Copa do Mundo

A queda da Seleção não anula a ótima Copa de sua dupla de zaga – mas, como em outros Mundiais, isso não tem bastado

Thiago Silva e Marquinhos fizeram um grande Mundial, o que não foi suficiente para evitar a despedida, como em outras eliminações recentes

Cair pela quinta Copa do Mundo seguida antes da decisão é bastante indigesto. Exceção feita à hecatombe no Mineirão, no geral são eliminações em que a Seleção não precisa jogar mal, mas é insuficiente. E se a derrota nos pênaltis para a Croácia deixa uma noção imensa de que o pecado esteve nos detalhes, também é uma campanha que oferece pontos positivos, como outras nestes últimos 16 anos. Méritos que serão bem menos lembrados pela falta do brilho da taça, quando se há cinco no passado para se orgulhar. E uma constante nesse período de insucessos da Seleção é a maneira como os zagueiros fizeram boas Copas. Thiago Silva e Marquinhos formaram uma das melhores duplas do Catar, que acaba ignorada pelo sonho destruído.

Entre as Copas de 2006 e de 2010, Juan e Lúcio formaram uma das melhores duplas de zaga da história da Seleção. Era uma combinação excelente entre o beque vigoroso e faminto pelo jogo, ao lado do companheiro com maior refinamento técnico. Lúcio tinha a taça em sua estante, por 2002. Juan não deixava a desejar em relação a outros defensores mais classudos que vestiram a amarelinha. E no geral foram ótimos, tanto na Alemanha quanto na África do Sul. Um posicionamento coletivo ruim na bola parada e um volante descontrolado minaram o que fizeram os zagueiros.

Thiago Silva, a essa altura, se consolidava como um dos melhores zagueiros do mundo. Teria sua vez em Copas como titular a partir de 2014. E se a perseguição ao capitão se exporia na malfadada postura durante a disputa por pênaltis contra o Chile, não se nega que ele sempre foi um gigante em Mundiais. Jogou demais ao longo da caminhada rumo ao Mineirão, até impulsionando a forma de David Luiz, e não há dúvidas de que sua ausência custou demais nos 7×1. Depois disso, a defesa virou um arremedo e ficou o vexame, que muita gente atribui a Thiago não por fatores técnicos – quase sempre mais por birra.

Quatro anos depois, na Rússia, Thiago Silva teve sua redenção. Uma redenção incompleta, porque o posto como talvez o melhor jogador do Brasil na campanha não valesse de consolo a mais uma eliminação. A parceria com Miranda foi muito consistente durante a campanha, de novo com a combinação de dois zagueiros do mais alto nível e condecorada carreira. Thiago ainda ficou no quase em sua tentativa de ser herói, quando parou na trave nas quartas de final contra a Bélgica, antes que o placar fosse aberto.

Àquela altura, parecia que a história de Thiago Silva nas Copas tinha acabado. O zagueiro tratou de provar o contrário, ao consolidar seu nome como um dos melhores defensores do século no futebol europeu ao conquistar a Champions League. Marquinhos, que já estava maduro o suficiente para 2018, confirmou a titularidade como um beque de grande entendimento do jogo e também talento na construção. O Brasil de 2022 se propunha como favorito muito por conta de sua dupla atrás, sempre resguardada por Casemiro. Era a base do sucesso para Tite.

O Brasil pouco foi ameaçado ao longo da fase de grupos, especialmente diante de Sérvia e Suíça. As apresentações de Thiago Silva e Marquinhos beiravam a perfeição. Iam sempre firmes nas divididas, mantinham uma cobertura excepcional numa formação mais leve. Mesmo os problemas dos laterais não deixavam o time vulnerável. Alisson mal precisava trabalhar. Somente contra a Coreia do Sul o arqueiro acabou mais exigido, mas nada que viesse na conta dos beques, numa equipe que relaxou como um todo em seu trabalho defensivo.

E também Alisson esteve muito bem protegido em 117 dos 120 minutos contra a Croácia. Thiago Silva fazia uma partida impecável, especialmente no difícil primeiro tempo. Foram 45 passes tentados e 45 passes acertados pelo zagueiro na primeira etapa. E não que Marquinhos estivesse mal, pelo contrário, também muito seguro em suas ações. Durante o segundo tempo, o nível de exigência imposto pelos croatas foi menor, pela pressão do Brasil. Já na prorrogação, a questão foi um sistema inteiro por vezes desligado. Por sorte, o desfecho da jogadaça de Bruno Petkovic no primeiro tempo extra não seria bom, no tiro para fora de Marcelo Brozovic. Já no gol de empate, faltou mais companhia aos zagueiros num lance de inexplicável ansiedade do Brasil pelo descuido. Se dá para cobrar os beques é, por suas experiências, não terem orientado melhor os companheiros da organização.

A bola desviada em Marquinhos pareceu custar a concentração do zagueiro. Mesmo assim, foi ele quem assumiu a cobrança derradeira do Brasil, quando tinha que converter. Acertou a trave, perdeu. Mais uma vez, nada que diminua a boa competição que fez e menos ainda que o coloque como vilão. Entretanto, como em outras Copas recentes, ter uma dupla de zaga bem entrosada e segura não bastou ao sucesso do Brasil. Faltou bem mais na frente, faltou atenção com outros detalhes atrás.

Já para Thiago Silva, essa eliminação certamente é muito custosa. É sua quarta Copa do Mundo e, pela idade, muito provavelmente a última – mesmo que o veterano goste tanto de negar os prognósticos. Que se questione a sua liderança num momento específico, é injusto contaminar sua visão como grande zagueiro da Seleção por poucos minutos de pressão há oito anos. Na bola, Thiago é um gigante do Brasil em Copas. Mas daqueles gigantes sem taça, algo que se torna muito caro num país tão acostumado a elas. É uma pena pelo Mundial que fazia, pelo jogador que é. Que os insucessos não se sobreponham àquilo que de fato realizou, apesar das derrotas.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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