Copa do Mundo

Richarlison emergiu da defesa sérvia como camisa 9 e marcou o gol mais bonito da Copa (até agora)

O centroavante da seleção brasileira resolveu um jogo difícil na estreia da Copa do Mundo com dois gols - um deles, uma pintura

Os primeiros 45 minutos de Richarlison em Copas do Mundo foram difíceis. Entre os três zagueiros da Sérvia, superiores fisicamente, mal tocou na bola, muito menos teve chance de fazer o que se espera de um camisa 9. A partida estava acirrada, equilibrada, nervosa, e talvez ele fosse o primeiro da fila para ser substituído. Ainda bem que não foi. Abriu o placar para a seleção brasileira com oportunismo e depois mostrou qualidade (que muitos acham que não tem) para anotar o gol mais bonito da primeira rodada da Copa do Mundo do Catar.

Richarlison chegou no começo do último ciclo. Antes da Copa do Mundo de 2018, havia feito uma temporada razoável pelo Watford, que chamou a atenção do Everton. Foi contratado por quase € 40 milhões, valor até considerado alto na Inglaterra. Durante quatro anos, cresceu para ser o principal jogador do quarto maior campeão inglês, com 53 gols em 152 partidas, muitos decisivos, sempre lutando, brigando e entregando tudo. Não à toa virou um dos favoritos da torcida.

Enquanto isso, cavava seu espaço na seleção. Estreou logo depois do Mundial da Rússia, em setembro de 2018, em amistoso contra os Estados Unidos. No jogo seguinte, marcou duas vezes em El Salvador, os primeiros dos 19 gols com seu nome neste ciclo. Ainda era mais um jogador de lado de campo até porque no Everton abria espaço para Dominic Calvert-Lewin, com o qual fez boa dupla. Foi pouco a pouco sendo mais usado como atacante, às vezes junto com ele ou substituindo-o quando estava machucado, e isso também aconteceu na seleção brasileira.

Uma das conversas da Copa do Mundo de 2018 foi sobre o papel do camisa 9. Gabriel Jesus tem muitas qualidades e no geral é um dos jogadores mais importantes de todo o trabalho de Tite. Não estava com o pé especialmente afiado na Rússia, onde não fez nenhum gol, e também não se fixou como artilheiro no Manchester City. Antes titular incontestável, perdeu espaço. Gabigol teve suas chances, Roberto Firmino também, e no fim quem assumiu a posição foi Richarlison. Ele começou jogando assim quatro dos últimos cinco jogos do Brasil antes da Copa, com seis gols e uma assistência.

Durante as últimas semanas de expectativa, virou preocupação. O destaque pelo Everton valeu transferência ao Tottenham, que briga por vaga na Champions League e tem ambições ainda maiores. Chegou inicialmente para ser uma opção ofensiva em um trio de ataque que geralmente tem Harry Kane, Son Heung-min e Dejan Kulusevski. Foi titular em nove dos 15 jogos que fez, quatro vezes na Champions League, mas assustou ao sair machucado de uma vitória sobre o Tottenham, em meados de outubro.

Não foi nada muito sério, porém. Ficou afastado apenas duas semanas e ainda atuou na última rodada da Premier League antes da paralisação para a Copa do Mundo. Esse tempo afastado pode até ter tido um peso nas dificuldades que encontrou na etapa inicial, embora realmente não fosse um bom encaixe. É verdade que ele é bom de briga, tem físico forte e é determinado, mas dois zagueiros da Sérvia são quase dez centímetros mais altos e fortes para burro.

Poucas vezes recuou para a entrada da área para tentar trabalhar a jogada com Neymar, Raphinha e Vinícius Júnior e estava começando a parecer que teria uma estreia apagada em Copas do Mundo quando Vini completou a arrancada de Neymar, Milinkovic-Savic deu rebote, e Richarlison apareceu no lugar certo e na hora certa para completar. Um gol de posicionamento, oportunismo e principalmente de quem está sempre ligado na partida, mesmo que as coisas não estejam dando certo.

O brilhantismo surgiu dez minutos depois. Vinícius deu um passe com a parte de fora do pé para ele, posicionado nos arredores da marca do pênalti, mais perto da linha da área. Dominou para cima com a perna esquerda. Estava de costas para o gol. Girou, porém, com muita agilidade para interceptar a bola que havia acabado de começar a descer e acertou um chute firme, forte, preciso, com a perna direita, no canto do goleiro da Sérvia.

Mesmo que em algumas configurações o camisa 9 tenha funções que vão além de colocar a bola na rede, é sempre bacana quando ele o faz. E quem acompanha futebol casualmente e pira na Copa do Mundo sempre esperará que o centroavante faça gols, lembrando artilheiros do passado como Romário e Ronaldo. Richarlison não é desse nível, talvez nunca seja, mas começou sua história na Copa do Mundo fazendo o que tinha que fazer.

Foto de Bruno Bonsanti

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

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