Copa do Mundo

Quando Maradona acertou sua transferência para o poderoso Olympique de Marseille – mas o Napoli não deixou

Maradona queria, o Olympique de Marseille queria, mas não passou de um bombástico negócio que nunca se consumou - primeiro em 1989 e depois em 1992

Poucas cidades no mundo são tão apaixonadas por futebol quanto Marselha. Por lá, amar a bola é uma questão de identidade. E nada representa mais esse sentimento do que o Olympique de Marseille. O clube não é apenas o maior representante local, mas também seu orgulho em contraposição ao resto do país, especialmente na rivalidade com Paris. Não é muito diferente do que o Napoli representa ao sul da Itália, por exemplo. E, entre tantos paralelos que podem ser feitos entre os times, quase eles tiveram um mesmo Dios para agradecer em conjunto: Diego Armando Maradona. O camisa 10 quis se transferir para o Vélodrome em 1989, com uma ótima proposta, desejando também fugir do ambiente instável que o acompanhava em Nápoles, mas o negócio não aconteceu por causa de Corrado Ferlaino, presidente napolitano. A mão de ferro do dirigente rendeu mais um Scudetto, mas a relação se degradou ainda mais até um triste fim. Apenas de longe é que Diego veria os marselheses faturarem a Champions League, um sonho que tinha e deixava expresso naqueles tempos.

O Olympique de Marseille, afinal, nadava em dinheiro a partir da segunda metade dos anos 1980. O clube foi comprado por Bernard Tapie, empresário francês que tinha negócios em diferentes ramos até investir no ciclismo, antes de vislumbrar um império no futebol: queria montar o time mais poderoso da Europa. Tinha dinheiro para isso, estava numa cidade propícia por tantos fiéis e logo passou a atrair diversos craques. Todavia, seu castelo não parecia completo sem um rei. Por isso mesmo, num período no qual Maradona encantava o mundo, o argentino virou obsessão do dirigente. As negociações mais fortes por Diego aconteceram em 1989, mas também voltaram à mesa em 1992. Apesar do interesse mútuo, a vontade nunca se transformou em realidade. Dá só para imaginar como seria Maradona ídolo de Zinédine Zidane, no lugar de Enzo Francescoli, ou então campeão ao lado de um jovem Didier Deschamps.

O ano de 1986 seria marcante tanto para Bernard Tapie quanto para Maradona. Enquanto o craque se consagrava como campeão do mundo pela seleção argentina, o empresário comprava o Olympique de Marseille. E os caminhos seriam paralelos a partir de então. Diego liderou o Napoli ao título da Serie A em 1986/87, na inédita conquista do clube do sul italiano. Já os marselheses se fortaleciam. Levavam nomes como Alain Giresse, Karlheinz Förster, Klaus Allofs e Abedi Pelé. Ainda não seriam suficientes para o título do Campeonato Francês nas duas primeiras temporadas sob as ordens de Tapie, mas uma base muito competitiva tomava forma, girando ao redor de Jean-Pierre Papin.

O grande passo do Olympique de Marseille com Tapie aconteceu em 1988/89. Os celestes contrataram mais alguns jovens em ascensão, como Eric Cantona. E, com Papin voando baixo, o time faturou o Campeonato Francês ao final da temporada – um título que não desfrutava fazia 17 anos. Com a vaga na Copa dos Campeões garantida, o magnata que administrava os marselheses podia ambicionar ainda mais. Enquanto isso, o Napoli chegava ao topo da Europa. Não na Champions, e sim na Copa da Uefa. O esquadrão estrelado por Maradona e Careca fez uma campanha inesquecível, para ganhar o troféu em cima do Stuttgart nas finais. Se conquistar a Serie A era dificílimo naqueles tempos, com a concorrência de equipes poderosas de Milan e Internazionale, os celestes tinham qualidade o suficiente para se impor além das fronteiras.

O título europeu, entretanto, não escondia um clima turbulento nos vestiários do Napoli. Aquela temporada de 1988/89 evidenciou um racha interno. O técnico Ottavio Bianchi, à frente do time desde 1985, já não se dava bem com algumas estrelas. O elenco realizou um motim, com direito a um comunicado publicado pela imprensa. Porém, o presidente Corrado Ferlaino deu respaldo ao treinador e decidiu se desfazer das “laranjas podres” – incluindo Salvatore Bagni e Bruno Giordano, dois nomes fundamentais da equipe. Algo que só azedou mais a relação. Logo após a conquista da Copa da Uefa, Bianchi anunciou que não ficaria mais no San Paolo.

