San Sebastián: O paraíso basco que virou resistência contra a Copa do Mundo de 2030
Moradores da charmosa cidade costeira rejeitam o megaevento esportivo e denunciam os impactos sociais e ambientais que ele pode trazer ao local
Em um movimento simbólico de resistência, que contraria o entusiasmo típico por sediar um evento esportivo global, moradores de San Sebastián, no País Basco — região autônoma localizada no norte da Espanha —, decidiram desafiar a “agenda positiva” do futebol internacional. No início de abril, seis associações comunitárias enviaram uma carta conjunta à Fifa solicitando que a cidade seja retirada da lista de sedes da Copa do Mundo de 2030.
San Sebastián está entre as 11 sedes espanholas do Mundial, que também será realizado em Portugal e no Marrocos. O Estádio Anoeta, casa da Real Sociedad, receberá os jogos do torneio no paraíso basco.
Paraíso esse, que, com cerca de 190 mil habitantes, é conhecido por sua alta qualidade de vida, gastronomia premiada e paisagens deslumbrantes que mesclam mar e montanha. Trata-se de um dos destinos turísticos mais valorizados no território espanhol.

A iniciativa, que mistura consciência social, ambiental e política, lança luz sobre os dilemas e resistências locais diante da grandiosidade da competição. No documento publicado, os grupos de moradores expressam preocupação com os impactos negativos do turismo de massa. Na visão deles, com a realização da Copa, esses impactos serão intensificados e a qualidade de vida na região sofrerá ainda mais danos.
A Trivela foi atrás dessa história para entender melhor. Afinal, o que levou parte da população de San Sebastián a dizer “não” à Copa do Mundo? E quais vozes sustentam essa resistência no coração do País Basco?
Em entrevista à reportagem, Nerea Arregi, membro do “BiziLagunEkin”, plataforma de ativismo e protesto que se concentra nas consequências do turismo de larga escala em San Sebastián, explicou a decisão do grupo de se dirigir à Fifa. A entidade, até o momento, não respondeu à carta.
— Acreditamos que os efeitos de atrair o segundo maior evento esportivo do mundo para a nossa cidade, que já está sofrendo um processo de turistificação, podem ser dramáticos: o agravamento da emergência habitacional, o crescimento da atividade turística, a mercantilização do espaço urbano, o desenvolvimento de infraestruturas de transporte insustentáveis e as medidas de securocracia que condicionarão a vida da população. Isso piorará as condições dos moradores — iniciou.

Para muitos moradores e estudiosos críticos do turismo em massa, a realização da Copa do Mundo representa um catalisador para a turistificação da cidade em que ela está inserida.
A turistificação é o processo de transformação de um território — geralmente urbano — impulsionado pela intensificação do turismo, como resultado do desenvolvimento e da promoção contínua da atividade turística.
É o que detalha Nerea, que aponta como a competição de seleções pode aprofundar a dependência econômica do turismo e comprometer os interesses da população local de San Sebastián.
— (A Copa) levará a um aumento do número de visitantes nos dias dos jogos, bem como nos anos seguintes, devido ao impacto do evento. Em segundo lugar, levará a um aumento e à ativação de infraestruturas e recursos para a recepção e o gerenciamento de turistas, tanto privados quanto públicos. Isso tornará o turismo ainda mais central para o modelo econômico e a vida social da cidade.
— Em terceiro lugar, será implementada uma estratégia pública e privada de promoção do turismo, envolvida nos valores do esporte e no marketing do espetáculo. Enquanto isso, sob o pretexto desse evento, os líderes institucionais que governam a serviço da indústria do turismo justificarão todos os recursos públicos, orçamentos e infraestruturas fornecidos a esse setor. Em suma, os recursos da cidade serão usados em benefício da indústria do turismo, e está claro que o povo de San Sebastián sairá perdendo nesse aspecto.
‘A consequência será o colapso’: Entendendo o turismo de massa em San Sebastián
— No relatório de avaliação da candidatura publicado pela Fifa em novembro de 2024, afirma-se que o número de locais de hospedagem em San Sebastián é insuficiente para o número de visitantes que se espera que o atraia para a Copa do Mundo. Se seis anos antes da realização da Copa, a organização prevê uma superlotação e saturação de nossos territórios já afetados por graves problemas de turismo, a consequência é clara: o colapso.
O forte diagnóstico de Nerea vai de encontro com as preocupações já expressas por diversos setores da sociedade civil e por especialistas em planejamento urbano e turismo sustentável. A cidade está passando por um processo de turistificação desenfreada, que se acelerou consideravelmente na última década e vem causando sérios danos à população local.
Por isso, do que depender do “BiziLagunEkin” e das associações de moradores, a Copa do Mundo de 2030 não acontecerá naquela região. Entre 2015 e 2024, o turismo por lá cresceu quase 78%, número alarmante, que preocupa os locais.

