Copa do Mundo

Técnicos que jogaram em Copas: Cherchesov e Cissé são os mais novos capítulos

Stanislav Cherchesov foi coadjuvante como goleiro, na história da seleção da Rússia em Copas do Mundo: quando foi convocado (1994 e 2002), foi reserva. Aliou Cissé já apareceu mais em Senegal: era capitão e volante titular na equipe dos Leões de Teranga que alcançou elogiavelmente as quartas de final em 2002. Nesta quarta (e de certa forma, nesta Copa), ambos são os destaques momentâneos de uma história que já tem 91 nomes: os nomes que treinaram equipes nacionais em Mundiais, já tendo jogado por elas em edições anteriores.

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A bem da verdade, poderiam ser 92 nomes. Considerando que o torneio olímpico de futebol era a grande disputa de âmbito mundial da modalidade antes de 1930, vale a lembrança do polonês Jozef Kalusza: atacante na equipe que disputou os Jogos de Amsterdã, em 1924, Kalusza treinou a Polônia quando esta estreou em Copas, na França, em 1938. Mas se o que vale é Copa do Mundo e só ela, aí o pioneirismo cabe ao sérvio Milorad Arsenijevic (1908-1987): ele jogou pela Iugoslávia em 1930, como meio-campista, e já comandou a seleção do país em 1950.

Iniciava-se uma história que teve seus representantes máximos em Zagallo e Franz Beckenbauer, campeões jogando e treinando. Duas histórias que tiveram participações elogiáveis quando eram jogadores. O brasileiro cumpriu bem seu papel tático em 1958 e 1962; o alemão era promessa quase real em 1966, começou a colocar seu nome na história em 1970 e se consolidou de vez como antológico em 1974.

Outra coincidência: ambos começaram a treinar as respectivas seleções quase por acidente. Em 1970, após a demissão de João Saldanha, cogitou-se e sondou-se Dino Sani, que recusou a Seleção por achar que ainda não tinha cancha suficiente na carreira para assumir tal responsabilidade a dois meses da Copa. Já com quatro anos no comando do Botafogo (e rapidíssimos dois jogos comandando o Brasil, em 1967 e 1968), Zagallo foi a segunda opção. Recebeu a proposta, aceitou, e treinou a seleção campeã mundial no México.

Com Beckenbauer, a proposta veio a partir de uma crise. Em 1984, eliminada na primeira fase da Euro, a seleção da Alemanha viu a demissão de Jupp Derwall, após seis anos de uma polêmica passagem. Sem muito rumo, a federação fez a proposta ao ex-jogador, cuja carreira acabara havia um ano. Beckenbauer aceitou, mas como não tinha o diploma para técnico, coube à DFB dar um jeito: colocou oficialmente como técnico o auxiliar Horst Köppel (depois, substituído por Holger Osieck), enquanto Beckenbauer virou teoricamente o “chefe de equipe”. Claro que, na prática, o “Kaiser” comandou a Mannschaft no vice-campeonato de 1986 e no título de 1990.

Beckenbauer chegou às pressas para treinar a Alemanha em que já fizera história jogando – e fez história também treinando (Ben Radford/Allsport)

No meio dessas duas histórias de sucesso, entre os outros 89 nomes que defenderam seleções em Copas no campo e no banco, fossem das suas nações ou não, aconteceram vários casos notáveis. Como o de Didi: melhor jogador da Copa de 1958 (no mínimo, o mais regular), fundamental ainda em 1962, coube ao ex-meia treinar o Peru que enfrentou a Seleção nas quartas de final da Copa de 1970 – e protagonizar uma dúvida sutil e comovente, sem saber se ficava em pé ou se sentava na hora da execução do Hino Nacional no Jalisco, em Guadalajara. Dúvida que não se apossou de um tranquilo Zico, treinador do Japão goleado pelo Brasil na fase de grupos de 2006.

Treinar a própria seleção que já fora defendida em campo numa Copa poderia servir para legitimar um nome como figura histórica no futebol de seu país. Houve casos como os de Maurício “Pupo” Rodríguez em El Salvador e o de Herbert Prohaska na Áustria, mas o grande exemplo disso é Morten Olsen. Já representante histórico na Dinamarca como jogador (defendera a seleção em campo entre 1970 e 1989, sendo o líbero da “Dinamáquina” de 1986, já aos 37 anos), Olsen foi para a casamata em 2000 e comandou a seleção por 15 anos, com duas Copas no meio, se convertendo num ícone do futebol danês em vida.