O clima de fim de ciclo no Napoli era amplo. Maradona também queria respirar novos ares. O camisa 10 era uma evidente liderança nos bastidores e seu poder era motivo de queda de braço interna. Além disso, o argentino costumava ser muito criticado pela imprensa. A maneira como não se sentia à vontade em Nápoles, sempre perseguido pelos fotógrafos e pelos jornalistas, claramente o incomodava. Além disso, surgiam acusações pesadas contra Diego. Inclusive, de que estava envolvido com a Camorra, a máfia napolitana, e de que participava de uma rede de tráfico de drogas.

Informalmente, Maradona realizou um acordo com o presidente Ferlaino, que também era proprietário do Napoli. Caso o craque garantisse o título da Copa da Uefa, o dirigente concordava em assinar sua transferência. Só que a promessa seria quebrada durante a comemoração da conquista. “Ele não queria me deixar sair. Quando eu estava em campo com a taça nas mãos, ele veio no meu ouvido e disse: ‘Não vou te vender, só queria te motivar mais’. Naquele momento, eu queria quebrar o troféu na cabeça dele”, contaria o craque anos depois, em sua autobiografia. Aquele ato seria visto por Diego como uma declaração de guerra.

Durante o início de junho de 1989, a imprensa francesa passou a noticiar o interesse do Olympique de Marseille em Maradona. O camisa 10 parecia o reforço perfeito para alimentar os gols de Papin e elevar o nível da equipe na Champions. Treinador da França na conquista da Euro 1984, Michel Hidalgo se tornou diretor dos marselheses naquele período e visitou o argentino em Nápoles para apresentar sua proposta, em história que logo passou a ser noticiada pelos jornais. Publicamente, Diego mantinha as juras de amor à torcida do Napoli e declarava sua vontade de cumprir seus próximos quatro anos de contrato até o fim. Dizia que recebeu Hidalgo “por educação”, ao pensar que ele fosse o técnico do Olympique, não o diretor. Mas logo o namoro começou a ficar mais escancarado.

O próprio Michel Hidalgo não segurou sua língua, com declarações fortes ao L’Équipe: “Quando disse a ele que queríamos contratá-lo para conquistar a primeira Copa dos Campeões de nossa história no próximo ano, Diego juntou suas mãos e me expressou seu desejo de assinar com o Olympique”. Segundo o diretor, Maradona reforçava como a Champions era um objetivo, depois de levar a Copa da Uefa. E surgiam rumores até de que o Olympique negociaria com César Luis Menotti, treinador campeão do mundo com a Argentina em 1978, para convencer o craque. O próprio Menotti se abria à possibilidade, enquanto trabalhava no River Plate.

O barulho na imprensa era enorme. As informações vazadas por um intermediário do negócio, inclusive, incomodaram bastante Tapie. O proprietário do Olympique de Marseille daria uma entrevista furioso, mas sem desmentir nada: “Há pessoas que não sabem manter um segredo. Uma transferência dessa envergadura não pode ser anunciada até que esteja completamente fechada. Qualquer revelação compromete seriamente a assinatura definitiva do contrato. Se Diego não vier, é porque ambos somos imbecis”.

Naquele momento, a troca de farpas ganhava a imprensa. E o presidente do Napoli, Corrado Ferlaino, não ficaria calado por tanto tempo: “O Napoli não vende jogadores, o Napoli compra. Mas, como o Olympique não tem jogadores interessantes para o Napoli, não vejo necessidade de um encontro com Tapie. Nós nem sequer levamos em consideração a ideia de uma negociação para a venda de Maradona”. Os napolitanos já tinham dado ao craque adiantamentos em dinheiro referentes a 1991, apenas para garantir a manutenção de Diego, e preferiam os ganhos esportivos do que recuperar o gasto.

Antes do último jogo do Napoli em casa pela Serie A 1988/89, no meio de junho, em temporada que terminou mais tarde por causa da Eurocopa e dos Jogos Olímpicos, Maradona admitiu à France Football: “Tapie deve ser louco, mas um louco simpático e forte. Gostaria de trabalhar com ele. A razão me diz que devo continuar em Nápoles, mas o coração me empurra para longe”. Numa reta final de Serie A resolvida, com a Internazionale campeã por antecipação, Diego chegou a ser acusado de fazer corpo mole e forçar a sua saída. Foi vaiado pela torcida no San Paolo, ao pedir para ser substituído no jogo contra o Pisa com apenas 17 minutos de bola rolando. A derrota na final da Copa da Itália, com a goleada da Sampdoria por 4 a 0, pressionava o argentino ainda mais.

