Copa do Mundo

[Os 50 anos da Copa de 70] Pelé comenta o milagre de Banks e Tostão detalha sua jogadaça no gol

Após a conclusão da segunda rodada da fase de grupos, a Copa de 1970 passou dois dias sem partidas. O assunto principal após o Brasil 1×0 Inglaterra era a repercussão do jogaço no Jalisco, com os comentários de seus principais personagens. Confira mais um capítulo de nosso diário sobre o inesquecível Mundial do México:

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Brasil sem Gérson e Rivellino

Faltando dois dias para a partida entre Brasil e Romênia, Zagallo antecipou que faria alterações na equipe titular. A Seleção estava praticamente classificada e dependia apenas de um empate para confirmar a primeira colocação do Grupo III. Assim, o treinador achava mais prudente seguir sem Gérson, para que voltasse totalmente recuperado de seu estiramento na coxa durante as quartas de final. Outro a ganhar um descanso era Rivellino. O Patada Atômica substituiu o Canhotinha de Ouro na armação e torceu o tornozelo contra a Inglaterra. Paulo Cézar Caju seria mantido na equipe, enquanto Piazza jogaria adiantado ao meio, para a entrada de Fontana.

“O lance em que me machuquei foi inteiramente casual: num choque com o Bobby Charlton, ele entrou mais firme. Quando caí foi que torci o tornozelo, sentindo muita dor. No intervalo, o Doutor Lídio colocou umas ataduras e assim pude voltar, embora ainda com dor. Não poderia sair porque o Gérson estava fora do jogo e não havia na suplência quem pudesse entrar no meio-de-campo. A hora era de sacrifício e assim pude entrar com a minha cota”, detalhou Rivellino, ao jornal O Globo.

Gérson e o jogo visto do lado de fora

“Eu já não queria ter ficado ausente do jogo com os ingleses, mas o doutor vetou minha escalação. Sofri muito do lado de fora e, quando faltavam três minutos para o final, eu quase entro em campo com o Nocaute Jack [o roupeiro], que estava do meu lado, para antecipar o encerramento. Fumei 40 cigarros em hora e meia, e não fumei mais porque as vias respiratórias pareciam entupidas. Foi um sofrimento de louco, mas felizmente compensado pela grande vitória. Comigo não há problema, mas dependo mais do médico. O Doutor Lídio ainda não decidiu, mas acho que vou fazer outro teste. Por mim, reapareço logo. Do lado de fora é mil vezes pior”, comentou o Canhotinha, ao jornal O Globo.

Félix e a boa atuação

“Em momento algum joguei para provar qualquer coisa aos críticos. Joguei só com a preocupação de ajudar o time a ganhar. Tive muita sorte ao defender a tentativa de Lee. Estava bem colocado, mas a cabeçada foi realmente perigosa. E na ânsia de fazer o gol, ele acabou por me atingir no pescoço. Mas foi tudo casual. Ele não teve a intenção de me atingir. Não concordo com os que afirmam ser vulnerável a defesa do Brasil no jogo pelo alto. Quando a turma precisa subir para desarmar o adversário, sobe com facilidade”, falou o goleiro, ao Jornal dos Sports.

Carlos Alberto e sua machadada

Logo após a falta de Francis Lee em Félix, Carlos Alberto deu uma entrada dura no atacante inglês. Ao Jornal dos Sports, o Capita confirmou que desejava mandar um recado, diante da pegada dos adversários na partida até então: “Os ingleses bateram muito em nossos jogadores e foi providencial eu ter dado aquela entrada dura no Lee, logo depois da violência dele contra o Everaldo e o Félix. Fui dar a entender que o pau que roncava lá poderia roncar cá, a qualquer momento e em qualquer hipótese. Foi bom, porque depois não houve maiores problemas. O único machucado no jogo foi o Rivellino, num lance isolado”.

Pelé sobre o milagre de Banks

“Banks eu já conheço de algum tempo. É um grande goleiro. Tem firmeza e extraordinária colocação. Quando saltei para cabecear, ele também correu para o lado em que sentiu que a bola ia e fez uma grande defesa. Pelos tapes que vi, considero que ele até agora é o melhor goleiro da Copa, principalmente por ter sido o mais exigido tanto no nosso jogo quanto na estreia contra os romenos”, afirmou o Rei, em conversa com o jornal O Globo.

Tostão detalha a jogada de seu gol

“No lance do gol contra a Inglaterra, dei três dribles seguidos, depois girei passando para Pelé. Foi o único lance desse tipo que deu certo até agora, de todos que tentei, graças a Deus. Mas sinto que poderia realizar mais vezes esse tipo de jogada. Está dentro de minhas características. Estou atuando numa posição ingrata, entre os zagueiros, mas já que alguém tem que executar essa função, eu executo com muito prazer. Procuro tocar a bola de primeira, evitando o choque com os zagueiros, pois assim o ataque ganha velocidade. Dali, posso proporcionar jogadas para todos os atacantes, particularmente para Pelé, Rivellino e Gérson, que vêm de trás”, analisou, ao Jornal dos Sports.

