Copa do Mundo

Ter Mertens como coadjuvante é um luxo que já rendeu uma pintura à Bélgica

Em seu clube, Dries Mertens desfruta de enorme moral. A relevância do atacante no Napoli é inegável. A mudança de posição, saindo da ponta para o centro do ataque, transformou sua carreira e o tornou um jogador bem mais completo. Algo que, nesta Copa do Mundo, começa a beneficiar a seleção belga. O camisa 14 acaba sendo um coadjuvante de luxo no time que também conta com Kevin de Bruyne, Romelu Lukaku e Eden Hazard. Volta a atuar mais pelos lados do campo, no 3-4-3 aplicado pelo técnico Roberto Martínez, embora tenha liberdade para transitar. E possui qualidade para resolver partidas, como bem se viu nesta segunda-feira, na Rússia. Um chutaço do belga abriu o caminho dos Diabos Vermelhos na vitória por 3 a 0 sobre o Panamá.

Em uma seleção que enfrenta certos problemas com egos, algo perceptível em seus atritos, Mertens é um cara bacana para se ter no elenco. O atacante é reconhecido por seu bom humor e pelo espírito solidário. São várias boas ações lideradas pelo belga, algumas que só chegaram à imprensa através de terceiros. Já ofereceu pizzas a moradores de rua, doou camisas do Napoli e artigos de primeira necessidade a uma escola na Guiné, visita com frequência um hospital infantil na Campânia, ajudou a salvar um abrigo de cães que corria o risco de fechar. Camaradagem que não parece se perder em campo, até pela maneira como contribui à seleção.

Mertens não tem vaidade em deixar a posição onde rende mais, e onde tem atuado majoritariamente pelo Napoli ao longo das últimas duas temporadas, para desempenhar outra função. É um atacante que mantém sua qualidade para cair aos lados de campo e dar amplitude ao time. Contudo, sua adaptação recente o permite transitar pelo meio e ser uma preocupação a mais dentro da área, assim como faz Eden Hazard. Majoritariamente na direita contra o Panamá, também chegou a cair pela esquerda. Além disso, ajuda bastante nas combinações com Lukaku para ocupar os espaços e finalizar. Desta maneira, foi um dos melhores em campo nesta segunda.

A Bélgica não fez uma partida tão impressionante durante o primeiro tempo. Dominava a posse de bola e acuava o Panamá, mas tinha dificuldades em ameaçar o gol de Jaime Penedo. Coube a Mertens, um dos que mais incomodaram na primeira etapa, abrir o placar pouco depois da volta do intervalo. E com um golaço. O camisa 14 recebeu a bola na direita e tentou conectar Lukaku, em cruzamento afastado parcialmente pela zaga panamenha. A sobra de bola veio justamente ao seu pé, pedindo para ser chutada. Foi o que ele fez: o arremate plástico tomou o caminho imparável rumo às redes, em parábola que encobriu o goleiro Penedo. A partir de então, os belgas tiraram o peso da obrigação e, mais soltos, anotaram outros dois tentos. Substituído aos 38 minutos, o ponta recebeu os aplausos da torcida.

E a multifuncionalidade de Mertens, afinal, oferece variações táticas para a Bélgica na sequência da competição. “Mertens atingiu um nível de maturidade. A forma como ele tem atuado como centroavante é notável. Assisti-lo jogar com o ataque do Napoli é um colírio para os olhos. Estava nas arquibancadas contra a Inter e a forma como ele interpreta a nova posição e os seus movimentos, tudo isso é fantástico. Dries provou que ele pode jogar em várias funções, que pode abrir muitos espaços e é um jogador inteligente. Ele representa uma opção extra para nós”, avaliou o técnico Roberto Martínez, em declarações de junho de 2017.

A última temporada de Mertens com o Napoli foi de altos e baixos. Depois de um ótimo começo, caiu no final do primeiro turno e se recuperou no início do segundo, até reviver a seca na reta decisiva da Serie A, sem contribuir tanto assim para que os celestes perseguissem a Juventus pelo Scudetto. A Copa do Mundo é a chance de recuperar a fome de gols perdida, e a estreia oferece uma boa motivação. A força da Bélgica está, além de seus protagonistas, na qualidade que se espalha pelas diferentes posições em bom nível. Isso pode fazer a diferença ao longo do Mundial. Teoria comprovada pelo camisa 14, mesmo que não fosse um teste dos mais exigentes.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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