O recorde que Sánchez não quebrou: Os 54 segundos na expulsão de Batista, em 86
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Carlos Sánchez tomou uma decisão impensada em Saransk. Deixou o impulso tomar conta de si, em ato que adiou o primeiro gol do Japão apenas por alguns instantes, assim como condicionou o jogo da Colômbia pelo restante do tempo. Seus 176 segundos em campo foram o suficientes para determinar a ruína dos Cafeteros, expulso pelo toque com o braço, e entrar para os livros de história das Copas do Mundo. Foi o quarto pênalti mais rápido já gerado em Mundiais – e, ainda assim, o segundo desta Copa, atrás do cometido por Nacho Fernández no Espanha 3×3 Portugal. Também proporcionou a segunda expulsão mais rápida da competição. Em questão de impulsividade e falta de raciocínio, perde apenas para José Batista e a ira que desatou em 54 segundos durante a Copa de 1986.
Pela terceira rodada da fase de grupos, o Uruguai enfrentava a Escócia. Precisava de um bom resultado para conquistar a classificação às oitavas de final. Apesar do empate com a Alemanha Ocidental na estreia, a Celeste tomou um vareio na significativa goleada da Dinamarca por 6 a 1. E quando se esperava uma atuação mais centrada dos uruguaios no compromisso decisivo, eis que Batista apresentou suas credenciais aos adversários. Com menos de um minuto, deu um carrinho por trás em Gordon Strachan, um dos principais jogadores escoceses. Enquanto o camisa 7 permanecia estirado, o árbitro Joël Quiniou mostrava o vermelho ao camisa 6 charrua, sob protestos inúteis do capitão Jorge Barríos e do craque Enzo Francescoli.
“Foi uma jogada desafortunada, a adrenalina da partida e do começo… Mas o árbitro se equivocou mais do que eu. Faz anos que não vejo esta jogada. Estava jogando de lateral, pela esquerda, quando vi o escocês e surgiu a oportunidade de chegar à bola antes que ele. Eu cheguei primeiro, mas de carrinho, bem forte. A partida tinha acabado de começar. Creio que nem alcancei a bola. Acertei bem mais a perna deste homem. A queda foi bastante espalhafatosa e então o árbitro me expulsou. Foi uma má expulsão. Mas, claro, é preciso estar neste momento e interpretar a jogada”, descreveu Batista, em entrevista ao jornal El País, em 2006.
“Ninguém entendia a decisão! Como podem te expulsar aos 54 segundos? Está bem que me dê o amarelo, já me condiciona ao resto da partida. Mas ser expulso… Não foi uma jogada tão importante, por assim dizer. Fui uma vítima e o árbitro teve muita coragem. Em nenhum momento tive a má intenção de acertar o adversário. Algumas pessoas nem tinham se sentado para ver o jogo e eu já tinha sido expulso. Fui para o vestiário e o roupeiro me perguntou o que eu estava fazendo. ‘Fui expulso’, respondi. Ele não acreditou em mim. Perguntou como poderia ter sido expulso, se ainda estavam executando os hinos. Ele teve que olhar pela janela dos vestiários para perceber que eu estava dizendo a verdade”, complementou.
Mesmo jogando com um a menos durante tanto tempo, o Uruguai conseguiu se safar, em duelo de mais entradas ríspidas (sem novas expulsões) e animosidades entre as duas equipes. A Celeste segurou o empate por 0 a 0 e seus dois pontos acabaram sendo suficientes para a classificação como um dos melhores terceiros colocados. Nas oitavas, porém, pegou a Argentina e logo se despediu do torneio diante dos futuros campeões. Na saída de campo após o empate com a Escócia, o técnico charrua, Omar Borrás, afirmou que o árbitro francês “foi um assassino” e que “houve um crime em campo”, sem medir as palavras que poderiam recair sobre Batista. Enquanto isso, Sir Alex Ferguson acusava seus adversários de tornarem o jogo em farsa, pelo comportamento agressivo. “Não é apenas uma parte do futebol, é a atitude sanguinária de toda uma nação. Eles não têm respeito pela dignidade das outras pessoas, é uma desgraça o que fizeram. Eu não posso desejar boa sorte ao Uruguai, porque não merecem”, apontou. Na última colocação, os escoceses estavam eliminados.
Batista tinha 24 anos quando disputou a Copa do Mundo de 1986. Revelado pelo Cerro e com passagem pelo Peñarol, na época o lateral defendia o Deportivo Español, que vivia bom momento no Campeonato Argentino, e ganhou espaço às vésperas do Mundial pelo sucesso no clube. Nos vestiários, ganhou o apoio do técnico e dos companheiros, assim como foi defendido pela imprensa de Montevidéu. Sua carreira, entretanto, nunca teria outro momento tão relevante. Permaneceu nas convocações até 1993. Rodou por clubes de Uruguai e Argentina, até se aposentar no início dos anos 2000. Anotou 60 gols em 22 anos como profissional. Além disso, segundo suas próprias contas, foi expulso “mais três ou quatro vezes”. Nos últimos anos, passou a trabalhar como treinador.
Diferentemente de Carlos Sánchez, Batista acabou bem mais marcado pela expulsão do que por qualquer outro momento da carreira. O volante colombiano ainda é um personagem importante no ciclo de José Pekerman e deve retornar nesta Copa. O uruguaio não desfrutou da mesma oportunidade para se redimir. Não disputou outra Copa do Mundo ou mesmo uma Copa América. “Desde que saí de campo, eu me dizia que desonrei a camisa. ‘O que vão pensar as pessoas, a família, os companheiros, a comissão técnica, os jornalistas?’. Vinte anos depois, me reconhecem por este assunto e não por minha trajetória como jogador”, relembrou, ainda ao jornal El País.
Já no último mês de maio, à Reuters, foi indagado se alguém poderia superar sua marca em 2018: “Não acho que alguém vá bater meu recorde na Rússia. Com três ou quatro minutos é possível, mas 54 segundos, eu duvido. Seria ótimo se alguém fosse expulso mais rápido e finalmente isso acabasse para mim. Mas é do jeito que é. Eu visto isso como se fosse uma camisa”. Sánchez bem que tentou, mas não conseguiu tirar o fardo das costas de Batista.