A tentação a Maradona era evidente, vislumbrando uma vida mais tranquila em Marselha após o nascimento de sua segunda filha, Giannina. Segundo a imprensa francesa, a proposta do Olympique não apenas quebraria o recorde de transferência mais cara da história até então. O clube também oferecia uma série de regalias ao camisa 10. Seu salário seria triplicado, ele teria uma mansão à disposição na cidade de Cassis e também poderia desfrutar de folgas a mais em relação ao restante do elenco, para tratar de um problema crônico nas costas. Além disso, Tapie prometera um cargo em negócios na Argentina, caso o armador encerrasse sua carreira no Vélodrome.

A Copa América de 1989 tirou Maradona do olho do furacão, mas as férias ampliadas até o início de agosto permitiam mais tempo às tratativas. As tensões aumentavam à medida em que a data da reapresentação do camisa 10 em Nápoles se aproximava. Internamente, os napolitanos já tinham noção de que a novela estava armada. E não que o Olympique de Marseille estivesse sozinho nas manchetes. Também passaram a pipocar rumores que envolviam o Real Madrid.

As especulações sobre Maradona tinham idas e vindas. Mas, se por um lado o Olympique tentava se desvencilhar do interesse à medida que as semanas passavam, a atitude seria outra nos bastidores. Segundo palavras do próprio Tapie anos depois, um contrato chegou a ser assinado, inclusive pelo presidente Ferlaino. Porém, o dirigente napolitano mudou de ideia e pediu para os marselheses ignorarem o papel, temendo a revolta da torcida em Nápoles. Maradona não gostou disso e decidiu adiar o retorno para sua reapresentação, prolongando as férias na Argentina para pressionar os italianos.

À revista El Gráfico, na época, Maradona comentaria: “Se eu tiver que ficar em Nápoles, farei o possível para reconquistar o Scudetto. Suportaria mais uma temporada, sempre em silêncio. Mas que fique claro: eu quero sair. Minha relação com o clube se rompeu e minha família agora está maior, exige mais atenção. […] Quero deixar Nápoles porque não aguento mais a vida que sou obrigado a viver na Itália. Talvez esteja envelhecendo, mas sinto que é hora de mudar. Minha família não pode viver sufocada, sem poder sair de casa. Quero ser livre, como todos os pais do mundo, levar minhas filhas no parque de diversões. Em Nápoles, isso é impossível. Para curtir minha família, preciso de um ambiente mais tranquilo. Estou cansado de sacrificar a vida privada em nome dos compromissos. Não aguento mais continuar assim”.

Ainda faria um apelo: “Não quero sair por dinheiro, mas exclusivamente por motivos familiares. Nápoles me deu tudo, agora queria que me satisfizesse uma última vez. Ao me vender, Ferlaino tem a oportunidade de montar um grande time ao redor de Careca. Não quero falar muito sobre minha transferência, porque não sei como as pessoas estão vendo essa história. Mas faço um pedido: podem fazer de tudo comigo, mas minha família deve ser deixada em paz”.

Neste clima nada amistoso, o Napoli realizou sua pré-temporada. Alberto Bigon assumia o lugar de Ottavio Bianchi à frente da equipe. O antigo ídolo do Milan não possuía grande currículo como treinador. Era visto como um tampão, para que Carlos Bilardo assumisse em 1990, ao término de seu contrato com a seleção argentina – numa tentativa de convencer também Diego a ficar. Pragmático em suas estratégias, Bigon logo tratou de se aproximar dos jogadores. E colocava panos quentes sobre a situação de Maradona, prometendo se entender com a estrela: “Estou curioso para conhecê-lo e tenho certeza de que eventuais problemas serão contornados. Quero saber se Maradona está realmente insatisfeito. Vamos colocar tudo em pratos limpos”.