Celebrado por suas praias, como La Concha, seus festivais culturais de prestígio internacional, como o Festival de Cinema, e sua vibrante cena culinária, que ostenta alguns dos melhores restaurantes do mundo, inclusive estrelados pelo Guia Michelin, San Sebastián tem atraído um enorme número de visitantes, o que elevou os preços dos imóveis e intensificou a pressão sobre os moradores.
O crescimento exponencial do turismo definitivamente redefiniu a dinâmica urbana. Assim, a cidade vem sendo moldada por uma lógica econômica voltada quase exclusivamente para a atividade turística.
— Entre 2015 e 2024, o número de hotéis na cidade aumentou em 40,3%. As chegadas de turistas aumentaram 77,8%, sendo 35,8% no caso de turistas da Espanha e 120,9% no caso de turistas estrangeiros. Isso teve um impacto, por exemplo, no preço da moradia, já que, devido às novas lógicas de acomodação impulsionadas pela economia de plataforma, a moradia se tornou um ativo de interesse econômico — pontuou Nerea.
Outros resultados dessa turistificação? Muitos habitantes são forçados a deixar San Sebastián ou se deslocar para bairros periféricos, devido à impossibilidade de arcar com os custos imobiliários crescentes. O espaço público tem sido adaptado para atender ao visitante e não ao morador.
— Os habitantes locais estão sendo expulsos da cidade, o espaço público é transformado de acordo com os interesses comerciais, as infraestruturas são projetadas de acordo com as necessidades do setor de turismo, e o idioma e a cultura locais são fetichizados para fins de marketing.
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Prefeito é a favor da Copa em San Sebastián
A luta contra a realização da Copa em San Sebastián não é tarefa simples. O próprio prefeito da cidade, por exemplo, defende que o paraíso basco receba o Mundial. Eneko Goia, do Partido Nacionalista Basco (EAJ-PNV), fez críticas à carta e argumentou que acolher eventos internacionais é positivo para o local e motivo de orgulho.
— Se dependesse deles (associações de moradores), não teríamos nem projeção global — declarou o prefeito de San Sebastián.
O posicionamento do político frustrou, mas não surpreendeu o “BiziLagunEkin” e as associações. Segundo Nerea, a postura do poder público tem sido a de minimizar ou negar os efeitos da turistificação. Na prática, seguem favorecendo os interesses da indústria do turismo e ignorando a angústia da população.
— Os administradores públicos passaram a negar o problema da turistificação, fingindo que tomam medidas para enfrentá-lo. Na realidade, continuam a não impor limites aos negócios da indústria do turismo e a priorizar os interesses econômicos de uma minoria em detrimento das condições de vida da maioria da população daqui. O fato de San Sebastián ser uma das sedes da Copa do Mundo é mais uma medida nessa direção do crescimento do turismo. Os responsáveis pela cidade “se fazem de surdo” às preocupações expressas em todas as pesquisas de opinião e mobilizações sociais. E se limitam a desqualificar os movimentos populares organizados para defender seus bairros, sua cidade e suas próprias vidas — explicou.
Questionada sobre o apoio da população de San Sebastián às iniciativas contra o turismo excessivo, Nerea mencionou pesquisas que indicam um desconforto crescente entre os moradores. Embora o discurso oficial ainda privilegie os supostos benefícios do setor, dados demonstram o contrário disso.
— Há muito tempo existe um debate social em San Sebastián sobre as consequências negativas da turistificação. Embora o discurso institucional e midiático hegemônico enfatize os benefícios do turismo, os cidadãos têm demonstrado, sempre que possível, sua preocupação e desconforto com o que está acontecendo. Várias pesquisas realizadas pela própria Prefeitura e pela Universidade do País Basco mostraram que 75% da população acredita que a atividade turística na cidade não deve crescer, e 82% considera o turismo um dos maiores problemas que sofremos.

Há apoio político para essas reivindicações?
Apesar da aflição de boa parte da população, o “BiziLagunEkin” praticamente não recebe amparo político. Nerea cita um tímido respaldo vindo de partidos de esquerda — oposição ao governo municipal —, mas deixa claro que a luta é protagonizada por “grupos independentes de moradores com diferentes ideologias”.
— A carta foi assinada pelo BiziLagunEkin e pelas associações de moradores de seis bairros (Parte Vieja, Intxaurrondo Viejo, Ulía, Paseo de Heriz e Herrera). Somos grupos independentes de moradores com diferentes ideologias e perfis que se organizaram para defender nossos bairros e nossas condições de vida. Temos nossa própria opinião e a fazemos ser ouvida na cidade.
— Os partidos que apoiam o governo municipal têm se fingido de surdos às nossas demandas há anos. Os partidos políticos de esquerda na oposição têm demonstrado sua preocupação com a turistificação e o modelo atual da cidade, embora não tenham se declarado expressamente a favor ou contra nossa petição.
O silêncio do poder público incomoda, mas o “BiziLagunEkin” promete seguir promovendo debates, organizando assembleias e distribuindo materiais informativos. O objetivo é conscientizar mais moradores e pressionar o governo a rever as políticas urbanas e turísticas atuais.

Moradores de Barcelona também protestam contra turismo de massa
Não é só San Sebastián que sofre com o turismo em massa na Espanha. Barcelona vem passando pelo mesmo problema. Desde o ano passado, manifestantes marcharam pelas ruas do centro da cidade catalã gritando para os turistas que os filmavam: “Voltem para casa! Suas férias são a nossa miséria”.
Casais surpresos, acomodados nas mesas dos cafés ao ar livre, foram alvo de jatos d’água disparados por pistolas de brinquedo. Assim como no caso do paraíso basco, o movimento dos catalães exige uma reformulação do modelo econômico da região, argumentando que o turismo em massa piora a crise de moradia e coloca em risco a identidade urbana.
Não houve carta à Fifa, mas os moradores de Barcelona certamente também se preocupam com a Copa do Mundo de 2030, já que Camp Nou (casa do Barcelona) e RCDE Stadium (casa do Espanyol) devem receber jogos do torneio.