O atacante também não demonstrou vaidade por dar lugar a Roberto Miranda no segundo tempo: “Poderia ter ficado até o fim. A defesa inglesa é muito boa. Joga duro, mas com lealdade. Compreendi perfeitamente a substituição feita por Zagallo e sou obrigado a reconhecer que ele agiu certo. O nosso time estava recuando demais nos últimos 20 minutos e ele precisava de um homem descansado, veloz e brigador para preocupar com sua luta os zagueiros ingleses, prendendo-os em seu campo. Acho também que o Roberto cumpriu bem esse papel”.

A volta por cima de Paulo Cézar Caju

“Estou contente pela oportunidade que me deram para provar que não sou o perna de pau que a torcida brasileira achava. Tenho 23 anos e, em apenas três anos de futebol profissional, ganhei quatro títulos no Botafogo. Já havia jogado bem pela seleção brasileira, mas confesso que aquela vaia recebida em São Paulo, contra o Chile, me arrasou. Antes, eram só aplausos. Senti muito com as vaias. O mais importante é que agora fiquei satisfeito comigo mesmo. Sei que joguei bem, corri muito, fiz o que pude. Juro que não penso em mostrar aos torcedores do Brasil que fui injustiçado. Procuro mostrar a mim mesmo que tenho condições de ser titular nesta seleção ou de pelo menos colaborar para a vitória. A vaia recebida em São Paulo está sendo muito importante para que eu jogue bem e que o Brasil vença”, contou, ao Jornal dos Sports.

Zagallo explica sua artimanha ao entrar em campo

Em certo momento do segundo tempo, Zagallo entrou em campo para dar instruções aos jogadores. Ele ocupou o posto do massagista Mário Américo e não foi impedido pelo árbitro. Ao Jornal dos Sports, explicou a artimanha: “Entrei com o balde do Mário Américo para acalmar o time, que começava a entrar no desespero com os chuveirinhos. A regra permite e foi inclusive dito no congresso de abertura: podem entrar duas pessoas em campo, sem estipular quem, sendo um massagista e um médico. Como ninguém tinha aproveitado essa chance, entrei para mandar a turma trocar passes e esfriar os ingleses. Mandei o Pelé recuar mais ainda, prender a bola e lançar o Roberto. E o Jair nos contra-ataques. Isso prenderia mais ainda a defesa deles e desafogaria nossa área do bombardeio”.

Os elogios de Helenio Herrera

Cobrindo a Copa do Mundo, o técnico Helenio Herrera elogiou a atuação de Pelé contra a Inglaterra principalmente pela entrega defensiva do craque: “O Brasil jogou com muita inteligência. Sabendo fraca a sua defesa, reforçou-a com Pelé, que jogou um magnífico segundo tempo, correndo muito e voltando para o meio-campo, orientando inclusive a posição de seus companheiros e atacando cada vez que era possível. Foi um jogo bonito: a Inglaterra trocou sua marcação por zona pela marcação homem-a-homem para conter os brasileiros, mas será muito difícil contê-los nesta Copa”.

O buzinaço brasileiro

Bobby Charlton dizia que a noite mal dormida pelos jogadores ingleses na véspera influenciou o cansaço contra o Brasil. Torcedores brasileiros fizeram um “buzinaço” diante do hotel onde estava hospedada a Inglaterra. Charlton trocou de quarto duas vezes e só conseguiu dormir por volta das quatro horas da madrugada. O pontapé inicial da partida no Jalisco aconteceu meio-dia, o que indica que o meio-campista não teve muito tempo para descansar.

O futuro da Inglaterra nas mãos do Brasil?

Embora o Brasil ainda pudesse ser eliminado, uma derrota brasileira contra a Romênia na última rodada era mais perigosa à Inglaterra. Enquanto o time de Zagallo tinha um saldo de gols superior e não perderia seu lugar mesmo com uma derrota simples aos romenos, um triunfo dos azarões criava a necessidade de vitória aos ingleses contra a Tchecoslováquia no dia seguinte. Havia quem defendesse esse procedimento do Brasil, para derrubar os Three Lions o quanto antes no Mundial. Brian Clough, então treinador do Derby County, declarou: “Se eu fosse o técnico da seleção brasileira, era o que eu faria”.

Zagallo também comentou a situação do Brasil, em entrevista ao jornal O Globo: “Vamos fazer figa e isolar três vezes na madeira, mas se o Brasil tiver a infelicidade de perder por 2 a 0 para a Romênia, as coisas se complicam para nós, pois no dia seguinte a Inglaterra pode passar para o primeiro lugar do grupo. Encaramos a Romênia com a maior seriedade e tudo faremos para continuar aqui em Guadalajara, pois quem se deslocar a León sentirá mais desgaste e uma viagem sempre acarreta problemas”.

