Espanha

A culpa é do sistema

José María del Nido e Monchi Rodríguez eram questionados a todo momento. O presidente e o diretor esportivo do Sevilla insistiam na tese de que Manolo Jiménez seria efetivado como técnico do clube. Era outubro de 2007 e ninguém acreditava que a diretoria do bicampeão da Copa Uefa, campeão da Copa do Rei e quase campeão espanhol deixaria a equipe nas mãos de um novato. A resposta dada incontáveis vezes: “já vínhamos preparando Manolo para assumir na temporada seguinte e o importante é que nossa estrutura continua a mesma”.

Dois anos depois, Monchi e Del Nido podem estufar o peito, fazer cara de criança chata e falar “eu sabia, eu sabia”. O Sevilla foi o único clube espanhol a se classificar com uma rodada de antecipação na Liga dos Campeões, foi responsável pela única derrota de Real ou Barcelona para um time “pequeno” no Campeonato Espanhol e continua escoltando as duas superpotências. Tudo isso e Jiménez continua como treinador do time.

Não há do que reclamar. Ainda mais considerando o que ocorreu com Juande Ramos, o antecessor, nos últimos 25 meses. Durante sua passagem pelo clube, creditava-se o sucesso financeiro dos sevillistas à diretoria, mas as vitórias em campo ficavam na conta do técnico. Foi por isso que Juande deixou Nervión. O treinador recebeu uma proposta milionária do Tottenham (segunda a imprensa inglesa, tornou-se o técnico mais bem pago do mundo) e trocou as margens do rio Guadalquivir pela do Tamisa. Ficou um ano em White Hart Lane e foi demitido com os Spurs na zona de rebaixamento. Passou meio ano no Real Madrid, com altos e baixos, e ficou pouco tempo no CSKA Moscou. Está desempregado no momento.

Ou seja, Ramos não era um gênio. E o sistema de trabalho do Sevilla independe de quem comande a equipe (só para registrar, o início do projeto se deu com Joaquín Caparrós). Esse método já foi largamente falado nesta coluna. Para os de memória fraca, ou os recém-chegados, um resumo: inspirado no Lyon, o ex-goleiro Monchi Rodríguez montou uma estrutura baseada no desenvolvimento de jogadores, tanto em suas categorias de base como na descoberta de talentos que escaparam do olhar dos grandes da Europa. Assim, o clube andaluz consegue formar elencos competitivos a baixo custo. E, de tempos em tempos, a venda milionária de alguns desses jogadores – Reyes, Sergio Ramos, Júlio Baptista, Daniel Alves – permite a sustentação financeira dos nervioneses.

De maneira geral, esse projeto não difere tanto do adotado pelo Valencia. Então, por que as loas aos andaluzes, e não as valencianos também? É porque, nos detalhes, o trabalho dos sevillistas foi superior nos últimos anos. O auge dos valencianos foi no início da década, com duas finais de Liga dos Campeões e dois títulos espanhóis.

O enorme sucesso levou a diretoria a perder um pouco a noção do tamanho do clube e quis dar passos maiores que a perna. Investiu de modo exagerado e entrou em uma dívida difícil de resolver. Além disso, deixou a torcida e a imprensa acreditarem que o Valencia já era um rival à altura de Barcelona e Real (ainda que isso possa ocorrer uma temporada ou outra, a tendência em médio prazo é que blaugranas e merengues se imponham), criando um nível de cobrança gigantesco no Mestalla.

Com os gols de David Villa e talentos como Pablo Hernández, Mata e David Silva, o Valencia consegue se manter entre os melhores da Espanha. E, sejamos justos, está apenas dois pontos atrás do Sevilla. Mas, nos detalhes (novamente eles), os andaluzes parecem um pouco mais à frente. Enquanto os sevillistas se classificou na LC com uma rodada de antecipação, os valencianistas estão penando para passar de fase na Liga Europa. No confronto contra um grande, o Sevilla venceu em casa o Real Madrid com Kaká. O Valencia perdeu em casa do Real Madrid sem Cristiano Ronaldo e Kaká.

Por ter consciência de seu tamanho e saber da solidez de seu projeto, o Sevilla se mantém como terceira força do futebol espanhol na média dos últimos cinco anos. Resta saber se a diretoria continuará firme em suas convicções. E se saberá o que fazer quando for necessário dar um passo a mais.

Eles se importam

Na semana do Mundial de Clubes, é possível o torneio ser o assunto secundário da coluna? Claro, se for para bater mais uma vez na tecla de sempre: o quanto os clubes europeus se dedicam à competição. Um tema já esgotado, mas que vale ser repassado pelo modo como é ressuscitado todo início de dezembro.

Dizer que os europeus se dedicam ao Mundial com todas as forças e só fazem cara de desdém depois que perdem é demagogia. Em geral, os vencedores da Liga dos Campeões já se sentem os melhores do planeta e nenhum jogo isolado na Ásia vai mudar essa crença (ainda que ela possa ser mentirosa em alguns momentos). A volta olímpica mixuruca do Manchester United no ano passado mostra isso.

Tão errado quando cair na demagogia, porém, é radicalizar pelo outro lado: afirmar que os europeus não dão a mínima. Eles podem achar que a LC é o grande objetivo, mas a oportunidade de vencer o campeão da Libertadores é digna de atenção. Tanto que, quando estão atrás no marcador, os europeus normalmente se esforçam para virar o marcador.

Aí chegamos a outra questão: quase sempre se generaliza e se fala em “comportamento dos europeus”, como se isso fosse possível. A Europa é cheia de diversidade cultural e a mentalidade de clubes e torcedores não haveria de ser diferente. Clubes latinos, como espanhóis e italianos, tendem a dar muito mais importância ao Mundial do que, por exemplo, os ingleses.

Um parêntese: não é apenas questão de “arrogância britânica”. É uma reação natural de um país que sempre esteve separado geograficamente do resto do mundo e teve nesse isolamento sua principal arma para a sobrevivência por séculos. Não à toa, os britânicos relutam em adotar o euro, se alinham mais com os Estados Unidos na política internacional e adotam algumas unidades de medidas estranhas. Dar de ombros ao Mundial de Clubes é um detalhe.

Em 2009, o campeão europeu é o Barcelona. Antes do embarque, os catalães dizem que o título é importante, porque é o único que falta na história do clube etc e tal. Como escreveu o jornal “El Mundo” em sua manchete: “último passo em direção à grandeza”. É sincero, ainda mais depois de perder a decisão no Japão para São Paulo e Internacional. Os barcelonistas não vão entrar em ritmo acelerado como se fosse a decisão da LC contra o Chelsea ou o Manchester United, mas buscarão o título. E, se perderem, não têm desculpas.

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Equipe Trivela

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