Copa do Mundo 2026

Seleção brasileira: O desempenho de Ancelotti em seus segundos anos em clubes e o que isso indica

Ao longo da carreira, italiano já conquistou Champions League e até foi demitido em suas segundas temporadas com diferentes clubes

Carlo Ancelotti estreou na seleção brasileira em junho de 2025. Um ano depois, estava em uma Copa do Mundo com um time repleto de desfalques, mudanças de ideias e dificuldades de manter um padrão. Agora, entre no seu segundo ano de trabalho com o Brasil com dúvidas sobre o futuro.

Depois da eliminação nas oitavas de final para a Noruega, o treinador foi criticado pela mudança de postura repentina do time naquele jogo. Mas há a expectativa de que o ciclo para o Mundial de 2030 seja mais tranquilo e coeso no campo das ideias. Mas como é o histórico de Ancelotti nos segundos anos dos clubes em que trabalhou?

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Ancelotti teve problemas ofensivos e princípio de mudança tática na Itália

O primeiro trabalho como treinador principal de Ancelotti foi no Reggiana, na segunda divisão italiana. Com o acesso à Serie A, deixou o clube e assinou com o Parma, uma potência da época, para a temporada 1996/97. Seu primeiro ano no clube foi positivo: vice-campeão italiano com apenas dois pontos atrás da Juventus, além de ter sido o time com mais vitórias e segunda melhor defesa.

Entrando em sua segunda temporada no Parma, Ancelotti vinha de um ano anterior com 59,3% de aproveitamento, contando eliminações muito precoces na Coppa Itália, ainda na segunda rodada, e na primeira rodada da Copa da Uefa, a antiga Europa League. O ataque também levantava questões: marcou apenas 44 gols em 37 jogos.

A contribuição ofensiva melhorou no ano seguinte, mas as múltiplas competições atrapalharam. A média de gols aumentou de 1,19 gol por jogo para 1,6 — ainda não muito grande, é verdade. E mesmo que tenha chegado às semifinais da Coppa Itália, viu o vice-campeonato da Serie A virar apenas um 6º lugar em 1997/98. Além da eliminação na fase de grupos.

Ancelotti na Juventus, em 2000
Ancelotti na Juventus, em 2000 (Foto: IMAGO / Ulmer)

Os resultados ruins viram o italiano deixar o Parma depois de dois anos e começar a temporada 1998/99 sem clube. No entanto, assumiu uma turbulenta Juventus no fim da temporada. Foram 20 jogos, nove vitórias, sete empates e quatro derrotas.

Seu primeiro ano completo com a Juve, em 1999/2000, foi de grande mudança. Ancelotti foi “criado” como treinador seguindo o 4-4-2 clássico de Arrigo Sacchi, mas teve dois grandes problemas com esse sistema: Thierry Henry e Zinedine Zidane.

Com Zidane, um meia muito criativo e irreverente, o italiano se viu obrigado a transicionar para um diamante no meio: o 4-3-1-2 (que seria o embrião da sua famosa “árvore de Natal”) ou o 3-4-1-2. Essa mudança permitia que Zidane fosse o “1” atrás da dupla de ataque e tinha liberdade para se movimentar, buscar a bola, driblar e criar — o que melhorou desempenho e resultados.

O caso Henry, no entanto, foi mais complexo. O francês chegou à Juventus um mês antes de Ancelotti, em janeiro de 1999. O italiano passou a usá-lo mais como um meia-esquerdo ou até mesmo um ala mais defensivo quando o time tinha três zagueiros. Isso ia completamente contra o que Henry era como jogador e culminou na venda do atacante apenas seis meses depois para o Arsenal, onde fez história.

A segunda temporada de Ancelotti na Juventus, sua primeira completa, acabou com o vice-campeonato italiano, apenas um ponto atrás da Lazio, mas com o melhor time defensivo do país: apenas 20 gols sofridos na Serie A. Ainda assim, o problema ofensivo seguia: somente 46 gols marcados em 34 rodadas, o menor número entre os 9 primeiros colocados.

O segundo ano completo à frente do clube teve melhorias: apesar de novamente ficar com o vice, apenas dois pontos atrás da campeã Roma, melhorou o ataque (61 gols na liga). No entanto, decepcionou na Champions League, caindo na fase de grupos, e sendo eliminado nas oitavas da Coppa Itália.