Já o Olympique de Marseille realizava um mercado de transferências naturalmente movimentado, para quem ambicionava o título da Champions. Tapie quis buscar figuras como Bebeto, Bernd Schuster e Thomas Hässler, sem sucesso. Em compensação, todos os setores se viam bem reforçados. O cracaço Jean Tigana chegava do Bordeaux, ao lado de Alain Roche. A defesa ainda ganhava outro ícone da seleção, Manuel Amoros, que estava no Monaco. Mozer vinha em alta do Benfica para a zaga, enquanto Chris Waddle era uma estrela de enorme potencial ao desembarcar do Tottenham. Do Racing de Paris, ainda vinha um candidato à camisa 10: ninguém menos que Enzo Francescoli, para logo se transformar em ídolo de um garoto marselhês chamado Zinédine Zidane. Desembarcava até um jovem Didier Deschamps, meio-campista do Nantes. E não eram as saídas de Allofs ou do intempestivo Cantona que pareciam atrapalhar as pretensões. 

Enquanto a Serie A 1989/90 não começava, a imprensa italiana noticiava as desventuras de Maradona – e aproveitava para atacá-lo de diferentes maneiras. A cada semana ao longo de agosto, surgia a informação de que o craque desembarcaria na Itália, mas ele permanecia na Argentina. Aproveitou o tempo livre para esquiar, pescar e caçar com a família no interior do país. Além disso, às vésperas da primeira rodada, Diego publicou um comunicado denunciando um complô. Segundo ele, as janelas de sua casa e de seu carro foram quebradas em Nápoles, enquanto o apartamento de sua irmã sofreu uma invasão. Sua família também teria sido alvo de ameaças por telefone e de perseguições na estrada. Garantia que a questão não girava ao redor do Olympique de Marseille, mas de sua própria segurança e do bem-estar da família.

A polícia desmentiu Maradona. Disse que nenhum vidro foi quebrado e a invasão do apartamento foi posterior à alegação, provavelmente por roubo. Também afastava o envolvimento da máfia local. “A Camorra é uma organização séria e tem assuntos muito mais importantes para resolver do que se preocupar em ameaçar jogadores de futebol”, ironizaria o chefe da polícia napolitana. Teorias conspiratórias sobre a pressão da Camorra contra Maradona, para que continuasse rendendo títulos ao Napoli, não eram exatamente novas. Em contrapartida, o craque também havia frequentado uma festa na casa de chefes da organização anos antes e fotografias do evento voltaram aos jornais. De fato, não era uma situação saudável para a família de Diego.

Quando o Campeonato Italiano começou, Maradona completava quase um mês de rebelião. E o Napoli precisou se virar sem o camisa 10. Os companheiros permaneciam em apoio ao craque, assim como o técnico Alberto Bigon. Diego chegou a elogiar a postura do novo comandante, que teria ligado para ele “25 vezes” em Buenos Aires. O problema era contornar a insatisfação da diretoria, que prometia aplicar uma pesada multa em seu astro. O diretor esportivo Luciano Moggi (sim, o mesmo que anos depois trabalharia na Juventus e teria seu nome marcado no escândalo do Calciopoli) era um ponto de fricção entre o armador e o presidente Ferlaino. Enquanto isso, o impasse se refletia nos cofres napolitanos, com a queda nas vendas dos carnês de temporada.

Numa última cartada, o Olympique ainda tentou oferecer US$11 milhões e o recém-contratado Enzo Francescoli por Maradona, sem sucesso. Acabaria desistindo do negócio, diante de tamanha intransigência de Ferlaino. “Falei com Margaret Thatcher e com François Mitterrand, mas não pude ver Ferlaino. Quem ele pensa que é?”, reclamaria Tapie, à imprensa. Em setembro de 1989, o assunto perderia força na imprensa. Maradona finalmente daria sua trégua. Ainda enrolou para voltar a Nápoles, reclamando desde a falta de assentos na primeira classe dos aviões até o excesso de escalas, mas logo retomaria seu trabalho.

No meio do mês de setembro de 1989, Maradona desembarcou e se juntou ao elenco. Estabeleceu uma boa relação com o técnico Alberto Bigon e pediu desculpas aos companheiros. Por outro lado, não escondia sua insatisfação com a postura da diretoria, sobretudo ao não defendê-lo das acusações publicadas pelos jornais, com as fotos ao lado de membros da Camorra numa festa de três anos antes. Ameaçava inclusive encerrar a carreira. Enquanto isso, avaliava que a torcida parecia entendê-lo. Apesar de todo o dramalhão, a paixão por Diego prevalecia na cidade. A massa aguardava ansiosamente para vê-lo em campo – o que levaria algum tempo, dada a falta de preparação física adequada do armador em meio a todo o imbróglio.

