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Uma das notícias mais fortes desta semana no futebol italiano foi uma reviravolta no Milan. O clube anunciou a renovação de contrato de Stefano Pioli, algo surpreendente, já que o clube tinha conversas bastante avançadas com Ralf Rangnick para assumir uma dupla função no clube rossonero: diretor de futebol e técnico. Uma função que não existe nos grandes clubes europeus atuais e que nem os técnicos mais badalados, Pep Guardiola e Jürgen Klopp, possuem. Pioli conseguiu resultados, mas esta é só parte da história de por que o Milan mudou de rumo.

A mudança de direção surpreendente, porque dá a impressão que o Milan abandona toda uma ideia de projeto, ainda que arriscado em alguns aspectos, para embarcar no trem da empolgação pelos ótimos resultados que o time tem com Stefano Pioli. Só que vai além disso. A disputa de poder interno é um fator relevante no episódio, ainda mais quando levamos em conta um histórico de desgaste nesta temporada.

Em maio, Paolo Maldini deixou clara a insatisfação com essa ideia de poder total a Rangnick. Isso somou-se ao desgaste pela saída de Zvonimir Boban, em março, depois do então diretor fazer críticas aos donos do clube, o fundo Elliot, em uma entrevista. A situação criou uma saia justa, porque desagradou outros diretores, como o próprio Maldini, com quem o croata trabalhava de forma próxima. Ivan Gazidis, o CEO do clube, pareceu ter tomado a decisão sozinho, de forma a dar uma satisfação aos investidores.

Segundo relato do Bild, do jornalista Christian Falk, Rangnick queria ser visto como salvador da pátria e o cenário em 2019, quando as conversas começaram, dariam essa possibilidade. Pioli chegou com o Milan em 10º, afundado no meio da tabela. Agora, é quinto colocado, com sete vitórias em nove jogos e uma série invicta desde a retomada do futebol na Itália. “Nós sabíamos que ele tinha hesitado em relação ao contrato”, afirmou Falk em entrevista ao MilanNews.it.

“Rangnick queria controle total no clube. O grande volume de críticas que ele recebeu, incluindo de [Paolo] Maldini, o fez refletir se ele realmente seria capaz de colocar as suas ideias em prática”, conta Falk. “Ele também não gostou que o clube contratou jogadores que ele não queria, como Simon Kjaer”. Ou seja: não foi só o Milan que mudou, Rangnick também.

Quando Stefano Pioli foi escolhido para substituir Marco Giampaolo no comando do Milan, poucos imaginavam que ele conseguiria fazer com que o time realmente não só jogasse mais – porque o parâmetro era baixo -, mas também jogasse bem. Seu sucesso contagiou os jogadores, que o defendiam no vestiário. A voz mais representativa era de Ibrahimovic, que abertamente falava sobre o técnico atual, além de criticar Rangnick e a gestão do clube. Hakan Çalhanoglu, outro recuperado pelo técnico, também engrossou o coro para a permanência de Pioli.

A ideia com Rangnick era uma revolução, mudar a forma como o clube é administrado no futebol, como faz negócios e gere os jogadores no time. O alemão traria um pouco da visão do grupo Red Bull, onde ele é diretor e já foi técnico do RB Leipzig. Para isso, o treinador queria poder total. Este ponto era mais aceitável quando o clube estava mal, mas a recuperação do clube também levou a questionamentos. Inclusive do próprio Rangnick. Ele não seria mais o salvador da pátria. Ele seria aquele que precisaria fazer mais do que Pioli, ou os questionamentos viriam. E rápido.

O que alemão pediu é algo que não existe no mundo atual. Os últimos técnicos a terem tamanho poder entre os principais clubes do mundo foram Alex Ferguson, no Manchester United, e Arsène Wenger, no Arsenal. Nenhum deles começou já com todo esse poder desde que assumiram seus cargos. Foram ganhando aos poucos, construindo essa relação. Não por acaso, ambos passaram mais de duas décadas em cada um dos seus clubes. Ambos se tornaram casos cada vez mais raros, até se tornarem únicos.

Ivan Gazidis sabe como é duro ter que demitir alguém com esse poder. Estava no Arsenal e foi o responsável por interromper a passagem de Wenger, em um time que já não conseguia atingir os resultados esperados e sofria para competir com os rivais na Inglaterra. Ferguson tinha poder total quando terminou os 26 anos que teve à frente do clube, mas, bom, Rangnick não é Ferguson e não construiu essa história.

