Copa do Mundo

Suárez: uma atuação melancólica de alguém que sempre pode reagir

Entre os veteranos que dançarão pela última vez no Catar, Suárez foi o que teve a estreia mais inofensiva

A Copa do Mundo de 2022 é especialmente rica em personagens veteranos, com o sol às costas, em uma última dança mundialista. Messi e Cristiano Ronaldo são os maiores responsáveis por isso. Bale e Thomas Müller também. E, entre outros, tem Luisito Suárez, este o alvo de uma pensata separada, particular: entre todos os veteranos, o pistoleiro uruguaio foi o único que exibiu para o mundo a figura de um tigre sem dentes – não que caiba bem a metáfora desdentada a um atleta com cartel de mordidas em rivais que muitos cachorros não conseguiram na vida. Não é que os outros foram muito bem. Ele é que destoou, brigou com a linha de fundo, tropeçou no tempo, atacou zagueiros adversários como um touro pacífico.

A geração imediatamente anterior a dos supracitados não pegou esta Copa para si. Os nascidos no começo dos anos 90, como Hazard, Griezmann, Kane, Lukaku, o lesionado Pogba e Neymar, acostumados à manchete secundária enquanto o argentino e o português controlaram a narrativa e a bola, agora disputam protagonismo com uma nova geração muito ruidosa que nasce para a Copa causando impacto imediato – Mbappé já levantou até a taça, e, mais jovens que ele, alguns prodígios brasileiros, espanhóis, franceses, refrescam os condicionados ares do Catar. Apartado dessa corrida pela Bola de Ouro ou mesmo pela seleção do torneio, enquanto Bale e Cristiano ganham pênaltis para brilhar, está Suárez.

Quem se põe dentro do coração de seus jogadores preferidos e o fez com o atacante uruguaio, se entristeceu no último dia da primeira rodada. Luisito, um tipo feroz, possesso, competitivo no limite da inconsequência, mostrou ao mundo inteiro, contra a mesma Coreia que saiu da Copa de 2010 graças a um gol dele, que sua história mundialista é um quadro na parede. Não é preciso que ninguém o diga. Ele sabe que não conseguiu exibir qualquer cacoete do atleta faminto que sempre foi. Não deu sinais de estar à altura da maior competição do mundo. E isso dói, certamente, mais nele do que em qualquer um.

Suárez foi o goleiro improvável de 2010, e reencontrará Gana. Também está marcado um reencontro com Portugal, eliminado pelos uruguaios em 2018. São chances de Suárez reposicionar sua última imagem mundialista, e não convém duvidar totalmente de sua capacidade de reação. Sua história em 2014, vencendo de maneira cinematográfica uma lesão para despachar a Inglaterra da Copa, é exemplo disso. Naquele torneio, Suárez acabou expulso, despachado para o aeroporto como um ilegal, após a infame dentada em Chiellini. Altos e baixos que montam a mitologia do artilheiro de Salto.

Se houver mais uma história do tipo, é só retificar. A memória, afinal, é uma ilha de edição, e os grandes personagens da história da Copa merecem um esforço da nossa parte. Um esforço, mas não a mentira: a verdade é que todos os movimentos de Suárez contra a Coreia foram melancólicos. O tempo é implacável, mas não precisamos encará-lo sempre com sabedoria. Queria o Suárez pelo qual me apaixonei.

Foto de Leandro Iamin

Leandro Iamin

Jornalista, 35, fundador da Central 3, e espera viver pra ver o São José na elite de novo.
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