Salvador ainda não tem metrô: tem um ferrorama
SALVADOR – A espera foi longa demais, e o resultado, decepcionante. Catorze anos depois do início das obras, Salvador enfim tem um metrô. A Linha 1 foi inaugurada na última quarta-feira, com a presença da presidente Dilma Rousseff. Mas a boca do povo, essa cruel fonte de piadas, deu um nome diferente para o novo meio de transporte da capital baiana. Muitos dos soteropolitanos chegados a uma ironia estão chamando-o de “ferrorama”.
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E não é por pura maldade. Porque, em 14 anos, Salvador ganhou apenas quatro estações de metrô. Começa na Lapa, região central, e vai subindo por Campo da Pólvora, Brotas e Acesso Norte. São 5,6 quilômetros de trem, em uma cidade com 630 mil metros quadrados. Esse número sobe para 7,3 quilômetros no fim de junho, quando a estação do Retiro for inaugurada.
“A verdade é que liga nada a porra nenhuma”, diz o estudante de direito Daniel Miguel, 26 anos. Também ressaltou que o trânsito de Salvador, uma reclamação constante de moradores e taxistas, autoridade em qualquer tipo de assunto, está ficando impraticável. “Qualquer lugar a que você vai em Salvador, tem engarrafamento. Daqui a pouco, vai ficar que nem São Paulo, com rodízio”, completa.
Ao menos, o metrô de Salvador liga a casa de Manuela Santos, 30 anos, na Lapa, ao seu trabalho de administradora no Campo da Pólvora. “Para mim, é ótimo. Eu não preciso pegar o engarrafamento. Eu poderia ir a pé, mas chego toda suada. Gostei. Para mim, ajuda”, explica, sem antes dar uma cutucada no atraso. “Quando fiquei sabendo do metrô, era adolescente. Hoje sou adulta, casada, e só agora estou vendo o metrô”, continua.
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A promessa do governo do Estado, que assumiu a obra da prefeitura ano passado, é completar a Linha 1, planejada para alcançar Pirajá, mais ao norte da cidade, em 2015. Um professor que passava pelo Campo da Pólvora acredita que o governador Jaques Wagner, inclusive, é o principal responsável por tirar a obra do papel. Ele não quis se identificar, mas parecia conhecer todo mundo. Era cumprimentado a cada cinco segundos pelos pedestres. “Foi por causa de Wagner que (o metrô) inaugurou. Os outros governos tiveram dinheiro na mão e não fizeram nada”, conta.
Alheio a questões políticas ou práticas, Leandro Bonfim, eletrotécnico de 32 anos, queria apenas se divertir. Acompanhado da mulher, compareceu à inauguração, na quarta-feira, e na última quinta voltou ao metrô, apenas para passear, com os colegas do trabalho. Subiu ao trem no Campo da Pólvora. “Vamos pegar até a Lapa e depois voltar. Assim fazemos todo o percurso”, anunciou ao grupo que o acompanhava. Por que tanta vontade de andar de trem? “É a novidade. Ainda é pequeno, mas vai ajudar (a cidade). E se precisarem, eu posso olhar a parte elétrica”, afirma Leandro, feliz por mais uma vez poder brincar de ferrorama.
Atualizada em 16 de junho, às 9h49: realmente, o governo assumiu a obra apenas no ano passado das mãos da prefeitura. Peço desculpas pelo erro.



