Copa do ReiEspanha

A coragem tornou o Atlético campeão e livre da submissão

O Atlético de Madrid viveu 14 anos de submissão. Vinte e cinco partidas consecutivas sem conseguir superar o Real Madrid. Dezenove derrotas, a maioria delas com um sentimento de inferioridade que parecia indissociável aos colchoneros. Faltava coragem, faltava acreditar que a vitória era possível. Há duas semanas, um dos revezes mais vexatórios, de virada e dentro de casa, contra os blancos em crise e com time misto. Um baque que parecia significar a ampliação do tabu por mais algumas décadas.

No fim das contas, um aprendizado. O Atlético da decisão da Copa do Rei foi o oposto daquele time amedrontado, embora o início de jogo indicasse o contrário. Teve sangue nos olhos para virar o placar, para peitar o Real Madrid dentro do Santiago Bernabéu, na bola e na manha. Vitória heroica por 2 a 1, que não significou apenas a conquista da décima taça da copa. É o fim do tabu, do time subjugado. O maior título do Vicente Calderón desde a dobradinha na temporada 1995/96. Um dos mais simbólicos da história do clube.

O jogo

Os primeiros minutos de jogo no Bernabéu pareciam uma continuação do desastre do último clássico, no Vicente Calderón. O Atlético estava amedrontado diante do poderio dos rivais. E o Real Madrid precisou de apenas 13 minutos para abrir o placar, em uma cabeçada soberana de Cristiano Ronaldo após cobrança de escanteio.

O gol, no entanto, teve efeito contrário do que acontece costumeiramente com os colchoneros nos dérbis. Ao invés de cair de joelhos, a equipe de Diego Simeone ficou em pé e partiu para cima dos merengues. Se aproximando cada vez mais da área adversária, chegou ao empate aos 35 minutos da etapa inicial. Radamel Falcao García foi genial na construção da jogada, que terminou com Diego Costa estufando as redes.

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O Real tentou uma resposta imediata, mas o tiro de Mesut Özil parou na trave. O poste, aliás, teria papel preponderante para safar o Atleti. Na volta do intervalo, o jogo se abriu, com as duas equipes se arriscando mais. Todavia, as melhores chances se concentraram com os blancos. Primeiro, Courtois operou um milagre. Depois, Benzema acertou a trave e, no rebote, Juanfran fez uma defesa em cima da linha, desviando com o joelho o chute à queima-roupa de Özil. E Cristiano Ronaldo foi o terceiro a esbarrar no poste, em cobrança de falta.

Os erros excessivos abalaram o Real Madrid. A partir de então, o jogo ficou bem mais pegado, com cartões distribuídos para os dois lados. À beira do campo, José Mourinho foi expulso por reclamar excessivamente sobre a marcação de uma falta. E os minutos finais contaram com novo momento de superioridade do Atlético, aproveitando bem as laterais do campo e apostando no jogo aéreo, ainda que sem obter maiores resultados.

Com a persistência do empate, a final seguiu para a prorrogação. Mourinho tentou dar sangue novo ao Real, realizando as três alterações de uma só vez. Entretanto, os rojiblancos aproveitaram o embalo para chegar ao gol da vitória. Depois de Diego López fazer grande defesa, Miranda deu o golpe fatal. O tento que encerrou os 14 anos de afligiam o Atleti.

Diante da desvantagem, o Real Madrid partiu para cima em busca do empate. E parou em Courtois, gigantesco debaixo das traves. O belga primeiro fez o impossível com os pés, antes de espalmar um chute de Özil que tinha destino certo. Mais uma vez, os erros afetaram os merengues. Cristiano Ronaldo tentou agredir Gabi e foi expulso, desencadeando a confusão entre as duas equipes.

Não foram os momentos nervosos, porém, que barrariam a vitória de um Atlético de Madrid com a cabela no lugar, erguida. Depois de decepcionar a torcida tantas vezes, os colchoneros demonstraram o brio necessário para superar o Real Madrid. Um título conquistado na base da coragem e também com um pouco de sorte, que serviram para complementar a todas as qualidades do time treinado por Diego Simeone.

Destaque do jogo

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Thibaut Courtois. Ajudado pela trave, o goleiro do Atlético de Madrid teve uma atuação monumental, sobretudo na prorrogação. As duas defesas que fez quando os colchoneros já tinham virado o placar entram para a história tanto quanto os gols da final.

Momento-chave

O sufoco passado pelo Atlético de Madrid, aos 16 minutos do segundo tempo. Dentre todas as chances do Real, foi a melhor. Benzema parou na trave e Juanfran fez o impossível para desviar o chute de Özil em cima da linha. Se entrasse, os merengues retomariam a vantagem no placar.

Os gols

14’/1T – GOL DO REAL MADRID! Mesut Özil cobra escanteio pelo lado direito do ataque. Cristiano Ronaldo salta sozinho na marca do pênalti e cabeceia no canto, longe do alcance de Thibaut Courtois.

35’/1T – GOL DO ATLÉTICO DE MADRID! Contra-ataque dos colchoneros. Jogada individual sensacional de Falcao, que deu três dribles secos em Raúl Albiol e enfiou a bola para Diego Costa. Livre, o atacante dominou e chutou cruzado, no contrapé de Diego López.

8’/1T da prorrogação – GOL DO ATLÉTICO DE MADRID! Sobra após cobrança de escanteio. Koke cruza em direção ao primeiro pau e Miranda se antecipa a Diego López para cabecear.

Curiosidade

O Atlético de Madrid venceu cinco das seis finais que disputou nas últimas três temporadas – duas Ligas Europa, duas Supercopas da Uefa e uma Copa do Rei. Já o Real Madrid perdeu sete das nove decisões que jogou no Santiago Bernabéu, quatro delas para os colchoneros.

Ficha técnica

REAL MADRID 1×2 ATLÉTICO DE MADRID

 Real Madrid_escudo Real Madrid
Diego López, Michael Essien, Sergio Ramos, Raúl Albiol e Fábio Coentrão (Álvaro Arbeloa, fim do tempo regulamentar); Xabi Alonso e Sami Khedira; Mesut Özil, Luka Modric (Ángel Di María, fim do tempo regulamentar) e Cristiano Ronaldo; Karim Benzema (Gonzalo Higuaín, fim do tempo regulamentar). Técnico: José Mourinho.
atletico de madrid escudo Atlético de Madrid
Thibaut Courtois, Juanfran, Miranda, Diego Godín e Filipe Luís; Koke (Raúl García, 8’/2T da prorrogação), Mario Suárez, Gabi e Arda Turan (Cristian Rodríguez, 6’/2T da prorrogação); Diego Costa (Adrián, 17’/1T da prorrogação) e Radamel Falcao García. Técnico: Diego Simeone.
Local: Estádio Santiago Bernabéu, em Madri (ESP)
Árbitro:  Carlos Clos (ESP)
Gols: Cristiano Ronaldo (14’/1T), Diego Costa (35’/1T), Miranda (8’/1T da prorrogação)
Cartões amarelos: Sergio Ramos, Mesut Özil, Michael Essien, Sami Khedira, Cristiano Ronaldo, Fábio Coentrão e Ángel Di María (Real Madrid); Miranda, Gabi, Mario Suárez, Arda Turan, Koke e Diego Costa (Atlético)
Cartões vermelhos: Cristiano Ronaldo (Real Madrid), Gabi (Atlético de Madrid)

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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