[Os 25 anos da Copa de 94] Al-Owairan e a arrancada fenomenal que ficou na memória
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Três momentos bastante lembrados da Copa de 1994 aconteceram naquele 29 de junho, mesmo que as partidas não fossem tão relevantes. Em campo, Saeed Al-Owairan anotou o gol mais bonito do Mundial, em arrancada fenomenal que demoliu a defesa da Bélgica e garantiu a inédita classificação da Arábia Saudita. Ao mesmo tempo, o doping de Maradona caía como uma bomba na Argentina, ainda aguardando a contraprova. E, pelo Brasil, as rusgas de Galvão Bueno com Pelé foram descobertas através de antenas parabólicas que captaram o material interno da Globo. Cenas que repercutem 25 anos depois.
Até 17 de julho, resgataremos aqui na Trivela os jogos, as histórias e os personagens da Copa do Mundo de 1994. Confira o diário deste 29 de junho, baseado principalmente nos relatos da imprensa brasileira da época:
Uma Holanda ainda tateando seu caminho
A Holanda fazia uma primeira fase arrastada na Copa de 1994, mas dependia apenas de um empate para confirmar a classificação. Dick Advocaat realizava adaptações no time para melhorar o desempenho: “Agora só quero uma coisa: ganhar. É a única coisa que conta. Uma boa classificação terminará com qualquer crítica”. A Oranje ainda botava culpa no calor, dizendo que as altas temperaturas levavam o time a perder a intensidade e a atuar na defesa.
Holanda 2×1 Marrocos: A liderança caiu no colo
A Holanda mais uma vez mudou para o duelo contra Marrocos. Quatro jogadores acabaram no banco, incluindo Frank Rijkaard e Ronald de Boer. Marc Overmars retornava ao time titular, enquanto o meio-campo ganhava Aron Winter. E a equipe sofreu mais do que o esperado. A apertada vitória por 2 a 1 sobre o adversário mais fraco da chave, ainda assim, valeu a liderança do equilibrado Grupo F. Oponentes da Irlanda nas oitavas, os holandeses já sabiam que poderiam pegar o Brasil nas quartas de final, caso ambos avançassem.
Em mais um jogo influenciado pelo calor sufocante, a Holanda não era muito agressiva. Winter cabeceou por cima e Wim Jonk parou no goleiro Zakaria Alaoui – que ganhava um lugar entre os titulares após as falhas do capitão Khalil Azmi. Além disso, Marrocos também ameaçou, sobretudo em chute prensado de Hassan Nader que passou por cima da meta. O gol da Oranje saiu aos 42 minutos. Peter van Vossen, um dos novos titulares, passou por dois marcadores. Quando foi desarmado, Dennis Bergkamp roubou a bola do zagueiro dentro da área e deu um leve toque para encobrir o goleiro.
Durante o segundo tempo, as alterações fizeram efeito. Mustapha Hadji saiu do banco e precisou de um lance para possibilitar o empate, aos dois minutos. Lançado em profundidade pela direita, o camisa 7 cruzou de primeira e Nader escorou à meta aberta. Marrocos deu um breve sufoco na Holanda durante este período, fazendo Ed de Goey trabalhar. A equipe europeia melhorou a partir dos 17 minutos, quando Bryan Roy saiu do banco e incomodou bastante. Impulsionada pelos lançamentos de Ronald Koeman, a Oranje era mais criativa e empatou aos 32. Bergkamp recebeu na esquerda, cortou a marcação e deu o passe rasteiro para o próprio Roy arrematar. No final, De Goey ainda teria que fazer uma defesa difícil, em chute que desviou na marcação e quase entrou no canto.
https://www.youtube.com/watch?v=nfreITDwxS8
A Bélgica poupava os seus destaques
Ao lado de Brasil e Argentina, a Bélgica foi uma das únicas seleções a vencer os dois primeiros jogos da Copa. Por isso mesmo, o técnico Paul van Himst não indicava muitas preocupações com a Arábia Saudita, já classificado. Os belgas poupariam seus jogadores pendurados, inclusive destaques da equipe, como o zagueiro George Grün e o atacante Josip Weber. Enquanto isso, a Arábia Saudita contava com o retorno de Majed Abdullah. Capitão e principal referência técnica, o veterano havia se machucado na estreia contra a Holanda e não participou da vitória sobre Marrocos.