Morten Olsen nem precisava treinar a seleção da Dinamarca para ser um símbolo dela. Mas a treinou em duas Copas (Alex Lifesey/Getty Images)

Poderia servir para trazer um nível técnico mais acentuado a centros mais distantes – vale lembrar de Alfredo Foni, italiano campeão mundial em 1938 e treinador da Suíça na Copa de 1966, e de Jean Vincent, francês que defendeu os Bleus em 1954 e 1958, sendo o comandante de Camarões na estreia dos Leões Indomáveis em Copas (1982). Poderia servir para trazer ao protagonismo um integrante anônimo de um time campeão (Ricardo Lavolpe, de mero goleiro reserva de Ubaldo Fillol na Argentina campeã de 1978, chegou falando grosso ao México na Copa de 2006). Ou para o oposto – caso de Marco van Basten, que não repetiu como técnico da Holanda o êxito que tivera enquanto jogador. Ou para mostrar uma faceta adicional de um eterno protagonista: Diego Maradona, definitivo como jogador na Argentina, falado também como técnico, embora tivesse capacidade bem menor para isso.

Poderia servir para a lembrança de um grande nome esquecido – embora Guillermo Stábile, argentino artilheiro da Copa de 1930, tenha treinado a campanha vexatória da Albiceleste em 1958. Poderia servir até para prolongar histórias de sucessão. Para o bem: Juan Eduardo Hohberg, atacante titular do Uruguai em 1954, era o técnico da Celeste Olímpica na Copa de 1970, após ter ouvido muitas lições de Juan López, o técnico comandante tanto no título de 1950 quanto naquele 1954. Outro exemplo era Henri Michel, que foi treinado por Michel Hidalgo na Copa de 1978, aos 31 anos; foi auxiliar de Hidalgo em 1982, no quarto lugar dos Bleus; e aos 39 anos, após suceder o superior em 1984, comandou a campanha do terceiro lugar na Copa de 1986.

Mas a sucessão também poderia se dar em meio ao caos. Cha Bum-kun, um dos grandes jogadores da história da Coreia do Sul (foi um dos primeiros do país a passar pela Europa, defendendo Eintracht Frankfurt e Bayer Leverkusen), solitário destaque técnico jogando em 1986, comandou a equipe em 1998. Derrota para o México na estreia, goleada sofrida para a Holanda na segunda partida, e Bum-kun foi demitido. Restou a seu auxiliar, Kim Pyung-seok, companheiro de Cha Bum-kun em 1986, treinar os sul-coreanos contra a Bélgica – e até conseguir coisa melhor, no empate em 1 a 1.

Enfim, houve espaço para tudo entre os 91 nomes que jogaram e treinaram em Copas. Resta ver o que os dias seguintes revelarão a Cissé, Cherchesov e aos outros sete nomes que 2018 trouxe à lista abaixo – um dos quais, até, treinando a Polônia derrotada por Senegal: Adam Nawalka, zagueiro titular na Copa de 1978.

1950
Milorad Arsenijevic (técnico da Iugoslávia, jogou pelo país na Copa de 1930)

1954
Aleksandar Tirnanic (técnico da Iugoslávia, jogou pelo país na Copa de 1930)

1958
Karel Kolský (técnico da Tchecoslováquia, jogou pelo país na Copa de 1938)
Guillermo Stábile (técnico da Argentina, jogou pelo país na Copa de 1930)
Aleksandar Tirnanic (técnico da Iugoslávia, jogou pelo país na Copa de 1930)
Aurelio González (técnico do Paraguai, jogou pelo país na Copa de 1930)

1962
Prvoslav Mihajlovic (técnico da Iugoslávia, jogou pelo país na Copa de 1950)
Fernando Riera (técnico do Chile, jogou pelo país na Copa de 1950)
Giovanni Ferrari (integrante da dupla que treinou a Itália, jogou pelo país nas Copas de 1934 e 1938)

1966
Alf Ramsey (técnico campeão mundial pela Inglaterra, jogou pelo país na Copa de 1950)
Alfredo Foni (técnico da Suíça, jogou pela Itália na Copa de 1938)

1970
Raúl Cárdenas (técnico do México, jogou pelo país nas Copas de 1954, 1958 e 1962)
Orvar Bergmark (técnico da Suécia, jogou pelo país na Copa de 1958)
Juan Eduardo Hohberg (técnico do Uruguai, jogou pelo país na Copa de 1954)
Zagallo (técnico campeão mundial pelo Brasil, jogou pelo país nas Copas de 1958 e 1962)
Alf Ramsey (técnico da Inglaterra, jogou pelo país na Copa de 1950)
Didi (técnico do Peru, jogou pelo Brasil nas Copas de 1954, 1958 e 1962)

