Pode parecer contraditório, mas viver o momento ideal para alcançar grandes conquistas não é assim tão fundamental para quem pensa em pôr as mãos nas orelhas de abano da taça da Champions League. Que o diga o Chelsea, que, de tanto perseguir tal glória, colheu os frutos justamente quando tinha um time envelhecido, de imagem desgastada e comandado por um técnico interino (OK, todos o são para Abramovich, mas Di Matteo o era ainda mais). Enquanto todos ansiavam por uma final espanhola e elogiavam o crescimento dos bávaros, os “senadores” do clube londrino, em seu último espasmo, colocaram a Europa no bolso.Uma das grandes graças do futebol (senão a maior), está aí: o melhor nem sempre vence. Claro que se o pior continuar vencendo sempre, alguma coisa está errada. Não é o caso de um torneio com as fases mais agudas disputadas no formato de mata-mata. Você pode até não gostar da estratégia escolhida pelos blues para eliminarem o nas semifinais e colocarem água no chopp do Bayern na decisão (eu, por exemplo, não sou muito chegado numa retranca), mas tem de entender que optar por se defender e buscar a famosa bola vadia é uma arma legítima para os que estão em desvantagem técnica, física, ou mesmo em termos de tradição.

Quando um time histórico como o Barcelona de Guardiola vence, podemos sim dizer que o futebol venceu. Mas quando o oponente limitado triunfa, o futebol não perde. Longe disso. O futebol acaba vencendo também, por linhas tortas. Porque um resultado assim deixa claro que a entrega e a sorte também podem criar campeões. De quebra, ainda valoriza mais o timaço que foi lá e encantou, mas também venceu. Afinal, ser campeão moral é bonito nos livros de história, mas não apaga a desilusão momentânea da derrota, nem o trauma que ela pode infligir por toda a eternidade.

Felizmente, na edição de 2012-2013, não se tem para onde fugir: o campeão será um daqueles times que fazem jogos agradáveis e que só geram narizes torcidos por questões de rivalidade e implicância. Barcelona, Bayern, Borussia e Real, cada um a seu modo, mantêm muito viva a noção de que o futebol pode ser um grande espetáculo, sem deixar de envolver grandes paixões.

Agora vai?
Jogadores do Bayern comemoram o título em Frankfurt (AP Photo/Martin Meissner)
Jogadores do Bayern comemoram o título em Frankfurt (AP Photo/Martin Meissner)
Entre os quatro sobreviventes, há sim alguém que está no ponto para ser campeão. O Bayern, escaldado por duas derrotas nas últimas três finais de Champions (uma delas ainda mais doída, por ter sido jogada dentro de seus domínios), não se deixou abater. Fez como manda a cartilha de um bom competidor: aprendeu com a derrota, usando-a como incentivo para trabalhar mais e mais. Manteve as principais peças, reforçou o seu elenco e passeou no terreno doméstico, sendo campeão alemão com algumas rodadas de antecedência. No confronto direto com o Dortmund, voltou a ser mais feliz, inclusive eliminando-o da Copa da Alemanha.Em sua trajetória europeia, desatenção frente o Arsenal à parte, o Bayern avançou com tranquilidade, com direito a vitórias categóricas sobre a respeitável Juventus. Celebrado pela boa gestão (a princípio não manchada pelas denúncias de sonegação fiscal de seu presidente, Uli Hoeness), o clube se programou para atingir esse nível, não chegou lá carregado apenas pelo peso de sua camisa.

Na próxima temporada, tudo ainda pode melhorar, já que a equipe contará com o treinador mais disputado do mundo e a maior revelação alemã dos últimos anos, uma negociação que também servirá para desestabilizar o único time que o ameaça dentro das fronteiras alemãs. Mas Guardiola e Götze podem desembarcar em Munique com toneladas de pressão nos ombros. Afinal, Jupp Heynckes busca se despedir do clube com a conquista da tríplice coroa. De uma forma ou de outra, o clima para a próxima temporada será de esperança por uma nova dinastia bávara no futebol europeu. Resta saber se ela existirá. E se já começará agora.

Ou vai, ou racha
Cristiano Ronaldo comemora mais um gol (AP Photo/Andres Kudacki)
Cristiano Ronaldo comemora mais um gol (AP Photo/Andres Kudacki)
Se o Bayern tem a equipe mais preparada do momento, na temporada passada eliminou aquela que parecia ocupar o mesmo posto. Em seu segundo ano de , Mourinho descobriu uma forma de travar o Barcelona, levando os merengues à conquista de La Liga. Por tabela, ensinaram o segredo para quem quisesse prestar atenção, o que possibilitou ao Chelsea que também emperrasse as engrenagens catalãs na Champions. Com o peso de quem já havia levado Porto e Inter ao topo do mesmo pódio, parecia que a espera pelo décimo título dos madrilenhos no torneio estava prestes a acabar, ainda que muitos ainda acreditassem em uma reviravolta blaugraná. Nem uma coisa, nem outra.Seis meses depois, a certeza já não era a mesma. O ambiente no plantel azedou fortemente, com direito a Casillas sendo mandado para o banco e Mourinho dando indícios de que poderia se mudar ao final da temporada. O Barcelona disparou no campeonato nacional, mas o Real seguiu adiante na Champions. Hoje, vive um momento muito melhor. Ainda demonstra alguns instantes de desequilíbrio, mas as diferenças internas parecem ter sido colocadas de lado, mesmo que temporariamente.

