Ainda falta algo

O espanhol é um povo orgulhoso e passional. Não demonstra suas emoções de modo introspectivo, como o vizinho português, ou dramático, como o também mediterrâneo italiano. O espanhol é mais colérico, seja para defender sua terra, seja para se defender. Entrar em uma Copa do Mundo com status de favorita e cair na estreia para uma mediana Suíça não é uma receita de como deixar a seleção espanhola tranquila. Esse orgulho ferido se transformaria em futebol intenso e impiedoso. Coitada de Honduras.
O script para a segunda partida da Fúria era esse. Uma grande apresentação espanhola, eventualmente com goleada chamativa para provar que o escorregão na primeira partida foi acidente e forçar os descrentes a acreditarem que a atual campeã europeia merece estar entre as favoritas do Mundial. Nada disso aconteceu, o que faz a pulga atrás da orelha do cético coçar um pouco mais forte.
Vicente del Bosque escalou a Espanha de modo um pouco diferente do usual. Para acomodar Fernando Torres, já em melhores condições físicas, decidiu tirar um dos meias. No caso, o baleado Iniesta. Além disso, sacou David Silva, apagado contra a Suíça, para promover Jesús Navas, destaque da estreia. Os dois volantes mais de marcação, Sergi Busquets e Xabi Alonso, foram mantidos e a equipe ficou em um 4-4-2 bastante convencional, algo raro para uma equipe que teve seus grandes momentos com apenas um meia no combate e vários na criação (como no 4-1-4-1 ou no 4-1-3-2).
A experiência não foi das melhores. A Espanha continuou forte, dominou a partida e construiu a vitória com relativa facilidade. Villa foi o grande nome, com dois belos gols e a clara determinação de chamar a responsabilidade. Não tivesse o próprio Villa desperdiçado um pênalti, poder-se-ia até chamar o jogo de goleada.
Ainda assim, os espanhóis deixaram um pouco a desejar. Do ponto de vista tático, a formação não favoreceu o jogo de toque de bola que a Espanha tanto cultiva. Navas tem a tendência a cair muito pela ponta direita. Foi importante para abrir espaço contra a Suíça e não deixou de ser interessante opção contra os hondurenhos, mas é uma estratégia que inibe a troca de passes rápidos pelo meio. Com Torres de centroavante, Villa muitas vezes jogou aberto pela esquerda, quase como um ponta. Sem Iniesta, Silva ou Fàbregas, Xavi acabou sendo o único meia de muito toque de bola.
Desse modo, os homens de frente acabaram se afastando demais e o time caiu em dois “pecados”: perdeu eficiência na criação, sobretudo nas assistências, e algumas vezes se viu obrigado a fazer jogadas menos inspiradas que o normal. Por exemplo, cruzamentos na área. Claro, é um futebol que funciona, mas não foi com base nisso que a Espanha encorpou internacionalmente e pretende conquistar a Copa.
Outro problema não foi tático, mas de atitude. Como ocorrera na estreia, a Espanha voltou a apresentar um futebol prolixo. As jogadas ofensivas têm muito preâmbulo, mas pouca ação. O estilo de muitos passes é vistoso e pode ser competitivo, mas os espanhóis andam exagerando. Muitas oportunidades de finalização eram deixadas de lado para que fosse dado mais um passe. Como os homens de frente já não estavam tão compactados, essas tabelas perderam parte da rapidez que desnorteava o adversário. O arremate surgia no final das contas, mas em condições menos favoráveis.
Para os torcedores, a vitória por dois gols de diferença serve, ao menos, como garantia que qualquer triunfo contra o Chile garante a classificação. Mas a Espanha pode mais. Até Fernando Torres declarou, após a partida, que esperava um placar mais elástico. Era um pensamento viável. A Furia queria golear para mostrar que é favorita. Acabou mostrando que é forte, mas precisa inventar menos. E escolher melhor o momento de chutar a gol.



