o ataque barcelonista.
Os merengues deixaram de lado os habituais 4-2-3-1 ou 4-4-2 para atuar em um 4-3-2-1, com Benzema de atacante único e Pepe sendo a figura mais recuada de um trio de volantes. O meio-campo ficou mais congestionado, sobretudo na linha imediatamente à frente dos zagueiros. O lado negativo é que o Real teria menos armas para buscar o (contra) ataque, mesmo jogando em casa e tendo, supostamente, a obrigação de vencer para esquentar a briga pelo título.
O plano foi bem sucedido no primeiro tempo. A posse de bola foi quase toda do Barcelona, chegando a ficar acima de 80% nos 25 minutos iniciais. No entanto, os catalães realmente tinham dificuldades de impor seus passes curtos para infiltrar na defesa adversária. A despeito da superioridade territorial, houve poucas chances de gol. A principal foi um lançamento para Messi que, diante de Casillas, tentou um gol por cobertura. Também vale mencionar uma jogada em que Villa foi derrubado por Casillas (o atacante quis ser derrubado, mas o goleiro atendeu seu desejo) em pênalti não marcado.
No entanto, o Real também sofreu por sua estratégia. O time não tinha saída de bola, mesmo que fosse em contra-ataque. Isso ficou evidente no final do primeiro tempo. Pepe teve espaço e avançou livre. Di María e Cristiano Ronaldo o acompanharam. O volante-zagueiro tocou para Cristiano Ronaldo, que tentou uma tabela e acabou desarmado. Por mais que Pepe tenha apoiado bem e acertado o passe, ele não tem as características de um armador. Faltou velocidade, o tempo do passe não foi o mais feliz e o posicionamento para receber a bola de volta foi equivocado. Cristiano Ronaldo já estava marcado e os madridistas desperdiçaram uma boa chance sem sequer finalizarem.
A lógica seria a mesma no segundo tempo, mas Albiol tratou de mudar tudo aos 7 minutos. Fez bobagem na defesa, perdeu a jogada para Villa e se viu obrigado a derrubar o atacante blaugrana. Foi corretamente expulso e o Barcelona abriu o marcador.
A partir daí, o Real mudou bastante sua configuração tática. Primeiro, Özil entrou no lugar de Benzema, Pepe recuou para a zaga e o time ficou em um 4-4-1, com Cristiano Ronaldo de atacante. Com dois volantes (Khedira e Xabi Alonso), o meio-campo perdeu poder de marcação e o Barcelona dominou as ações. Até poderia tentar o segundo gol, mas faltou ser mais incisivo. Bastou dez minutos para Mourinho remontar a equipe, com Adebayor e Arbeloa nos lugares de Xabi Alonso e Di María. Pepe voltou ao meio-campo e a marcação reequilibrou (o que mostra o importante papel que o luso-alagoano teve na partida, com boa atuação, mesmo que algumas vezes tenha sido exageradamente agressivo na maracação).
Enquanto isso, o Barcelona manteve seu plano de sempre. Entrou com o 4-3-3 tradicional, com Puyol retornando após meses contundido. Isso deu mais força ao meio-campo, pois Sergi Busquets deixou de ser improvisado na zaga. Mas o importante é que Guardiola manteve sua equipe jogando o seu jogo, sem tentar se adaptar ao adversário. Sinal de confiança de quem havia vencido os últimos cinco clássicos.
Nos 20 minutos finais, o Barcelona relaxou e o Real Madrid, com uma grande dose de coração, foi buscar o empate. O pênalti de Daniel Alves em Marcelo foi bastante duvidoso, mas é fato que os madridistas mereceram o empate pela disposição em continuar buscando algo na partida.
No final das contas, o Real Madrid já descobriu como parar o Barcelona, pelo menos por 45 minutos. Mas ainda precisa elaborar uma estratégia para tomar a iniciativa quando necessário. Pelo menos, o empate no final com um jogador a menos deu a confiança que o time estava precisando para buscar a segunda parte de sua tarefa. Um saldo positivo para um jogo que, sabidamente, serviria para estudos antes das decisões das próximas semanas.



