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A dica da Itália: quando o tiki-taka se torna chuveirinho

A Espanha se consagrou campeã do mundo e bicampeã europeia com um futebol muito técnico. O célebre “tiki-taka”, das trocas de passes intensas, por vezes entediantes, que acostumou a colocar grandes seleções na roda. Quando o desespero bate, porém, os toques de lado são esquecidos e chuveirinho se torna solução. Dominada pela a Itália, os espanhóis só se livraram da pressão quando mudaram completamente seu estilo de jogo. E, ainda assim, conseguiram a vaga na final apenas nos pênaltis.

O primeiro tempo contou com a postura tradicional da Espanha. Muita posse de bola, pouca incisividade. A Roja trocou 383 passes nos primeiros 45 minutos e só finalizou duas vezes. Uma objetividade praticamente nula, que também teve grandes méritos da Itália. Escaldado pela decisão da Euro 2012, Cesare Prandelli soube muito bem anular as forças dos adversários.

A Azzurra fechava muito bem os espaços no campo defensivo e explorava bastante as laterais em suas subidas ao ataque. Christian Maggio tinha bastante liberdade às costas de Jordi Alba e, não à toa, finalizou três vezes na primeira etapa. Já Andrea Pirlo deixava em apuros a defesa espanhola com seus cruzamentos, dando três passes para finalização de seus companheiros. Não fosse Iker Casillas, capaz de duas grandes defesas, a Itália iria ao intervalo em vantagem.

Uma Itália à espanhola e uma Espanha à inglesa

No segundo tempo, o cansaço da Itália começou a pesar. Prandelli mandou Riccardo Montolivo a campo e recuou Daniele De Rossi à defesa. Apoiando-se nas características dos jogadores, equipe passou a cadenciar mais o jogo, terminando a etapa com 61% de posse de bola e deu 50% de passes a mais que a Espanha – 267, contra 177 dos ibéricos.

A diferença nos números, óbvio, também foi possibilitada por uma verticalidade maior da Espanha. Jesus Navas entrou no lugar de David Silva e deu outra cara ao time, fazendo jogadas de linha de fundo e arriscando a gol. Dos seis chutes no alvo da Fúria, quatro saíram dos pés do andaluz. Da mesma forma, Juan Mata também deu grande contribuição na esquerda, especialmente por centrar mais a bola na área do que Pedro.

Marcado por Pirlo, Navas mudou o jogo para a Espanha (AP Photo/Eugene Hoshiko)
Marcado por Pirlo, Navas mudou o jogo para a Espanha (AP Photo/Eugene Hoshiko)

E a proposta de Del Bosque era clara a partir de então: se a troca de passes não funcionava ante os três zagueiros da Itália, a solução viria pelo alto. Depois de apenas três cruzamentos no primeiro tempo, a Roja levantou a bola 20 vezes, entre a etapa complementar e a prorrogação. Exausto, Fernando Torres deu lugar a Javi Martínez, zagueiro improvisado no comando de ataque – outro atacante alto no elenco, Roberto Soldado, está lesionado.

Depois do fim do tempo regulamentar, a Itália só teve mais uma esperança: um chute de Emanuele Giaccherini que explodiu na trave. Depois disso, a Azzurra preferiu concentrar suas forças na retranca, sem conseguir emendar um ataque. E a pressão espanhola foi ainda mais intensa. No tempo extra, o time teve 12 finalizações, uma a cada 12,3 passes curtos – comparativamente, “15 vezes mais objetiva” que no primeiro tempo, quando deu 191,5 passes a cada chute.

As penalidades e os recados ao Brasil

A trave salvou a espanada de Gianluigi Buffon em chute de Xavi e a decisão do finalista ficou mesmo para os pênaltis. Mesmo contra dois goleiros de primeiríssimo nível, impressionou a precisão e o sangue frio de ambas as equipes: foram 13 tiros até que Leonardo Bonucci isolasse a bola, dando a brecha para que Jesus Navas garantisse a passagem da Espanha ao Maracanã.

O cansaço dos 120 minutos de bola rolando promete pesar sobre os espanhóis, que já tiveram que enfrentar o calor de Fortaleza e ainda terão um dia a menos de descanso que o Brasil. E um bom caminho para a vitória já foi mostrado pela Itália: diminuição de espaços na defesa, agressividade na marcação, rapidez na saída de bola e jogadas pelas laterais. Maneiras de minar o tiki-taka espanhol e mostrar que a grande potência do futebol na atualidade não é tão temível assim.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.

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