Os Amrabat gostam da Copa, e Sofyan começa 2022 com o destaque que o irmão Nordin teve em 2018
Sofyan Amrabat foi essencial no meio-campo de Marrocos, honrando a herança do irmão Nordin, destaque da equipe em 2018
O sobrenome Amrabat ficou em evidência na Copa do Mundo de 2018, quando Marrocos voltava ao torneio após 20 anos de ausência. Não por Sofyan, o irmão mais novo, discreto em seus 14 minutos em campo ao longo da fase de grupos. A estrela dos Leões do Atlas no Mundial da Rússia foi Nordin, o irmão mais velho. O ponta direita jogou com gosto o torneio. Tinha sua fama como jogador, mas não com o nível de intensidade e importância que se viu naquele momento. No fim, ainda deixou uma imagem marcante, com sua revolta pelo uso (correto) do VAR no gol tardio da Espanha que impediu a vitória marroquina na última rodada. Quatro anos depois, Nordin não faz mais parte da seleção. Enquanto isso, Sofyan Amrabat aproveitou a experiência maior para liderar Marrocos no empate sem gols contra a Croácia. Teve boa atuação no Catar e trancou o meio-campo diante dos astros adversários.
A família Amrabat se estabeleceu em Huizen, cidade holandesa na região metropolitana de Amsterdã. Nove anos mais velho, Nordin ensinou o caminho das pedras a Sofyan. O ponta precisou lidar com as desilusões na carreira. Chegou a ser dispensado pelo Ajax na base, teve um problema de crescimento, conciliou os estudos com trabalhos de lavador de pratos e faxineiro durante a adolescência. Quando o futebol nem parecia uma alternativa tão palpável, o descendente de marroquinos deslanchou num clube modesto da segunda divisão holandesa. A partir de então sua carreira engrenou. Passou por VVV e PSV em seu país natal. Teve seus lampejos por Galatasaray e Málaga, antes de passar pelo Watford. Não era um jogador excepcional, mas tinha seu espaço.
Nordin chegou a defender as seleções de base da Holanda, mas optou por Marrocos em 2011. Foi uma escolha sábia, e que passou a mostrar o prazer do ponta ao defender a terra de seus pais. Se parecia um jogador comum nos clubes, na seleção virou uma peça bem mais útil. Esteve presente nas Olimpíadas de 2012, em três edições da Copa Africana de Nações e, seu ápice, na Copa do Mundo de 2018. A energia de Nordin era contagiante, como um jogador experiente que não se intimidou no grupo que contava com Portugal e Espanha. Os marroquinos ficaram pelo caminho, mas o espírito do camisa 16 serviu de marca naquele torneio.
Àquela altura, Sofyan Amrabat dividia os vestiários de Marrocos com seu irmão. E sua única participação na Copa de 2018, saindo do banco, aconteceu exatamente para substituir Nordin como um improvisado lateral direito na estreia contra o Irã – após o veterano sofrer uma concussão em choque com Mehdi Taremi. Não deixava de ser uma honra para o caçula. Sofyan não precisou passar pelas mesmas provações de seu irmão. Conseguiu ingressar na base do Utrecht quando tinha 11 anos e por lá ficou até se profissionalizar. Também passou pela seleção sub-15 da Holanda. Mudou de ideia e escolheu Marrocos em 2013, depois que Nordin tinha viajado a Londres para disputar as Olimpíadas em 2012.
Mais do que uma inspiração, Nordin assumiu um papel de conselheiro, como o próprio Sofyan contou quando assinou seu primeiro contrato profissional em 2014: “Eu quero alcançar o mesmo que meu irmão. Estive presente quando ele assinou seu contrato, é um grande prazer que ele faça o mesmo por mim. Nordin está muito feliz por mim, embora seja bastante crítico em suas avaliações. Ele me acompanhou durante o Mundial Sub-17 com Marrocos e me deu muitos conselhos para me tornar profissional. Hoje eu consegui”.
Sofyan Amrabat era jogador do Feyenoord na época da Copa de 2018. Sua carreira cresceu depois do Mundial. Primeiro passou pelo Club Brugge, mas deu certo mesmo na Itália, emprestado ao Verona. Já seu melhor momento aconteceu após à transferência para a Fiorentina. Fez uma temporada de estreia muito boa, embora tenha perdido um pouco mais de espaço no último ano. De qualquer maneira, é um jogador de relevo na Viola, titular na atual temporada. E é ainda mais importante na seleção de Marrocos, numa posição que depende de seus serviços. O volante não tem a personalidade de Nordin, mas é uma liderança técnica e oferece firmeza, o que se viu na estreia da Copa de 2022.
Há alguns meses, era o próprio Nordin quem respaldava o irmão mais novo na imprensa italiana, em entrevista ao Corriere dello Sport: “Ele é um dos melhores meio-campistas da Serie A. Não acho que a Itália mudou muito Sofyan. Ele sempre joga como sabe. Acredito que a diferença é pela continuidade e pela confiança do treinador. Em sua carreira, os técnicos que acreditaram no meu irmão permitiram que ele se expressasse no mais alto nível. Não há muitos jogadores como ele, pela forma como recupera a bola e reinicia o jogo com um toque. Se continuar assim, Sofyan poderá jogar como Kroos, Kanté ou Casemiro”. A Copa do Mundo é um baita teste.
Marrocos não faria uma atuação exatamente brilhante contra a Croácia. Foi uma equipe correta, que marcou bem e conseguiu travar a criatividade dos adversários. Neste ponto, pesou a influência de Sofyan Amrabat na cabeça de área. O volante foi muito bem na ocupação de espaços. Conseguiu apertar o setor principal dos croatas e protegeu bem sua defesa. Ainda salvou uma bola decisiva que ia em direção ao gol, além de manter o nível de precisão na distribuição. Aos 26 anos, foi o ponto de equilíbrio dos Leões do Atlas.
Nordin deve ter se orgulhado de ver Sofyan honrando o sobrenome. Aos 35 anos, o irmão mais velho se aposentou da seleção em 2019, mas segue na ativa – e começou bem a temporada com o AEK Atenas, com três gols e duas assistências em 12 partidas pelo Campeonato Grego. Entretanto, os Leões do Atlas se restringem a ele apenas como torcedor neste momento. E se a Copa do Mundo representou tanto à percepção de sua carreira, o caçula também parece ter aprendido essa lição. Indica vir com um gás a mais para o Catar.