O clima é de fim de ciclo, já que a diretoria merengue dificilmente seguirá aturando o jeitão do treinador português em caso de novo fracasso. Da mesma forma, muitos acham que Mourinho aproveitaria a conquista de “La Decima” para sair por cima e voltar ao seu querido futebol inglês. O casamento não deve mesmo durar muito mais tempo. A dúvida aqui é se as fotos da cerimônia serão olhadas com carinho pelas duas partes, ou se a frustração fará com que sejam rasgadas e jogadas no lixo.

Ainda somos os mesmos?
O Barcelona conseguiu reverter uma boa vantagem do Milan no Camp Nou. Messi, decisivo, fez dois (Foto: FCBarcelona.com)
O Barcelona conseguiu reverter uma boa vantagem do no Camp Nou. Messi, decisivo, fez dois (Foto: FCBarcelona.com)
Até por uma questão de respeito por tudo que a equipe fez nos últimos anos, você lê e escuta todos os dias comentaristas, jogadores, técnicos e torcedores batendo na mesma tecla: o Barcelona é o melhor time do mundo. Reconhecimento merecido para um grupo que impôs o seu jeito de jogar a todos que lhe enfrentaram nas últimas temporadas. A prova é que, desde que Guardiola assumiu a equipe, o Barça nunca mais soube o que é ter menos posse de bola que os seus oponentes. A Liga Espanhola já foi reconquistada há meses, só a matemática se nega a ver isso. Ainda assim, o Barcelona não é mais aquele. Não em tempo integral, pelo menos.Na Champions, os blaugranás só fizeram uma grande partida. E que partida! Com um baile para cima do Milan, mostraram que nunca podem ser tidos como favas contadas. Em compensação, o Barcelona cansou de jogar mal durante a temporada. Manteve o seu tiki taka e o respeito quase subserviente dos seus rivais, mas dependeu demais de Messi e Iniesta para continuar se mantendo no topo. Nada de errado para qualquer equipe no mundo, mas um pouco desapontante para quem jogou por música por quatro anos consecutivos, sem deixar dúvida de que, mesmo quando derrotado, era ele o time a ser batido.

Ainda que o trabalho de Guardiola tenha tido continuidade, Tito Vilanova não montou um time tão letal quando o seu antecessor, de quem foi pupilo. Se a equipe já não é tão incisiva, a culpa não é só dele, já que jogadores como Xavi, Daniel Alves, Villa, Pedro e Busquets caíram de produção. Já diziam os antigos que chegar ao topo é complicado, mas se manter por lá é muito mais. A reta final do Barcelona na Champions League pode se tornar um novo capítulo de um time que marcou história. Ou deixar mais evidente na boca aquele gosto incontestável de fim de ciclo, que já vem desde o anúncio do ano sabático de seu ex-comandante. Convém nunca duvidar dessa equipe, no entanto. Pergunte ao Milan.

O fim da linha
Celebração merecida: o jovem time do Dortmund mostrou, de novo, muita força
Celebração merecida: o jovem time do Dortmund mostrou, de novo, muita força
Até a semana passada, eu ainda diria que um título do poderia ser considerado como uma conquista que veio antes do tempo, mas que já vinha sendo construída com carinho. O crescimento da equipe amarela começou com a conquista da Alemanha, continuou com o bicampeonato em um ano em que o Bayern bateu na trave em todos os fronts e persistiu com o bom desempenho na Champions League, provando que a equipe tirava enfim as suas fraldas e se colocava em condições de enfrentar de igual para igual qualquer grande clube do continente. O Real Madrid teve uma noção clara sobre isso na fase de grupos.Mas o golpe do anúncio da perda de Mario Götze é muito forte. Se a saída de Kagawa foi assimilada com rapidez, a dele será bem mais sentida. Até porque não deve ser a única. Lewandowski já foi especulado em outras potências europeias, como o e o próprio Bayern. Não deve faltar também gente de olho em Reus, Hummels, Gündogan, Piszczek… Sem falar que Jürgen Klopp tem de ser um nome desejado por qualquer clube que ambiciona um recomeço, com a montagem de um novo time, que seja ao mesmo tempo competitivo e jogue um futebol gostoso de se acompanhar.

Por mais que as finanças do clube estejam melhorando junto com o fortalecimento da equipe, será quase impossível para o Dortmund evitar um desmonte, ainda que dividido em várias parcelas. Será necessário redobrar a capacidade de observação de jovens valores em outras equipes, não só na Alemanha, como também em centros menos desenvolvidos. Não duvido que o Borussia se mantenha forte e continue crescendo, mas temo que não chegue às próximas edições da Champions com a mesma capacidade para encrencar os demais semifinalistas desta Champions, bem como os principais clubes ingleses. Vencer a atual edição da competição é plenamente possível, no entanto. E deve ser encarado como “a sua impossível chance”.