Copa do Mundo
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Um domingo em Buenos Aires e a importância do futebol de seleções para este continente

Urge mais afeto e muito mais disposição, menos má vontade e amargor, com o futebol de seleções, e o abandono desse debate labiríntico que versa sobre a seleção "atrapalhar os clubes" ou "deslumbrar os jovens"

Pouco astuto da minha parte seria, após escrever um lacônico “indescritível” para tantos amigos e amigas na noite de domingo, sentar agora para descrever o que vi em solo argentino no final de semana da final da Copa do Mundo. Ao mesmo tempo, é meu papel de ofício e parte da minha decisão de viajar. Então descrevo, mas me antecipo: há alguma coisa sobre os festejos – e o sofrimento – de 18 de dezembro que não soube, ainda, codificar, mas que suspeito ter resposta-chave no silêncio tenso no passeio das 9 da manhã, uma sensação de que todos estão acordados atrás de cada janela, mas cada um está digerindo a ansiedade à sua maneira. Me lembrei do auge da pandemia. Lá pelas dez, o silêncio se rompeu.

Pra registro: essa ideia nasceu anos atrás. Havia comentado a um primo sobre a ideia de ver a Copa fora do Brasil, como um experimento. Ver como funciona noutro lugar, especialmente num país onde classificar para as oitavas já seria uma glória. Isso era pretexto para ver a Copa na Colômbia, por quem meu coração se aproximou após a solidariedade na tragédia chapecoense. Não teve Colômbia, Uruguai também, e nem sombra de viagem existia enquanto a expectativa era por um Brasil x Argentina, que me faria dormir de cueca verde-amarela tal qual um véio da Havan. Depois que caiu o Brasil e bailou o Gvardiol com o Messi, decidi visitar o site de passagens para cometer a calculada loucura.

O avião pousa, aí você desembarca, entra no táxi, o taxista liga o rádio e a primeira frase no alto-falante é “hay que tener mucho cuidado con Griezmann”. O debate é o mesmo no cochicho das esquinas, é passar por dois velhotes e ouvir um “partido” ou “la Francia” entre blá blá blás. Nós, que amamos o futebol em níveis exagerados nos outros 3 anos e 11 meses, nos sentimos redimidos, entendidos, por ao menos uns dias – e que dias fizeram naquele país: não pensem que a festa dos argentinos está descolada do fato de ser verão, quando os corpos querem mais corpos e a cidade é outra cidade. Inventaram um tempo para o futebol que mescla os anos, 2021/22, 2022/23, só para a gente ver Copa no inverno e eles descansarem no verão.

A festa de verão argentina tinha um tom demencial. Com os arredores do grande obelisco impraticáveis, embora pacíficos, olhar suas ruas transversais, jorrando gente embandeirada para a avenida-mãe como se fossem artérias colapsadas, parecia miragem e não tinha como caber no mesmo espaço. Um céu no chão. Numa dessas ruas, me sentei na calçada. Toda a diversidade demográfica, etária e social do país passou por mim em uma velocidade de escola de samba atrasada na avenida. Corpos carnavalizados, inclusive. Um tapete vivo que parecia caminhar em uma esteira veloz. O destino final dessa gente, o apoteótico obelisco, era desconfortável e caótico como um 2×2 após a Copa parecer definida, mas acho que ninguém se importou.

E é aí que descrições maiores poderiam me trair e arruinar o relato. Mais fácil dizer assim: é tudo isso aí que você pensou que pode ser. Referências múltiplas e candentes a Diego Maradona, crianças maravilhadas como se o país tivesse virado um milk-shake, idosas em cadeiras de roda acenando na calçada do asilo (e recebendo os cantos de “abuela la la la”), senhores de sorriso contemplativo digno de quem viu 1986, desajustados com embriaguez intratável, meninas serelepes e saltitantes, meninos marchando ansiosos e perplexos, tudo que é possível ver, em cima de capôs de carro, semáforos ou árvores, se viu.