Maradona selaria a paz dentro do San Paolo. O craque reestreou pelo Napoli na quinta rodada da Serie A, ao sair do banco num jogo que a Fiorentina vencia por 2 a 0, em tarde inspirada do jovem Roberto Baggio. No fim das contas, seria uma épica virada dos napolitanos por 3 a 2, com assistência de Diego para o gol decisivo. No compromisso seguinte, reempossado com a braçadeira de capitão, o camisa 10 anotou o seu no empate com a Cremonese. E só não faria chover nos 3 a 0 sobre o poderoso Milan, com um gol e duas assistências. A harmonia voltava a reinar no império maradoniano. Todavia, em alta, ele indicou que não tinha se esquecido do Olympique de Marseille.

Três dias depois da vitória sobre o Milan, Maradona conversou com a France Football. Reafirmou que o Estádio Vélodrome permanecia no seu horizonte: “As intenções do Olympique eram sérias e a oferta era muito atrativa para qualquer jogador. Além disso, é preciso ter em conta que sou um jogador que ama meu trabalho. Eles me ofereceram o mesmo salário que ganho no Napoli. Nem um franco a mais. Dou minha palavra. Mas a cidade e a casa que Tapie me prometeu eram muito tentadoras, tendo em conta a diferente educação que poderia oferecer às minhas filhas e a qualidade de vida que desfrutaria com a minha família”.

Maradona também reforçou que as tratativas deveriam ser retomadas dentro de alguns meses. “Dado que os dirigentes franceses não puderam falar nunca com Ferlaino, achamos que seria melhor esperar até o final dessa temporada para me decidir”. Embora admitisse relações “frias” com o presidente Ferlaino, Diego não deixaria de se empenhar com a camisa do Napoli. Seu nível de atuação em 1989/90 foi melhor do que em 1986/87. Não à toa, rendeu mais um Scudetto, o segundo (e último) da história celeste.

A temporada de sucesso também mudou a relação de Maradona com Corrado Ferlaino. Ao final da campanha, com a conquista do Scudetto, Diego aparecia muito feliz diante das câmeras ao lado do presidente. Simular não era muito de seu feitio. Até porque o craque não escondia o ressentimento geral com a imprensa: “Esta vitória eu dedico a todos que me chamaram de delinquente”. Apesar de todo o pano de fundo dos últimos meses, o argentino decidiu permanecer em Nápoles. Teria a Champions para disputar. Poderia, inclusive, cruzar com o Olympique de Marseille. Os provençais emendavam o bicampeonato francês, numa temporada de 1989/90 em que foram semifinalistas do torneio continental, eliminados pelo Benfica.

Para 1990/91, o Olympique de Marseille continuou investindo. Se por um lado Francescoli se despedia rumo ao Cagliari, Dragan Stojkovic chegava cheio de moral do Estrela Vermelha. Nomes históricos como Basile Boli e Pascal Olmeta eram outras novidades. Já Maradona viu a situação em Nápoles ficar insustentável. As rusgas com a imprensa italiana se tornaram mais claras durante a Copa do Mundo, com a célebre semifinal entre Argentina e Itália no San Paolo. Diego ajudou a eliminar os anfitriões nos pênaltis, em noite na qual a torcida napolitana escolheu entre seu ídolo e sua pátria. A forma como o hino argentino foi vaiado no Estádio Olímpico de Roma durante a final feriu a alma de Diego. As rusgas eram cada vez maiores.

A campanha do Napoli na Champions 1990/91 durou pouquíssimo, com a eliminação nas oitavas de final diante do Spartak Moscou. O desempenho contrastou com o sucesso do Olympique de Marseille, algoz do poderosíssimo Milan e do próprio Spartak, parado apenas na final contra o Estrela Vermelha. A essa altura, Maradona não passava de uma sombra de sua magia. Com dificuldades para entrar em forma e novos conflitos no Napoli, o craque seguia massacrado pela imprensa. Até que, em março de 1991, depois de um jogo contra o Bari, Diego foi pego no exame antidoping. O uso de cocaína gerou uma suspensão de mais de um ano ao craque, que passaria o período em reabilitação.

