Também não foi uma estreia de Copa que intimidou Vinícius Júnior, confiante para ser essencial
Se a titularidade de Vinícius se tornou um ponto de mudança na escalação, sua boa estreia confirma de vez a vaga na ponta esquerda
Difícil imaginar que alguém que já decidiu final de Champions League se intimide com uma situação nova. Copa do Mundo, ainda assim, é outra história. A camisa da Seleção, com as cinco estrelas marcadas no peito, traz uma responsabilidade maior. Mas nada que tirasse o sorriso do rosto de Vinícius Júnior. Não foi a estreia no Mundial que tirou o sossego do camisa 20, escolha certeira de Tite na escalação brasileira. Esbanjou confiança, às vezes até excessiva. No fim das contas, fez o que precisava: ajudou a resolver. Se a atuação do ponta teve seus deslizes, inclusive literalmente, também teve acertos fundamentais. Os dois gols tiveram sua participação.
Vinícius Júnior está acostumado com o gigantismo desde cedo. Foi assim para quem estreou como prodígio num clube de massa como o Flamengo e de cara encantou. Lidou com muito ódio inexplicável e sempre respondeu na bola. A história do Real Madrid ou as cifras que o levaram para a Espanha também não o apequenaram. Precisou encarar as críticas e amadurecer seu próprio futebol. De novo, seria contundente para impor seu estilo leve e na mesma proporção incisivo. Ficou enorme sobretudo desde a temporada passada.
E a amarelinha da seleção brasileira caía bem em Vinícius. Isso desde as categorias de base, quando fazia maravilhas com o sub-17 e, afinal, atraía o interesse dos endinheirados clubes europeus. As chances cresceram nos últimos meses, até o momento em que parecesse um disparate ter um jogador como ele, na fase que vivia no Real Madrid, só como opção no banco de Tite. A promoção para o 11 inicial do Brasil nada mais era que uma escolha natural. Como sempre, Vini providenciou a resposta com seus pés.
A segurança de Vinícius Júnior estava expressa desde suas primeiras jogadas contra a Sérvia. Partiu para cima e deu seu cartão de visitas contra Andrija Zivkovic. O jogo duríssimo no primeiro tempo dependeu das escapadas do camisa 20. Os lances mais perigosos do Brasil estavam na conta do ponta esquerda, com seus avanços pela linha de fundo e a ótima leitura dos espaços. Foi quem mais deu trabalho ao goleiro Vanja Milinkovic-Savic. Mais do que isso, Vini não fugiu do pau. Ajudou demais nos combates, nos desarmes. O porém ficou mesmo num excesso de confiança, quando poderia soltar mais a bola. Faltava também circular um pouco mais pelo meio, embora a formação sérvia pedisse um posicionamento mais agudo do atacante.
O segundo tempo se abriu para o Brasil. A saída de Nemanja Gudelj, sobretudo, se tornou cabal para que os brasileiros desmontassem o trio de zaga da Sérvia. Vinícius Júnior se sentiu ainda mais à vontade. Os dois gols tiveram o seu carimbo. Na jogada de habilidade de Neymar, o camisa 20 teve o gatilho rápido para bater cruzado e exigir a defesa de Vanja Milinkovic-Savic. Esperto no rebote, Richarlison abriu o cadeado com oportunismo. E se o segundo gol entra para a história do Brasil nas Copas como um dos mais bonitos já assinalados, pelo voleio exuberante do Pombo, Vini deu sua pitada de categoria com o passe de trivela. Preciso.
Vinícius Júnior poderia até fazer mais, se a pontaria estivesse um pouco mais afiada e se não escorregasse naquela bola em que invadiu a área com liberdade. Nenhum outro jogador, porém, participou mais das ações ofensivas do Brasil. O camisa 20 ainda deu quatro passes para conclusões dos companheiros, o mais criativo nesse quesito. Não é coincidência também que Nikola Milenkovic, o zagueiro que fechava o lado direito da zaga sérvia, tenha sido o mais exigido ao longo da noite.
Na saída de campo, o sorriso de Vinícius Júnior prevalecia: “Estou muito feliz com a minha estreia, com a vitória. Começamos com o pé direito e não tem coisa melhor. Esperei 22 anos pra chegar numa Copa do Mundo, com muito sonho, com muito trabalho. Fico feliz de estrear com vitória e ajudar a equipe, nesse primeiro passo de outros sete”.
De fato, ainda é só o primeiro jogo dos sete que a Seleção tem como ambição. Vinícius Júnior terá outros desafios para se provar e, óbvio, corre o risco de oscilar. O começo, de qualquer forma, não poderia ser mais promissor. Não teve peso da estreia, não teve medo do adversário. Contra aquele que era potencialmente o time mais duro do Grupo G, e que realmente dificultou na marcação, a qualidade de Vinícius prevaleceu. E a titularidade, o tema principal de debate às vésperas da estreia, agora mais parece fato consumado.



