Copa do Mundo

As semifinais que separaram os caminhos de duas lendas: Maradona e Platini

O dia foi o mesmo: 25 de junho de 1986. O país também, afinal, naquela época, ainda se fazia Copa do Mundo em um único lugar. Mas os caminhos que dois grandes craques da década de oitenta tomaram foram diferentes. Naquele dia, no México, separaram-se nos livros de história. No Azteca, Diego Armando Maradona agigantou a sua lenda ao comandar a vitória da Argentina sobre a Bélgica e classificar a seleção sul-americana à final. No Jalisco de Guadalajara, Michel Platini sucumbiu contra a Alemanha Ocidental e encerrou a sua carreira, pouco depois, sem um título mundial.

A derrota dos franceses para os alemães impediu que a decisão do Mundial mexicano fosse um espetacular tira-teima entre Maradona e Platini. Ambos haviam passado os últimos dois anos duelando pelo título italiano. O argentino no Napoli, o europeu na Juventus. A temporada havia terminado com título da Velha Senhora, com a ajuda de 12 gols de Platini, que havia sido o artilheiro da edição anterior, com 18. Maradona contribuíra com 11 tentos para terceiro lugar do Napoli, a seis pontos da campeã.

Platini, cinco anos mais velho que Maradona, caminhava para o fim da carreira. A aposentadoria seria anunciada 12 meses depois daquelas semifinais. Foi campeão europeu em 1984 e bateu na trave duas vezes na Copa do Mundo. Quando a Argentina conquistou seu primeiro título do torneio, a França de Platini caiu na fase de grupos. E nela, enfrentou a dona da casa na segunda rodada. Perdeu, por 2 a 1, embora Platini tenha deixado a sua marca. Quatro anos depois, na Espanha, já como capitão, liderou o time às semifinais.

Perdeu em um dos grandes jogos do século passado. Ele foi um dos melhores em campo contra a Alemanha Ocidental. A França chegou a abrir 3 a 1 na prorrogação, mas a Alemanha empatou e levou a disputa para os pênaltis. E a venceu. Em 1986, agora um veterano, abriu o placar contra a Itália, então atual campeã, nas oitavas de final. A França venceu por 2 a 0. Na fase seguinte, fez o gol de empate contra o Brasil e, embora tenha desperdiçado o seu pênalti na disputa derradeira, alcançou a semifinal, novamente contra os alemães.

Em 1978, Maradona já despontava como uma grande promessa, mas ainda tinha apenas 18 anos. Foi preterido por César Luis Menotti e não pode comemorar o primeiro título mundial, conquistado em casa. No Mundial da Espanha, já era craque. Foi titular nas cinco partidas da Argentina, sem nunca ter sido substituído. Só não disputou os 90 minutos de todas porque foi expulso, aos 40 minutos do segundo tempo, quando o Brasil vencia o confronto do triangular das quartas de final por 3 a 0.

No México, era um craque maduro e, não à toa, recebe os méritos pela campanha da Argentina. Além de contribuir com a classificação ao mata-mata, marcou aqueles dois gols contra a Inglaterra – o de mão e o da arrancada. Na semifinal contra a Bélgica, fez novamente dois gols. O primeiro, muito bonito. O segundo, um golaço, costurando a defesa belga. Na decisão contra a Alemanha, não brilhou tanto, mas deu um passe genial para Burruchaga fazer o gol da vitória por 3 a 2. O gol do título.

Maradona disputaria mais duas Copas do Mundo. Na Itália, praticamente em casa, já que defendia o Napoli há seis anos, ainda conseguiu mais uma final para a Argentina, antes de encerrar a história em palcos internacionais em desgraça, com o doping de 1994. Platini não conseguiu fazer a França quebrar a barreira das semifinais. Aposentou-se com uma grande carreira em clubes, mas sem conseguir a maior glória com a seleção. Ela viria apenas em 1998, com um time comandado por outro craque francês.

O que esperar do jogo de 2018?

As trajetórias das seleções na Rússia foram absolutamente distintas. A França não teve problemas para se classificar, com vitórias contra Austrália e Peru. Foram partidas em que mesclou poucos momentos de brilho com uma preguiça danada. Ainda assim, sofreu pouco, e se deu ao luxo de poupar jogadores e fazer um jogo de compadres com a Dinamarca. No entanto, ainda não provou que, coletivamente, é uma equipe forte. Teve alguns espasmos de Paul Pogba, atuações regulares de Kanté, mas precisou recorrer a Olivier Giroud mais vezes do que se esperava. O ataque com Dembélé, Mbappé e Griezmann ainda não encaixou à perfeição.

A Argentina sofreu muito mais. Ficou no empate com a Islândia na estreia e perdeu de lavada da Croácia na segunda partida. Chegou ao último jogo muito ameaçada. Jorge Sampaoli fez mudanças na equipe, reforçou o meio-campo com três meias e conseguiu uma atuação aceitável contra a Nigéria. Mesmo assim, a vaga veio apenas aos 41 minutos do segundo tempo, com um gol de Rojo em cruzamento de Mercado. A boa notícia foi que finalmente se viu um Lionel Messi mais solto.

Ambos, portanto, decepcionaram na fase de grupos – a Argentina mais do que a França evidentemente – e precisam se provar nas oitavas de final. Os franceses têm a missão de apagar as manchas do ciclo, principalmente a derrota na decisão da Eurocopa, em casa, mas também uma campanha das Eliminatórias irregular, em que até empatou, em casa, com Luxemburgo. Os argentinos têm que mostrar que as dificuldades ficaram na fase de grupos e que este elenco é capaz de superar os inúmeros problemas e se tornar um time vencedor.

Sampaoli tem apenas uma dúvida. A expectativa é que utilize Messi como atacante mais avançado, com os apoios de Pavón e Di María pelos lados. A famosa posição de “falso 9”, que funciona bem no Barcelona porque a bola costuma chegar a ele em posições favoráveis, o que ainda não se viu na seleção argentina. A França pode entrar com Griezmann atrás de Giroud, dois pontas (Dembélé e Mbappé) e apenas Kanté e Pogba, o que pode abrir espaço para Messi trabalhar entre as linhas de defesa e meio-campo. A chave seria a capacidade do volante do Chelsea de cobrir esses espaços quase sozinho, uma vez que Pogba é um volante de muita chegada à frente.

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Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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