Solari foi breve, mas marcou seu nome
O técnico Jorge Solari assumiu a Arábia Saudita às vésperas da Copa, diante das constantes trocas no comando da equipe. Apesar do pouco tempo de trabalho, conseguiu tirar o melhor do time e recebeu os elogios da realeza saudita. Contudo, não planejava ficar após o Mundial. “Tive que adaptar muitas coisas da minha vida à cultura deles. Mas eu vim só para ajudá-los nesse Mundial e pretendo ir embora logo em seguida”, apontou o argentino. Um de seus antecessores era Candinho. Já a classificação à Copa havia sido conquistada por Leo Beenhakker, que deixou a equipe reclamando da falta de liberdade. Solari, tio de Santiago, havia disputado a Copa de 1966 com a seleção argentina.
Arábia Saudita 1×0 Bélgica: Al-Owairan eterno
A Bélgica entrou em campo com alguns jogadores importantes para o duelo contra a Arábia Saudita. Enzo Scifo, Philippe Albert e Michel Preud’Homme estavam no 11 inicial. Contudo, os sauditas conquistaram um resultado imenso no Estádio RFK. Inesquecível, principalmente por aquilo que aprontou Saeed Al-Owairan. Desde o início da competição, o camisa 10 era apontado como um dos nomes mais talentosos da equipe asiática. Mas poucos poderiam apostar que seria dele o gol mais bonito da Copa. O atacante destruiu a defesa belga para definir o triunfo por 1 a 0 e a passagem às oitavas logo no primeiro Mundial do país.
O gol de Al-Owairan saiu aos cinco minutos. O atacante recebeu a bola no meio do campo de defesa. Dirk Medved tentou acompanhá-lo, mas não conseguiu dar o bote. O camisa 10 também passou por Franky van der Elst e cortou Michel de Wolf, antes de entortar Rudi Smidts. O belga foi andando para trás e acabou no vácuo ao tentar o desarme. Quando Preud’Homme já saía para abafar o chute, Al-Owairan bateu e completou o golaço. Uma pintura que valeu sua fama e moldou os rumos da partida.
Depois disso, a Arábia Saudita se fechou na defesa. Recuou inteira e permitiu que a Bélgica tentasse a pressão. Entretanto, os atacantes dos Diabos Vermelhos viviam uma tarde desencontrada. Erraram vários detalhes na hora de concluir, inclusive já dentro da pequena área. Enquanto isso, os sauditas buscavam os contra-ataques. No segundo tempo, os belgas forçaram algumas defesas de Mohamed Al-Deayea, mas nada muito complicado. Os árabes pareciam mais propensos ao segundo gol, na base da velocidade. Durante os minutos finais, ainda perderam boas chances, com direito a uma defesa dupla de Preud’Homme, antes que a zaga salvasse em cima da linha. A festa dos estreantes pelo resultado seria imensa. Estavam igualmente classificados.
A glória e a desgraça de Al-Owairan
Al-Owairan tinha 26 anos quando anotou o gol espetacular contra a Bélgica. Já era um jogador de importância reconhecida na seleção e na liga local, vestindo a camisa do Al-Shabab. A participação na Copa de 1994, porém, aumentou muito mais a sua projeção. Seria eleito o jogador asiático do ano, enquanto o gol foi eleito o sexto mais bonito do século pela Fifa. Apesar do interesse de clubes europeus, a legislação do futebol saudita na época impediu sua transferência e ele seguiu jogando no Al-Shabab até a aposentadoria, em 2001. Além disso, o com fama de boêmio, o craque chegou a ser pego tomando álcool com mulheres na zona do meretrício no Cairo durante o Ramadã. Por conta do episódio, foi suspenso dos gramados por um ano e também foi preso em um centro de detenção por período estimado de seis meses – a duração da pena não foi divulgada publicamente na época.
“O gol contra a Bélgica foi uma faca de dois gumes para mim. De certa forma, foi ótimo. De outras, horrível. Ele me colocou no centro das atenções, todo mundo estava olhando para mim. Vi aquele lance mais de mil vezes, agora estou honestamente farto”, comentaria Al-Owairan em 1998, ao New York Times, antes de falar sobre o polêmico episódio. “Eu estava com alguns amigos, mas tudo tomou outras proporções por causa da minha fama. Você aprende. Estou tentando agora cuidar de todos os aspectos de minha vida”. O atacante se ausentou na conquista da Copa da Ásia em 1996, mas ainda voltou a tempo de disputar a Copa de 1998, que encerrou sua carreira internacional. Foram 75 jogos e 24 gols pela seleção saudita.
Como ficou o Grupo F
Em um grupo no qual os três classificados somaram seis pontos, a Holanda se deu melhor para ficar com a primeira colocação. Tinha números de gols idênticos aos da Arábia Saudita, mas vantagem no confronto direto. Já a Bélgica acabou em terceiro por ter menos gols marcados em relação aos outros dois oponentes. Marrocos, lanterna, não pontuou.