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Primeiros títulos no Milan e consolidação no Chelsea

Ancelotti deixou a Juventus ao fim da temporada 2000/2001 e novamente começou a campanha de 2001/02 desempregado, mas por pouco tempo: assumiu o Milan em novembro de 2001. Mas até aquele ponto, o destino parecia contra o treinador — quando chegou a Milão, seu ex-clube voltou a ser campeã da Serie A.

O Milan acabou em 4º lugar no campeonato italiano e Ancelotti havia assumido a equipe na 11ª rodada. O futuro, no entanto, era positivo: foi até as semifinais na Coppa Itália e na Copa da Uefa. O ano seguinte cravaria essa percepção.

Em 2002/03, o treinador passou a testar sua árvore de Natal (4-3-2-1) com o losango (4-3-1-2) para agrupar o maior número de talento possível. Dessa forma, pôde ter Andrea Pirlo como um primeiro volante organizador, Gennaro Gattuso ao seu lado como um combatente físico e, do outro lado, um talentoso e versátil Clarence Seedorf. À frente, ainda tinha o camisa 10 clássico Rui Costa operando atrás de máquinas de marcar gols como Andriy Shevchenko e Filippo Inzaghi.

O resultado foi um terceiro lugar na Serie A, mas um ano de 102 gols em 62 jogos e dois títulos de mata-mata: a Coppa Itália e a primeira Champions League da carreira do treinador. No ano seguinte, o terceiro do treinador no clube, veio a consolidação da árvore de Natal com a contratação de Kaká e o primeiro título da Serie A, com 11 pontos de vantagem.

Ancelotti conquistou a Champions League em sua segunda temporada no Milan
Ancelotti conquistou a Champions League em sua segunda temporada no Milan (Foto: IMAGO / Buzzi)

Depois de quase oito anos no Milan, duas Champions League e 11 títulos no total, Ancelotti chegou ao Chelsea em 2009 como um treinador diferente. O problema ofensivo que existia no início da carreira já havia passado: tanto que, na primeira temporada na Inglaterra, foi campeão da Premier League com estonteantes 103 gols marcados — de longe o melhor ataque da liga.

Além do título inglês, Ancelotti também conquistou a FA Cup e passou a migrar do seu losango para um 4-3-3 clássico, mas com pontas híbridos: Nicolas Anelka, um centroavante com liberdade, ou Joe Cole, um meia que caía por dentro para ser mais um armador.

Apesar do início arrasador, o segundo ano do italiano na Inglaterra não foi tão positivo. Caiu na terceira rodada da Copa da Liga, na quarta rodada da FA Cup e nas quartas da Champions League e 15 pontos e 33 gols marcados a menos na Premier League resultaram no vice-campeonato.

Ancelotti ‘arrumou’ o PSG e poderia ficar mais no Real Madrid

Depois dos dois anos no Chelsea, o treinador começou a temporada 2011/12 desempregado, mas assumiu o PSG em janeiro de 2012, na 20ª rodada da Ligue 1. Não conseguiu ser campeão francês, acabando três pontos atrás do Montpellier. Mas o ano seguinte foi dominante.

Em 2012/13, Ancelotti levou o time ao título com 12 pontos de vantagem, o melhor ataque e a melhor defesa. Também com um meio-campo povoado em um diamante, o PSG apostava em meias físicos e versáteis, como Blaise Matuidi e Thiago Motta, e os jovens criativos Javier Pastore e Marco Verratti atrás de um dominante Zlatan Ibrahimovic que era o foco do time — como alvo de cruzamentos e bolas longas, mas também descendo como falso nove.

Ancelotti deixou o Real Madrid na segunda temporada em 2015
Ancelotti deixou o Real Madrid na segunda temporada em 2015 (Foto: IMAGO / Marca)

O PSG cresceu com Ancelotti na segunda temporada e começou seu domínio francês, mas o treinador mudou sua ideia de jogo novamente quando chegou ao Real Madrid em 2013/14: com Cristiano Ronaldo e Gareth Bale, passou a usar pontas mais abertos e montou o principal ataque da Europa.

No ano de estreia em Madrid, ficou a três pontos do título de LaLiga, mas teve um time de 104 gols em 38 rodadas, além de conquistar a tão sonhada 10ª taça de Champions League do clube. Também foi uma passagem lembrada taticamente por transformar o ponta tradicional Ángel Di Maria em um meia trabalhador para ajudar o lado de Cristiano Ronaldo defensivamente.