1974
Zagallo (técnico do Brasil, jogou pelo país nas Copas de 1958 e 1962)
Willie Ormond (técnico da Escócia, jogou pelo país na Copa de 1954)
Vladislao Cap (técnico da Argentina, jogou pelo país na Copa de 1962)

1978
José Antonio Roca (técnico do México, jogou pelo país nas Copas de 1950, 1954 e 1958)
Helmut Senekowitsch (técnico da Áustria, jogou pelo país na Copa de 1958)
Ernst Happel (técnico da Holanda, jogou pela Áustria nas Copas de 1954 e 1958)

1982
Jean Vincent (técnico de Camarões, jogou pela França nas Copas de 1954 e 1958)
Tim (técnico do Peru, jogou pelo Brasil na Copa de 1938)
Mauricio Rodríguez (técnico de El Salvador, jogou pelo país na Copa de 1970)
Kálmán Mészöly (técnico da Hungria, jogou pelo país nas Copas de 1962 e 1966)
José Santamaría (técnico da Espanha, jogou pelo Uruguai na Copa de 1954)
William “Billy” Bingham (técnico da Irlanda do Norte, jogou pelo país na Copa de 1958)

1986
Ivan Vutsov (técnico da Bulgária, jogou pelo país na Copa de 1966)
Cayetano Ré (técnico do Paraguai, jogou pelo país na Copa de 1958)
Henri Michel (técnico da França, jogou pelo país na Copa de 1978)
William “Billy” Bingham (técnico da Irlanda do Norte, jogou pelo país na Copa de 1958)
Franz Beckenbauer (técnico da Alemanha, jogou pelo país nas Copas de 1966, 1970 e 1974)
José Torres (técnico de Portugal, jogou pelo país na Copa de 1966)

1990
Josef Hickersberger (técnico da Áustria, jogou pelo país na Copa de 1978)
Olle Nordin (técnico da Suécia, jogou pelo país na Copa de 1978)
Franz Beckenbauer (técnico da Alemanha, jogou pelo país nas Copas de 1966, 1970 e 1974)
Luis Suárez Miramontes (técnico da Espanha, jogou pelo país nas Copas de 1962 e 1966)
Robert “Bobby” Robson (técnico da Inglaterra, jogou pelo país nas Copas de 1958 e 1962)
Jack Charlton (técnico da Irlanda, jogou pela Inglaterra nas Copas de 1966 e 1970)

1994
Henri Michel (técnico de Camarões, jogou pela França na Copa de 1978)
Tommy Svensson (técnico da Suécia, jogou pelo país na Copa de 1970)
Berti Vogts (técnico da Alemanha, jogou pelo país nas Copas de 1970, 1974 e 1978)
Dimitar Penev (técnico da Bulgária, jogou pelo país nas Copas de 1966, 1970 e 1974)
Jack Charlton (técnico da Irlanda, jogou pela Inglaterra nas Copas de 1966 e 1970)
Paul van Himst (técnico da Bélgica, jogou pelo país na Copa de 1970)
Jorge Solari (técnico da Arábia Saudita, jogou pela Argentina na Copa de 1966)

1998
Zagallo (técnico do Brasil, jogou pelo país nas Copas de 1958 e 1962)
Henri Michel (técnico de Marrocos, jogou pela França na Copa de 1978)
Cesare Maldini (técnico da Itália, jogou pelo país na Copa de 1962)
Herbert Prohaska (técnico da Áustria, jogou pelo país nas Copas de 1978 e 1982)
Hristo Bonev (técnico da Bulgária, jogou pelo país nas Copas de 1970 e 1974)
Paulo César Carpegiani (técnico do Paraguai, jogou pelo Brasil na Copa de 1974)
Cha Bum-kun/Kim Pyung-seok (treinaram a Coreia do Sul, jogaram pelo país na Copa de 1986)
Berti Vogts (técnico da Alemanha, jogou pelo país nas Copas de 1970, 1974 e 1978)
Glenn Hoddle (técnico da Inglaterra, jogou pelo país nas Copas de 1982 e 1986)
Henryk Kasperczak (técnico da Tunísia, jogou pela Polônia nas Copas de 1974 e 1978)
Daniel Passarella (técnico da Argentina, jogou pelo país nas Copas de 1978, 1982 e 1986)