Dado o contexto, tendo a crer que não haverá outro domingo de demência festiva coletiva como esse. Talvez tenha sido, já falando em 2099, o grande delírio futebolístico do século, considerando que não há de viver um Maradona, morrer um Maradona e surgir um Messi que ganhe como esse Messi ganhou em tão pouco tempo, em uma seleção que tanto sapo engoliu. As referências divinas e messiânicas da bola autorizaram o povo argentino a se entregar às ruas com uma mistura rara, confusa e ritualística de sentimentos. Enquanto Messi era aplaudido em uma pausa na festa para vê-lo erguer a taça que não o torna nem maior nem melhor que Maradona, mas, sim, a sua continuação, eu pensava: taí, ele é nosso, afinal.

Porque se a França perdeu a final da Copa, ela ainda ganha o Messi. É lá que daqui uma semana o 10 argentino vai voltar a jogar e morar. Nossa Monalisa está exposta, hoje, no obelisco, mas já já volta para o Louvre. Não que seja um roubo ou uma indecência. Messi foi bem tratado em Barcelona desde os 13 anos, sua família não deve ter nada para se queixar, foi um trabalho lindo de formação de um atleta. Mas as coisas são como são, e Lionel, com sua bola inacreditável e seu sotaque rosarino que manda os bobos “irem pra lá”, é o grande craque do continente em um tempo em que não é possível sequer sonhar em tê-lo aqui.

Endrick, durante a Copa, assinou com o Real Madrid. Jogará com Vini e Rodrygo, outros de saídas precoces. Estão todos bem, menos uma parte da gente que não se conecta assim com estes clubes. Sinto que nossa única saída está no afeto por nossas seleções, e que fortalecer estes laços, forçar o exercício desta identidade, é o caminho para que a festa deste domingo, fruto de uma conexão entre time e povo que custou muito a ser construída (e foi possível a partir das já citadas circunstâncias entre Maradona e Messi, figuras de exceção mesmo entre os raros e gênios), se repita daqui alguns anos no Brasil, por exemplo. Foi com Suárez, a partir da Copa de 2010, que outros vizinhos, os uruguaios, redesenharam essa mesma relação.

É um direito que a gente merece exercer. Temos o direito, e também o dever, de encontrar qual é o caminho do encantamento possível que nos faça torcer por um dos nossos, como Vini Junior, com uma camisa que é a nossa – e só pode ser a amarela, o resto é TV a cabo e entrevista noutro idioma. É um problema químico, de conexão que não se compra, mas também humano e filosófico, no sentido de sermos donos de nosso encantamento e responsáveis pela nossa própria indiferença a algo. A conquista argentina, e sobretudo a festa, no país e no Catar, a invasão apaixonada a um país fictício que potencializou o delírio coletivo de que vivia-se mesmo um sonho, é um esforço de e entre pessoas – as mesmas, aliás, que fazem o futebol ter relevância.

O trem do futebol de clubes já passou para nós sudacas. Serão poucas exceções. O próximo Messi também não jogará uma Libertadores. Choverão amostras e pesquisas apontando o crescimento da adesão aos clubes europeus entre a garotada, e não se briga com o inevitável. Mas o obelisco de Buenos Aires só lota se, além do atleta, a camisa tocar intimamente o torcedor e a torcedora, tipos que não assinaram um termo de compromisso para assistir e se inteirar de tudo desse mundo frenético da bola, mas que topam amarradões viver um encanto de 30 dias de tempos em tempos, com outras visitas à infância entre eles.

Por isso, saio da Argentina convicto de que urge mais afeto e muito mais disposição, menos má vontade e amargor, com o futebol de seleções, e o abandono desse debate labiríntico que versa sobre a seleção “atrapalhar os clubes” ou “deslumbrar os jovens” (o que implica cobrar a CBF, no nosso caso, a entrar no século 21 e fazer o mínimo em algumas pautas). A seleção é nossa chance de revanche para desaforos que nos habituamos a não cobrar – e sim, a sério, até a Copa no nosso inverno, verão deles, compõe minha lista de revanches vencidas no pênalti de Montiel. Dia 1 de janeiro tem Lens x PSG. Com Neymar? Com Messi? Não me chamem para assistir.

Foto de Leandro Iamin

Leandro Iamin

Jornalista, 35, fundador da Central 3, e espera viver pra ver o São José na elite de novo.
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