O Liverpool entra em campo, nesta quarta-feira, no Camp Nou, tentando chegar à final da Champions League pela segunda vez seguida e, quem sabe, conquistar seu primeiro título europeu em 14 anos, desde aquela noite em Istambul. Se o clube olhar para o seu passado, tem motivos para ficar otimista. Duas vezes, ambas na Copa da Uefa, a glória continental foi precedida por confrontos nas semifinais contra o Barcelona, como contamos a seguir.

O estilo europeu

No começo da década de setenta, o Liverpool tinha um respeitável retrospecto em competições europeias, considerando que elas ainda eram muito jovens. Havia feito boas campanhas na Copa dos Campeões e na Recopa e, com Bill Shankly, conquistou a Copa da Uefa de 1973. Mas uma derrota pesada para o Estrela Vermelha no ano seguinte fez com que a comissão técnica percebesse que, para ganhar constantemente contra equipes estrangeiras, era preciso mudar o estilo de jogo que dava certo na Inglaterra.

A proposta era sofrer menos riscos, controlando o jogo com posse de bola a partir dos zagueiros, sem acelerar as jogadas, ditando o ritmo com calma. A racionalização, especialmente em partidas como visitante, é que essa estratégia deixaria o adversário ansioso, pressionado pela torcida, e os espaços começariam a aparecer. E uma das primeiras vezes em que isso deu frutos foi no Camp Nou.

Era a segunda temporada de Bob Paisley à frente do Liverpool, e a renovação do time seguia em frente. Uma das medidas mais importantes de Paisley foi recuar Thompson para formar a dupla de zaga ao lado de Emlyn Hughes, dois jogadores muito técnicos que, junto com o goleiro Ray Clemence, bom com os pés, conseguiriam colocar em prática a ideia proposta.

O Barcelona era treinado pelo alemão Hennes Weisweiler naquela temporada e tinha os holandeses Johan Cruyff e Neeskens em seus quadros, além do espanhol Carlos Rexach. Eliminado nas quartas de final da Copa do Generalíssimo e atrás do Real Madrid na briga pelo título espanhol, Weisweiler estava pressionado e seria demitido naquele mês de abril.

Uma medida recorrente de Paisley em jogos fora de casa era recuar Kevin Keegan para preencher o meio-campo. Em quatro partidas como visitante naquela Copa da Uefa, contra Hibernian, Real Sociedad, Slask Wroclaw e Dynamo Dresden, o Liverpool havia sofrido apenas três gols. Mas, identificando fragilidade na defesa catalã, Paisley decidiu começar o jogo com Keegan avançado ao lado de Toshack e se deu bem.

Aos 13 minutos, Toshack emendou um lançamento de Clemence para Keegan, que devolveu o passe e deixou o companheiro em boa posição para abrir o placar. Com vantagem, o Liverpool adotou o pragmatismo, Keegan recuou para ficar ao lado de Jimmy Case, Callaghan, Heighway e Kennedy, e o Barcelona não conseguiu empatar. “Você sempre tem esperança no futebol, mas vamos encarar a verdade. O Liverpool deve passar agora. Não quero falar sobre os jogadores individuais do Liverpool, mas eles têm grandes jogadores e formam um grande time”, disse Cruyff.

E ele estava certo. O jogo de volta, em Anfield, foi nervoso, com Thompson abrindo o placar, no começo do primeiro tempo, e Rexach empatando, no minuto seguinte. Faltou um gol para o Barcelona empatar a série. Na final, o Liverpool derrotou o Club Brugge e foi campeão da Copa da Uefa, na temporada que firmou Paisley como treinador principal do clube.

Dezesseis anos 

A nova maneira de jogar partidas europeias deu tão certo que, na metade da década de oitenta, o Liverpool tinha conquistado a Copa dos Campeões quatro vezes e chegado a mais uma final em 1985. A tragédia de Heysel, no jogo contra a Juventus, levou a uma exclusão de clubes ingleses de competições continentais. E, em seguida, sem Kenny Dalglish no banco de reservas e com dificuldades para se adaptar aos primórdios da Premier League, passou os anos noventa sem grandes aventuras no estrangeiro.

Em abril de 2001, o time treinado por Gerard Houlier estava na briga por três títulos. Havia conquistado a Copa da Liga Inglesa e garantira passagem à final da Copa da Inglaterra, com vitória por 2 a 1 sobre o Wycombe Wanderers, três dias depois de um empate morno por 0 a 0 com o Barcelona no Camp Nou. A volta, em Anfield, valeria a primeira classificação dos Reds e a uma final europeia em 16 anos.

A boa exibição defensiva dos ingleses foi ameaçada basicamente por Rivaldo, que exigiu defesa com a ponta dos dedos do goleiro Sander Westerveld, quase do meio-campo, e deixou Kluivert em ótima situação. Enquanto isso, o jovem arqueiro do Barcelona não passava segurança. “O novato goleiro de 18 anos, José Manuel Reina, parecia tão nervoso quanto um homem que sofreu oito gols nos últimos dois jogos”, escreveu o relato da BBC.

À frente da linha defensiva, havia um forte meio campo com Hamman, Smicer, Gerrard e McAllister que, três dias antes, havia sido o herói da vitória por 3 a 2 sobre o Everton, com um gol aos 45 minutos do segundo tempo. E foi dele o único gol do confronto, convertendo um pênalti tolo cometido por Kluivert, que subiu em uma cobrança de escanteio defensivo com os dois braços abertos.

O tento valeu passagem para a final da Copa da Uefa, contra o Alavés, em Dortmund, e o título veio em uma emocionante vitória por 5 a 4.

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