Aquela foi a última partida de Maradona pelo Napoli. Para a temporada 1992/93, ao final do gancho, estava claro que o camisa 10 não permaneceria para seu último ano de contrato no San Paolo. E entre os interessados estava novamente o Olympique de Marseille. Os celestes chegaram ao inédito tetracampeonato francês em 1991/92, num ano em que Alen Boksic e Jocelyn Angloma figuravam entre os reforços. O problema é que a Champions permanecia como um sonho inalcançado por Bernard Tapie. Na primeira edição do torneio com uma fase de grupos, em quadrangulares semifinais, os marselheses nem foram tão longe. Pararam na fase anterior à das chaves, com uma queda diante do Sparta Praga. Assim, quando Diego ressurgiu como uma possibilidade de mercado no verão de 1992, o Olympique não o renegou.

Em julho de 1992, o próprio Maradona deu uma entrevista para a France Football em que escancarava seu interesse pelo Olympique de Marseille: “É uma equipe que se classifica facilmente para a Champions e a cidade oferece uma vida tranquila, com menos pressões que as que eu sofria em Nápoles. Tapie segue interessado, mas não vou dar detalhes até que se resolva a operação. Não posso agregar mais nada. Na vida, é preciso ser agradecido. Quando falei com ele, se mostrou compreensivo e de acordo com minha maneira de ver as coisas. Não queria me impor nada e nem me obrigar a nada. Tapie é um cavalheiro, enquanto sabemos o que Ferlaino é. Se me incomodam, poderei sair. Mas confiamos em Tapie. Quero sair ganhando com minha volta ao futebol, mas não a qualquer preço”.

Não era uma situação tão simples de se resolver. O Napoli ainda tinha mais um ano de contrato com Maradona e queria fazer valer o vínculo. Ferlaino dizia que sequer se sentaria com Tapie para negociar. Enquanto isso, a Fifa pressionava os napolitanos a tomarem uma atitude diplomática com Diego – que, por sua vez, espetava o presidente João Havelange ao dizer que a entidade “precisava do camisa 10 em campo”. Mas não que o Olympique de Marseille estivesse sozinho na disputa. O Sevilla também oferecia um ambiente tranquilo e Carlos Bilardo como técnico, um enorme trunfo. A nascente J-League ambicionava o camisa 10. Mesmo uma volta ao Boca Juniors não era descartada. E a imprensa espanhola falava até em Real Madrid. Marcos Franchi, o representante de Maradona, dizia que “o bom ambiente era mais importante que o dinheiro”.

De fato, Marselha não oferecia o clima mais ameno para Maradona entre todos os cenários. E, embora fosse o time que garantia mais dinheiro, o Olympique não se tornou o destino final. Diego preferiu assinar com o Sevilla e se reencontrar com Bilardo. Passou uma temporada de boas histórias, mas já com uma clara queda de rendimento, antes que os casos de indisciplina o fizessem voltar à Argentina. Por sua vez, o Olympique de Marseille não precisou do camisa 10 para finalmente conquistar a Champions, logo em 1992/93. Rudi Völler, Marcel Desailly, Rafael Martín Vázquez, Fabien Barthez e Igor Dobrovolski foram os reforços do time, enquanto nem a saída de Papin ao Milan atrapalhou. O capitão Deschamps pôde erguer a Orelhuda após a vitória sobre o Milan, o antagonista em comum também de Maradona.

A glória de Tapie, todavia, não durou mais do que isso. Para que seus jogadores não se preocupassem com o Campeonato Francês antes da final da Champions, o dirigente subornou jogadores do Valenciennes e armou o resultado na campanha do penta nacional do Olympique de Marseille. O caso foi descoberto e resultou não só no rebaixamento dos marselheses, com a revogação do título, como também no banimento do empresário. Seria o fim de sua história no Vélodrome, exatamente logo depois de chegar ao topo. Mas não que Maradona se visse muito melhor entre a redenção prometida na Copa de 1994 e a queda em novo caso de doping, agora por uso de estimulantes.

A história de Maradona no Olympique não passou de uma alucinação coletiva. Mas que certamente renderia um grande ardor. Pela qualidade de Diego, pela fortuna de Tapie e pela força daquele time, a Champions poderia ter vindo mais cedo ou ter vindo mais vezes. Restou apenas a reverência da torcida marselhesa, que chegou a fazer mosaicos em homenagem ao camisa 10 nos últimos anos, inclusive em sua morte.

Foto de Leandro Stein

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreveu na Trivela de abril de 2010 a novembro de 2023.
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