Rangnick queria ter o poder total, inédito no futebol de alto nível na Europa, desde o primeiro dia, em um clube que vive o peso do seu passado vitorioso, em um país que nunca trabalhou e que nem sequer fala a língua. Ele tem um histórico, porém, de muito sucesso, em uma organização que tem se mostrado muito bem administrada. Seria um técnico de um peso e conhecimento que o Milan atualmente não tem acesso.

O problema é que precisaria concentrar duas funções cruciais no futebol atual, de diretor e técnico. Duas funções que exigem um trabalho em tempo integral, ainda mais em um clube que precisa de tanta coisa, como o Milan. Aos 62 anos, o alemão teria que gerenciar duas áreas-chave do clube, com todos os problemas de um trabalho novo. Os questionamentos a esse poder total tinham justificativa. E aumentaram com o sucesso do Milan sob o comando de Pioli.

Com tudo isso, o desgaste que o Milan vive nos últimos meses pela mera presença de Rangnick como possível futuro técnico e diretor esportivo já seria um problema. O alemão, embora visto como um gênio do futebol por muitos, também é uma personalidade difícil e não costuma ser bom com diplomacia. Aqui, ele encararia um problema sério que existe na Serie A: a ideia de que a liga italiana é tão diferente das demais que um estrangeiro sofre para se adaptar. É claro que ela tem peculiaridades, mas um profissional competente pode lidar com isso, se realmente quiser encarar o desafio e se o ambiente permitir.

O histórico de Rangnick sugere que ele seria um excelente nome para diretor do Milan. Ser o homem forte do futebol, com poder de tomada de decisões no que diz respeito a recrutamento, técnico e contratações de jogadores. Ao somar o trabalho de técnico junto, parece uma centralização perigosa e, mais do que isso, complicado de gerir. Falta tempo para lidar com tanta demanda sem dividir as funções.

Vale lembrar que em 2011, quando era técnico do Schalke 04, Rangnick pediu afastamento alegando exaustão. Precisou ser tratado, porque teve problemas de saúde sérios por isso. O alemão é conhecido por ser um workaholic, o que não é necessariamente positivo – especialmente para ele. Ainda mais quando acumula dois cargos importantes. Por isso, fazia sentido ter Rangnick como diretor e manter Pioli como técnico. Uma solução que pode até ter passado pela cabeça dos dirigentes do Milan, mas não pela da Rangnick, que só aceitaria o trabalho se fosse com poderes totais, sem condicionantes.

Diante da situação, o alemão não quis se arriscar em um projeto que ele não estava convicto que poderia fazer tudo que pensa e quer. O Milan também não parecia convencido que deveria dar a chave do clube a Rangnick, nas condições que ele queria, e criar um atrito com a diretoria que vem tentando reconstruir o clube. Ainda mais com os resultados de Pioli, que ganhou o vestiário e também a opinião público. A manutenção de Pioli repercutiu bem na torcida, que vê de forma positiva o futebol que o time tem jogado.

Agora, o desafio do Milan será usar uma base nova para se reconstruir, ainda que com a manutenção de Pioli. A saída de Boban indicava uma cisão na diretoria que não poderá voltar a acontecer, se o clube quiser seguir um caminho de sucesso. Gazidis, o CEO, precisará trabalhar de forma mais afinada com o diretor Paolo Maldini, o diretor esportivo Ricky Massara, com Hendrik Almstadt e o chefe de recrutamento, Geoffrey Monacada.

Os problemas de falta de unidade não poderão se repetir no futuro e a diretoria precisa trabalhar junta e em uma mentalidade que renove o elenco, use mais jovens jogadores e tenha responsabilidade financeira, já que os rossoneri não vivem um momento de bonança. Os primeiros desafios serão manter Gianluigi Donnarumma, o goleiro e que se tornou importante no time, e resolver a situação Zlatan Ibrahimovic, que se tornou um representante de Pioli em campo, mas que não agrada ao fundo Elliot pelos 38 anos e salário enorme. Isso além de fazer um mercado que reforce o time, usando como parâmetros jogadores jovens e com potencial. Será a partir daí que veremos se o Milan entrou nessa com um plano, de fato.