Copa do Mundo 2026

A ‘metamorfose’ de Upamecano: Por que o francês é hoje o melhor zagueiro da Copa do Mundo

Força física, leitura defensiva e domínio da profundidade transformam camisa 4 em peça indispensável na caminhada francesa

A França é, naturalmente, a seleção dos protagonistas ofensivos. Kylian Mbappé monopoliza os holofotes, Ousmane Dembélé desequilibra pelos lados, Michael Olise acrescenta criatividade e Desiré Doué amplia as possibilidades de um ataque capaz de decidir qualquer partida. Mas reduzir a campanha francesa na Copa do Mundo ao talento de seus homens de frente seria ignorar um personagem que vem sustentando silenciosamente a caminhada rumo ao tricampeonato.

Dayot Upamecano faz um Mundial digno da elite da posição e, até aqui, constrói uma candidatura consistente ao posto de melhor zagueiro do torneio.

A classificação sobre Marrocos, nas quartas de final, apenas reforçou essa impressão. Enquanto Mbappé novamente chamou atenção pelo gol decisivo, Upamecano entregou mais uma atuação de altíssimo nível. Foram 72 toques na bola, 95% de aproveitamento nos passes, oito ações defensivas, quatro cortes, dois desarmes, um chute bloqueado e mais uma exibição segura controlando os raros espaços encontrados pelo adversário.

Os números impressionam, mas talvez não consigam traduzir completamente o que seus jogos vêm representando. O defensor do Bayern de Munique transmite uma sensação rara para um zagueiro moderno: a de que quase sempre está um passo à frente da jogada. Sua leitura dos movimentos ofensivos, a capacidade de controlar a profundidade e a agressividade na hora certa transformaram a defesa francesa em uma das mais difíceis de ser superada nesta Copa.

Upamecano: da promessa cercada por dúvidas ao zagueiro que domina a Copa

Upamecano em ação pela França na Copa do Mundo
Upamecano em ação pela França na Copa do Mundo (Foto: Harry Langer / DeFodi Images / IMAGO)

O potencial de Upamecano nunca foi motivo de discussão. Desde a explosão ainda muito jovem no RB Leipzig, era visto como um defensor capaz de reunir praticamente todas as características exigidas pelo futebol moderno. Forte fisicamente, rápido em campo aberto e dominante nos duelos, parecia destinado a ocupar espaço entre os melhores do mundo.

O caminho, no entanto, esteve longe de ser linear. As temporadas iniciais no Bayern foram marcadas por atuações de alto nível intercaladas com erros bastante visíveis. Como último homem de uma equipe que costuma defender em bloco alto, qualquer falha acabava potencializada. Bastava um passe errado ou uma decisão precipitada para que os questionamentos reaparecessem.

Essa imagem, inclusive, acabou se tornando mais forte do que a realidade. Poucos jogadores parecem carregar uma avaliação pública tão distante do nível que efetivamente apresentam em campo. Durante muito tempo, os erros de Upamecano passaram a definir a narrativa sobre sua carreira, enquanto sua evolução acontecia de maneira silenciosa.

A chegada de Vincent Kompany ao clube bávaro acelerou esse processo. Treinado por alguém que conhece profundamente a posição, o francês refinou aspectos que sempre limitaram seu jogo. Tornou-se menos impulsivo, reduziu riscos desnecessários com a bola, escolheu melhor os momentos de antecipar e passou a utilizar sua enorme capacidade física de maneira ainda mais eficiente.

Os resultados apareceram rapidamente. Desde que Kompany assumiu o Bayern, Upamecano não conheceu derrotas na Bundesliga quando esteve em campo. As únicas derrotas da equipe aconteceram justamente em partidas nas quais esteve ausente. Um dado que ajuda a ilustrar a influência que passou a exercer.

E a Copa do Mundo apenas escancarou essa transformação.

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Uma Copa que deveria mudar definitivamente sua imagem

Upamecano aplaude torcedores franceses
Upamecano aplaude torcedores franceses (Foto: Matteo Gribaudi / Gribaudi ImagePhoto / IMAGO)

Antes mesmo das quartas de final, Upamecano já liderava o ranking oficial de desempenho da Fifa entre todos os defensores do torneio. Era também o único jogador a registrar pelo menos dez desarmes, dez interceptações, dez rebatidas e dez duelos aéreos vencidos — somava 11 desarmes, liderava a Copa com 12 interceptações, contabilizava 18 rebatidas e havia vencido metade dos 20 duelos pelo alto que disputou.

Depois da partida contra Marrocos, esses números ganharam ainda mais peso. Mas, novamente, o diferencial vai além das estatísticas.

É difícil encontrar um zagueiro que controle tão bem a profundidade quanto Upamecano vem fazendo nesta Copa. Seu tempo de reação é excelente, a velocidade impede que atacantes encontrem espaço nas costas da defesa e sua leitura permite antecipações que eliminam jogadas antes mesmo de elas se desenvolverem.

Quando precisa correr para trás, acompanha praticamente qualquer atacante. Quando precisa defender perto da área, dificilmente perde o tempo da abordagem. E quando a França recupera a posse, oferece tranquilidade suficiente para iniciar a construção sem recorrer constantemente aos chutões.

Há, evidentemente, momentos em que ainda flerta com o risco. Diante de Marrocos, uma rebatida já na reta final acabou levando algum perigo desnecessário. São pequenos lapsos que continuam fazendo parte de seu estilo, consequência de um jogador que sempre prefere agir a esperar.

A diferença é que esses episódios hoje representam exceções, e não mais uma característica permanente.

Outro dado ajuda a dimensionar a maturidade alcançada: Upamecano disputa uma Copa intensa sem receber sequer um cartão amarelo. Para um defensor que vive em confrontos diretos, faz perseguições longas e frequentemente precisa interromper transições adversárias, trata-se de um indicador importante de disciplina e inteligência.

Talvez o maior mérito desta campanha seja justamente obrigar uma revisão de conceitos. Durante anos, Upamecano foi lembrado primeiro pelos erros e somente depois pelas qualidades. Nesta Copa, acontece exatamente o contrário.

A França continua sendo a seleção de Mbappé, dos atacantes brilhantes e dos gols decisivos. Mas dificilmente estaria novamente entre as quatro melhores equipes do planeta sem o trabalho silencioso de seu camisa 4, que ao lado de William Saliba, forma a melhor dupla de zaga do Mundial.

Foto de Guilherme Calvano

Guilherme CalvanoRedator

Jornalista pela UNESA, nascido e criado no Rio de Janeiro. Cobriu o Flamengo no Coluna do Fla e o Chelsea no Blues of Stamford. Na Trivela, é redator e escreve sobre futebol brasileiro e internacional.

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