Tim Vickery: Uruguai de Bielsa convive com fantasma às vésperas da Copa do Mundo
Celeste terá amistosos importantes que podem definir futuro de lendário treinador
Desde o fim das Eliminatórias, os adversários da Argentina nos amistosos têm sido Venezuela, Porto Rico, Angola e, agora, Mauritânia e Zâmbia. Uma coleção estranha para um time que se prepara para algo inédito — ninguém, na história, conseguiu defender o título de campeão do mundo jogando em outro continente.
Com o cancelamento da Finalíssima contra a Espanha, a Argentina não está aproveitando a única oportunidade no calendário para fazer amistosos contra seleções da Europa. Os outros sul-americanos que vão à Copa do Mundo estão todos se medindo contra europeus nos próximos dias.
Os problemas do Uruguai de Bielsa
Pode ser que não seja ideal colocar o prestígio em jogo tão perto do Mundial — o real motivo pelo qual a Argentina nem quis disputar a Finalíssima agora. Isso porque há um aspecto de risco nesses jogos — uma derrota seria um baque, enquanto uma vitória pode causar uma euforia perigosa. Mas há um jogo onde o risco é especialmente alto — a visita do Uruguai à Inglaterra nesta sexta-feira.

Eu estava no estádio de Wembley quando esses dois times se enfrentaram pouco antes da Copa de 1990. Testemunhei um triunfo sul-americano por 2 a 1, em um jogo de pouca pressão. Agora é diferente. A pressão é grande e, caso o Uruguai perca feio, não é impossível que, faltando onze semanas para a Copa, haja uma troca de comando.
Vamos explicar. Quando assumiu, depois da última Copa, Marcelo Bielsa parecia um bom nome para treinar a Celeste Olímpica. O Uruguai precisava de uma renovação de gerações e tinha jogadores novos com o perfil do futebol dinâmico do veterano técnico argentino — de Ronald Araújo atrás, passando por Rodrigo Bentancur, Manuel Ugarte e, especialmente, Federico Valverde no meio-campo, além de Darwin Núñez na frente com alguns pontas promissores.
E, realmente, o início foi muito bom. Ganhou da Argentina em Buenos Aires, dominou o Brasil em Montevidéu e começou a Copa América de 24 com uma chuva de gols.
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Relação inexistente e vestiário minado

Mas alguma coisa aconteceu durante aquele torneio. Luis Suárez ajudou a explicar logo depois, quando se aposentou da seleção “cuspindo marimbondos”.
A relação entre Bielsa e os jogadores era péssima — ou, para ser mais preciso, inexistente.
Bielsa não conversava, não havia diálogo e o ambiente estava muito pesado. Ninguém do elenco apareceu para desmentir o grande artilheiro. Tudo indica que a convivência difícil de um mês juntos foi suficiente para minar o bom momento da seleção uruguaia. Desde então, o time nunca mais jogou com a alegria de antes.
Momento decisivo antes da Copa do Mundo
Depois disso, disputou 12 rodadas das Eliminatórias. Em oito, o Uruguai não marcou. Em várias, sequer criou chances — e um time de Bielsa entra em campo justamente com a intenção de criar.
O último amistoso, em novembro, foi contra os Estados Unidos sem sua força máxima; mesmo assim, venceram por 5 a 1 um Uruguai incapaz de atacar ou defender com o mínimo de eficiência.
Depois deste desastre, Bielsa convocou uma coletiva onde passou duas horas falando mal de si mesmo, mas reafirmou seu desejo de ficar e sua fé no time. Na sexta-feira, tudo isso será testado contra os ingleses.
A própria federação uruguaia está encarando esse jogo como decisivo. Mais uma derrota humilhante deixaria a situação de Bielsa insustentável. Imagino que o Uruguai já esteja pensando em um substituto caso isso aconteça — Diego Aguirre soa como o nome mais provável. Para Marcelo Bielsa, portanto, não se trata de aquecimento ou preparação. A Copa do Mundo começa na sexta-feira.