No ano seguinte, o vice de LaLiga veio novamente com o melhor ataque: 118 gols marcados. Mas a falta de título com o tropeço nas oitavas de final da Copa do Rei e ter parado na semifinal da Champions custou sua posição de forma injusta em um ano de 76,3% de aproveitamento.

Sucessão de Guardiola no Bayern e declínio em Napoli e Everton

Depois de deixar o Real Madrid em 2015 vendo o Barcelona conquistar a tríplice coroa, ficou um ano sem trabalhar. Em 2016/17, assumiu o Bayern revolucionado por Pep Guardiola e não teve tanto trabalho: apesar de não seguir uma filosofia tão dominante com a posse, foi campeão alemão sem sustos, mas caiu nas quartas da Champions League e na semifinal da Copa da Alemanha.

Mais um ano sabático depois, Ancelotti assumiu o Napoli na temporada 2018/19 e fez um bom trabalho quebrando o 4-3-3 clássico fundado no Jogo de Posição de Maurizio Sarri que fez sucesso no clube. Foi vice-campeão italiano, mesmo que 11 pontos atrás da Juventus, mas reforçou sua visão de um treinador mais inclinado ao relacionismo: liberdade aos jogadores ofensivamente, ainda que rígido em seu 4-4-2 forte defensivamente.

A segunda temporada no Napoli, no entanto, não foi tão positiva. Se a primeira acabou com 92 gols em 52 jogos, a segunda chegou a ter uma sequência de nove jogos sem vencer nos campeonatos domésticos e um desgaste com a diretoria antes da demissão, em dezembro de 2019.

Duas semanas depois, o italiano já estava no comando do Everton, uma decisão curiosa. Ancelotti saiu de trabalhos de muito domínio, com Real Madrid, Bayern e até mesmo alguns momentos do Napoli. Teve um trabalho muito focado na solidez defensiva e saídas em contra-ataque para aproveitar Dominic Calvert-Lewin como pivô e Richarlison como um ponta que virava segundo atacante — quando, inclusive, o brasileiro viveu seu auge.

Em sua segunda temporada no Everton, a primeira completa, melhorou os resultados e teve 56% de aproveitamento, mas comandava um time limitado e acabou apenas na 10ª posição.

Retorno surpreendente ao Real Madrid e a imagem que fica na seleção brasileira

Carlo Ancelotti, técnico da seleção brasileira
Carlo Ancelotti, técnico da seleção brasileira (Foto: Harry Langer / DeFodi Images / IMAGO)

Curiosamente, em um momento que parecia de baixa na carreira, Ancelotti voltou ao Real Madrid em 2021/22, imediatamente depois de deixar o Everton. E voltou também ao seu 4-3-3 tradicional e aos títulos: conquistou a Champions League novamente em sua temporada de estreia, além de dominar LaLiga com um título de 13 pontos de vantagem.

Em um ataque que combinava Karim Benzema com liberdade para recuar como falso nove e criar espaços para Vinicius Júnior aproveitar, o ataque fluido novamente fez morada no time do italiano. E é justo dizer que pouco mudou nas duas primeiras temporadas do seu mandato.

Em termos de resultado, a queda foi ligeira: apenas 3% de aproveitamento a menos e oito pontos a menos em Laliga em relação ao ano anterior, mas foi o suficiente para ficar bem atrás do Barcelona com o vice-campeonato. Mesmo sem o título da Champions em 2022/23, o time chegou à semifinal da competição e foi campeão da Copa do Rei.

O melhor ano, de fato, foi o terceiro: 83% de aproveitamento e apenas duas derrotas na temporada 2023/24, culminando no título de LaLiga e da Champions League com a volta ao losango no meio-campo, Jude Bellingham como um meia versátil e goleador e uma dupla de ataque fluida de Vinicius Júnior e Rodrygo.

Ancelotti chega à seleção brasileira com uma última temporada quase melancólica no Real Madrid: perdendo a final da Copa do Rei para o Barcelona e eliminado nas quartas da Champions. Mas o resultado da sua passagem é positiva e, mais do que isso, toda a sua carreira mostra como sempre se inclinou com esquemas que preferem reunir talentos em campo.

O segundo ano com o Brasil pode ser desafiador e de ainda mais testes depois de uma Copa do Mundo difícil. E o italiano já mostrou de tudo: sequências de declínio, mas principalmente de retomada — ainda mais quando pegou trabalhos “pela metade” no ano anterior.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

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