2002
Morten Olsen (técnico da Dinamarca, jogou pelo país na Copa de 1986)
Cesare Maldini (técnico do Paraguai, jogou pela Itália na Copa de 1962)
Srecko Katanec (técnico da Eslovênia, jogou pela Iugoslávia na Copa de 1990)
José Antonio Camacho (técnico da Espanha, jogou pelo país nas Copas de 1982 e 1986)
Alexandre Guimarães (técnico da Costa Rica, jogou pelo país na Copa de 1990)
Rudi Völler (técnico da Alemanha, jogou pelo país nas Copas de 1986, 1990 e 1994)
Mick McCarthy (técnico da Irlanda, jogou pelo país na Copa de 1990)
Javier Aguirre (técnico do México, jogou pelo país na Copa de 1986)
Oleg Romantsev (técnico da Rússia, jogou pela União Soviética na Copa de 1982)

2006
Jürgen Klinsmann (técnico da Alemanha, jogou pelo país nas Copas de 1990, 1994 e 1998)
Alexandre Guimarães (técnico da Costa Rica, jogou pelo país na Copa de 1990)
Pawel Janas (técnico da Polônia, jogou pelo país na Copa de 1982)
Ilija Petkovic (técnico de Sérvia e Montenegro, jogou pela Iugoslávia na Copa de 1974)
Henri Michel (técnico da Costa do Marfim, jogou pela França na Copa de 1978)
Marco van Basten (técnico da Holanda, jogou pelo país na Copa de 1990)
Ricardo Lavolpe (técnico do México, jogou pela Argentina na Copa de 1978)
Zico (técnico do Japão, jogou pelo Brasil nas Copas de 1978, 1982 e 1986)
Jakob “Köbi” Kuhn (técnico da Suíça, jogou pelo país na Copa de 1966)
Oleg Blokhin (técnico da Ucrânia, jogou pela União Soviética nas Copas de 1982 e 1986)

2010
Javier Aguirre (técnico do México, jogou pelo país na Copa de 1986)
Diego Maradona (técnico da Argentina, jogou pelo país nas Copas de 1982, 1986, 1990 e 1994)
Huh Jung-moo (técnico da Coreia do Sul, jogou pelo país na Copa de 1986)
Fabio Capello (técnico da Inglaterra, jogou pela Itália na Copa de 1974)
Morten Olsen (técnico da Dinamarca, jogou pelo país na Copa de 1986)
Ricki Herbert (técnico da Nova Zelândia, jogou pelo país na Copa de 1982)
Vladimir Weiss (técnico da Eslováquia, jogou pela Tchecoslováquia na Copa de 1990)
Dunga (técnico do Brasil, jogou pelo país nas Copas de 1990, 1994 e 1998)

2014
Niko Kovac (técnico da Croácia, jogou pelo país nas Copas de 2002 e 2006)
Jürgen Klinsmann (técnico dos Estados Unidos, jogou pela Alemanha nas Copas de 1990, 1994 e 1998)
Marc Wilmots (técnico da Bélgica, jogou pelo país nas Copas de 1990, 1994, 1998 e 2002)
Didier Deschamps (técnico da França, jogou pelo país na Copa de 1998)
Safet Susic (técnico da Bósnia, jogou pela Iugoslávia nas Copas de 1982 e 1990)
Stephen Keshi (técnico da Nigéria, jogou pelo país na Copa de 1994)
Paulo Bento (técnico de Portugal, jogou pelo país na Copa de 2002)
Vahid Halilhodzic (técnico da Argélia, jogou pela Iugoslávia na Copa de 1982)
Fabio Capello (técnico da Rússia, jogou pela Itália na Copa de 1974)
Hong Myung-bo (técnico da Coreia do Sul, jogou pelo país nas Copas de 1994, 1998 e 2002)

2018
Stanislav Cherchesov (técnico da Rússia, jogou pelo país nas Copas de 1994 e 2002)
Juan Antonio Pizzi (técnico da Arábia Saudita, jogou pela Espanha na Copa de 1998)
Fernando Hierro (técnico da Espanha, jogou pelo país nas Copas de 1990, 1994, 1998 e 2002)
Didier Deschamps (técnico da França, jogou pelo país na Copa de 1998)
Óscar Ramírez (técnico da Costa Rica, jogou pelo país na Copa de 1990)
Mladen Krstajic (técnico da Sérvia, jogou por Sérvia e Montenegro na Copa de 2006)
Gareth Southgate (técnico da Inglaterra, jogou pelo país nas Copas de 1998 e 2002)
Aliou Cissé (técnico de Senegal, jogou pelo país na Copa de 2002)
Adam Nawalka (técnico da Polônia, jogou pelo país na Copa de 1978)

 

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