O doping de Maradona
A Copa do Mundo se transformou a Diego Maradona em 29 de junho. Até então, o craque vinha aclamado como um dos melhores da competição, responsável pelas ótimas atuações da Argentina nas duas primeiras rodadas. No entanto, seria pego no exame antidoping após a vitória contra a Nigéria. A divulgação do resultado positivo ainda mantinha a suspensão como uma hipótese, já que contraprova precisava ser examinada pelo laboratório da UCLA.
Segundo o jornal Clarín, Maradona usou um descongestionante nasal pouco antes do jogo contra a Nigéria. O medicamento havia sido recomendado por seu médico particular e continha efedrina. O estimulante até poderia ser permitido pela Fifa, caso houvesse aviso prévio dos médicos da seleção, o que não ocorreu. O presidente da AFA, Julio Grondona, se reuniu com a organização da Copa logo após a descoberta. O dirigente sustentou que Maradona tomou a substância por conta própria, sem permissão dos médicos da seleção. A atitude do cartola praticamente condenava o camisa 10, suspenso automaticamente se a contraprova também desse positivo.
Mesmo assim, o técnico Alfio Basile garantia a escalação de Maradona contra a Bulgária, em 30 de junho. Só barraria o camisa 10 se a contraprova confirmasse o resultado. Aquele era o terceiro caso positivo de doping em uma Copa. O haitiano Ernest Jean Joseph (1974) e o escocês Willie Johnston (1982) antecederam o argentino. Em 1991, Diego havia sido afastado do futebol por 15 meses, ao serem identificados traços de cocaína em exame antidoping feito quando defendia o Napoli.
“O Maradona deve ter usado mais do que um frasco de remédio para as provas chegarem a essa conclusão. A quantidade deve ter sido muito grande e não existe sentido terapêutico nisso. Alguém só faz uma coisa dessas com a intenção de se dopar”, avaliava o professor Francisco Radler Aquino Neto, coordenador do Laboratório de Controle de Dopagem da UFRJ, ao Jornal do Brasil. A efedrina permitiria maior oxigenação do sangue e daria melhores respostas aos estímulos nervosos.
Galvão Bueno x Pelé
Foi durante o Brasil 1×1 Suécia que Galvão Bueno acabou flagrado fazendo suas famosas críticas a Pelé. As imagens chegaram por acaso através de parabólicas. “Estávamos captando as imagens da Globo via antena parabólica. Quando terminou, Galvão Bueno entrou em cena usando um fone de ouvido e dizendo algo do tipo: ‘Eu pedi para o Pelé falar menos durante a partida. Não adianta. Eu fecho o microfone dele, ele vem, abre e fala. O que vou fazer?'”, declarou Ary Costa Pinto, jornalista que viu a cena na TV, à Folha de S. Paulo. No mesmo momento, Costa Pinto ligou outro aparelho sem parabólica e Galvão não estava aparecendo na transmissão. Diretor de esportes da Globo, Ciro José afirmava que aquilo era loucura e que simplesmente não tinha acontecido. Já a Embratel confirmou que era possível captar por parabólica imagens utilizadas apenas internamente pelas emissoras.
https://www.youtube.com/watch?v=eNJW6tL9zl0
Enquanto isso, na seleção brasileira…
Carlos Alberto Parreira estudava realizar mudanças na Seleção para o duelo contra os Estados Unidos. Segundo o Jornal do Brasil, o treinador cogitava tirar Zinho e adiantar Leonardo ao meio-campo. Além disso, não teria ficado satisfeito com a participação de Mazinho contra a Suécia. “Qual o jogador tem característica de um Raí? Poucos sabem prender a bola na intermediária e ainda ter força para chegar na área e fazer gols. Mazinho trabalha bem na armação, mas não tem a mesma disposição quando vai à frente. Não é de concluir muito a gol”, analisou. “Quem tem a característica de meio-campo? Já tive o Valdo, mas era lento para atacar. O Elivélton chegou a ser uma esperança, depois caiu. No amistoso contra o México, gostei muito do Rivaldo, mas ele decepcionou contra o PSG. Com isso, Zinho ficou garantido. Como mexer em plena Copa? Contra defesas fechadas, gostaria que tentasse lances individuais, mas ele evita por não estar confiante”.
Já Zagallo tentava intimidar os americanos, antes do duelo pelas oitavas. “Vocês devem começar a rezar antes do jogo contra o Brasil, assim como nós fazemos quando enfrentamos a seleção americana de basquete”, falou, ao Miami Herald.