Angelo Niculescu não mudaria a Romênia

“Os romenos sempre jogam de uma forma só, buscando acima de tudo a técnica. Se fôssemos mudar agora, seria uma complicação tremenda. Espero que seja uma partida bonita, leal e sem incidentes, de vez que temos em alta conta a amizade do Brasil, de que tivemos provas durante a nossa estada lá. Chegar às quartas de final não é tão difícil, mas passar para as semifinais só como sonho. Sabemos das nossas limitações”, afirmou o treinador romeno, próximo adversário dos brasileiros, a’O Globo.

Helmut Schön e o risco de enfrentar o Brasil

“Estamos classificados e jogaremos com o adversário que se apresentar. Nas quartas de final, não tememos ninguém, enfrentaremos com prazer qualquer seleção. A única coisa em que estamos pensando é em permanecer em León e, por isso, temos que vencer o Peru amanhã. Respeitamos muito o Peru, mas acredito que venceremos. Será um grande jogo, pois as duas seleções estão em forma”, declarou o técnico da Alemanha Ocidental, à Folha.

El Salvador reclama

Entre os jogadores de El Salvador, prevalecia a sensação de injustiça. O primeiro tento do México na goleada por 4 a 0 aconteceu num lance absurdo, no qual o árbitro inverteu uma falta. Revoltado, o goleiro Raúl Magaña comentou ao Jornal dos Sports: “O árbitro roubou. Além do roubo no cronometro daquele (e aqui entrou uma ofensa impublicável), só um ladrão não veria que o mexicano bateu uma falta que o bandeirinha dera a nosso favor, para outro mexicano em visível impedimento. Havia ainda outro também na banheira. Assim não é possível”.

Tostão e Jairzinho, pretendidos pelo Milan

Em 1966, o Campeonato Italiano fechou suas portas às contratações de estrangeiros, em projeto de reformulação do futebol local após o vexame contra a Coreia do Norte na Copa do Mundo. Os jogadores nascidos em outros países que já estavam no Calcio puderam seguir por lá, mas o mercado só seria reaberto em 1980. No entanto, segundo o jornal O Globo, havia um interesse de mudar as regras antes, em 1970. Diante da possibilidade, o técnico Nereo Rocco aproveitou para sondar alguns atletas ao seu Milan. Jairzinho e Tostão estavam na mira.

Nelson Rodrigues, em sua coluna n’O Globo

“Antes que me esqueça, porém, vamos falar outra vez dos entendidos. Quando vocês encontrarem um deles, atravessem a rua como se fugissem da peste. Realmente eles são a peste medieval do nosso futebol. Em primeiro lugar, se fingem de imparciais (sempre a favor do adversário). Em segundo lugar, posam de inteligentes. Em terceiro lugar, são os idiotas da objetividade e reduzem o futebol a um puro e intranscedente jogo técnico, tático e físico. A alma, a imaginação, a fantasia, a beleza que vão para os raios que as partam. Negam aos clássicos e às peladas o que eles têm de épico, de sublime, de patético”.

João Saldanha, em sua coluna n’O Globo

“Quando comentamos que o Brasil mereceu a vitória, houve quem objetasse, contestando que a Inglaterra perdeu três gols. Sim, é verdade. Entretanto, mantenho que o Brasil mereceu mais. Por que? Respondo: a psicologia do jogo foi favorável ao Brasil. Explico: como todos viram, foi uma partida disputada cuidadosamente. No primeiro tempo, ficou nítido que o empate satisfazia aos dois quadros. Excluindo os dois lances perigosos da cabeçada de Pelé e a de Lee, tudo mais foi cuidar um ao outro. A falta de Gérson deu aos ingleses um domínio territorial de meio-campo, mas mesmo assim Félix não teve trabalho”.

“Por que? Porque apenas Hurst e Lee eram os atacantes. Uma que outra vez, timidamente, algum outro aparecia. Isto significa que a Inglaterra estava amplamente satisfeita com o empate. Se não atacava com mais jogadores, é porque temia abrir-se e tomar um gol. E como o empate seria um decisivo passo à classificação, não insistia em atacar. Limitava-se a esperar um erro da defesa brasileira para que Hurst ou Lee aproveitasse. A equipe brasileira não atuava diferente: igualmente como a Inglaterra, raramente contava com mais de dois homens no ataque. A conclusão é que no primeiro tempo a psicologia da partida era propositalmente empate. Começou o segundo tempo e as coisas se modificaram. Ou melhor dito: a equipe brasileira modificou seu modo de jogar”.

“Quer dizer, a psicologia do jogo havia mudado. O Brasil já não estava satisfeito com o empate. Claro que isto obrigou os ingleses a mudarem sua concepção e inclusive a mudarem jogadores. Aí, sim, passaram a atacar, desesperadamente, com bolas altas tentando aproveitar o físico não muito privilegiado de Félix. Estou seguro de que se conseguissem o empate, voltariam a defender o empate outra vez. Por isso o Brasil mereceu vencer. Jogou para ganhar no segundo tempo, ao passo que a Inglaterra só atacou quando estava perdendo”.

A charge de Henfil, no Jornal dos Sports

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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